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Ator Genézio de Barros celebra 50 anos de carreira sem se dar conta

Em cartaz com a comédia “Irineu”, artista força a memória para se lembrar de momentos marcantes de sua trajetória no teatro, na televisão e no cinema, mas não sabe precisar um marco inicial

Por Dirceu Alves Jr.

Era o auge de A Favorita, novela de João Emanuel Carneiro exibida pela Rede Globo em 2008. Depois de experiências frustradas na televisão, Genézio de Barros, hoje com 73 anos, ganhava destaque como Pedro, o pai de Flora (papel de Patrícia Pillar), a mocinha que se revela vilã no meio da trama.

Em uma passagem por sua cidade natal, Taquaritinga, no interior paulista, o ator visitou a Fatec, faculdade onde seu irmão lecionava, e ouviu de uma professora: “Olha, o filho de uma amiga deseja estudar teatro, você bateria um papo com ele?”. Genézio coçou a barba e topou encontrar o rapaz. “Eu dei aqueles conselhos de sempre, estude bastante, não pense na fama e tenha persistência, porque nada vai ser fácil”, repete o discurso decorado para situações como esta.

Passaram-se quase 15 anos, e Genézio recebeu um telefonema: “Aqui é o Tiago Luchi, a gente se conheceu em Taquaritinga e eu segui seus conselhos”, avisou o ator, agora, profissional. “Eu escrevi uma peça, gostaria de saber se você toparia ler e, caso goste, queria muito que a gente pudesse fazê-la juntos”, completou.

Genézio de Barros, em cena da peça Irineu. Foto Lenise Pinheiro

Genézio coçou de novo a barba, pensou em voz baixa “ai, meu Deus…” e, gentilmente, respondeu que faria a leitura. Foi assim que Irineu, comédia escrita por Luchi e dirigida por Ricardo Grasson, em cartaz no Teatro Marte Hall, na Vila Mariana, caiu nas mãos do seu protagonista. O ator está acostumado a receber dezenas de textos que não lhe dizem absolutamente nada, mas, diante daquela dramaturgia simples e leve, se viu tocado de uma forma que não sabe bem como explicar.  “Percebi que o Tiago tem aquela semente, é só regar que dali pode sair um belo autor e, então, falei para ele correr atrás de alguém que levantasse a produção.” 

Na peça, Luchi também está no palco e interpreta João Macena, um rapaz que chega a um hospital com a suspeita de um tumor no cérebro e divide o quarto com Irineu (personagem de Genézio), um senhor dono de uma imaginação sem limites. Entre suas muitas histórias curiosas estão aquelas vividas no tempo em que foi motorista de táxi, outras de uma viagem de navio à América ou ainda as do dia em que pisou em um campo de batalha japonês.

Macena se encanta com o vizinho de leito e decide enfrentar o tratamento para que, depois da cura, ele também possa se tornar um contador de causos tão saborosos como aqueles. Companheira de Genézio desde o início da carreira, a atriz Maria do Carmo Soares completa o elenco na pele da enfermeira encarregada dos dois pacientes.

O diretor Ricardo Grasson levou para a encenação referências dos filmes Forrest Gump – O Contador de Histórias e Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas e completou a inspiração na linguagem fantástica desenvolvida pelos cineastas Wes Anderson, Guillermo del Toro e Yorgos Lanthimos.

Para Genézio, Irineu é um espetáculo divertido, com um pé na fantasia, capaz de contribuir para uma nova formação de público tão necessária para o teatro. “Sou da época em que eram cinco, seis sessões semanais e, agora, a gente faz só duas em uma temporada de dois meses em que sequer dá para consolidar o boca-a-boca”, lamenta. “Dois meses era o período de teste para saber se um espetáculo vingaria ou não.”

Genézio de Barros, Maria do Carmo Soares e Tiago Luchi em Irineu. Foto Lenise Pinheiro

O ator tem cancha suficiente para reclamar. São mais de 70 montagens no currículo e, nos ensaios de Irineu, ele foi lembrado pela produção de que contabilizava cinco décadas de carreira. Mesmo provocado pela memória, Genézio não sabe precisar um marco inicial de sua trajetória e, para isso, relembra que saiu de Taquaritinga rumo a São Paulo aos 21 anos. Trabalhando meio turno no Banespa, matriculou-se em um curso livre de teatro na Escola Contemporânea de Artes, em 1974, que resultou no espetáculo A Mandrágora, dirigido por Afonso Gentil. 

No ano seguinte, depois de cursar oito meses a faculdade de cinema na Escola de Comunicação e Artes (ECA), entendeu que seu futuro seria na Escola de Arte Dramática (EAD), que funcionava no mesmo prédio da USP. Transferência feita, Genézio entrou para a turma que formaria também os jovens Norival Rizzo e Noemi Marinho, e a primeira peça montada foi Homens de Papel, de Plínio Marcos. “Eu nunca me preocupei em registrar o que faço, guardar material, essas coisas, porque, para mim, o que sempre me interessou foi trabalhar.”

Genézio, porém, confessa que saiu da EAD, no final de 1977, meio perdido, sem saber para onde correr, crente de que não havia tantas possibilidades no mercado. O convite do diretor Carlos Alberto Soffredini para participar do Grupo de Teatro Mambembe e da peça A Farsa de Inês Pereira, em 1978, porém, lhe abriu uma perspectiva que serviria de prumo para a carreira. “Fiquei no Mambembe uns seis anos e entendi que a melhor coisa é estar vinculado a um grupo porque o ator consegue diferentes possibilidades para o exercício de seu ofício”, reconhece. 

Junto ao Grupo Tapa, de Eduardo Tolentino de Araujo, Genézio ganhou projeção nos espetáculos As Raposas do Café (1990), de Antonio Bivar e Celso Luiz Paulini, Rastro Atrás (1995), de Jorge Andrade, e Ivanov (1998), de Anton Tchekhov, o mesmo autor russo de quem já tinha feito A Gaivota, sob a direção de Francisco Medeiros, em 1994.

Falando de Rastro Atrás, o ator lembra de sua primeira frustração na televisão, quando precisou deixar a montagem ao ser escalado para a novela O Rei do Gado, de Benedito Ruy Barbosa, em 1996. “Fui chamado para um personagem que acabou na mão de outro ator e me colocaram para interpretar um líder do núcleo dos sem-terra que apareceu em uma única cena de dois minutos e nunca mais”, lembra. “Foi um trauma porque, mesmo recebendo salário por um ano inteiro sem fazer nada, fiquei preso a um contrato que me impedia de aceitar outros trabalhos, como uma participação no filme Central do Brasil.” 

Genézio de Barros, que está na peça Irineu. Foto Igor Santiago

As pazes com a televisão só viriam mesmo em A Favorita, mas Genézio seguiu o seu percurso sem folga. Ganhou destaque no cinema com os filmes Ação entre Amigos (1998), de Beto Brant, e Quase Nada e Onde Anda Você, dirigidos por Sérgio Rezende em 2000 e 2004 respectivamente.

Nos bastidores de Onde Anda Você, ficou amigo do ator Juca de Oliveira, que escreveu para ele um dos papeis principais da comédia A Flor do Meu Bem-Querer, um caipira que de bobo não tinha nada. “Uma peça do Juca era só alegria porque, além de tudo, vinha com a promessa de ficar, no mínimo, um ano em cartaz”, comenta o artista, que, na época, tinha acabado de brilhar na densidade de Longa Jornada de um Dia Noite Adentro, ao lado de Cleyde Yáconis e Sérgio Britto.      

Entre 2009 e 2023, Genézio participou de onze novelas na Rede Globo. A mais recente delas, Amor Perfeito, saiu do ar em setembro passado. Entre uma temporada e outra de gravações no Rio, atendeu o chamado do teatro em Doze Homens e uma Sentença, novamente com o Grupo Tapa, protagonizou o vigoroso monólogo O Monstro, adaptado do conto de Sérgio Sant’Anna, e figurou em meio ao grande elenco de Mary Stuart, montagem de Nelson Baskerville protagonizada por Virginia Cavendish e Ana Cecília Costa em 2022. “Na carreira de um ator, cada trabalho é um desafio, não existe uma rotina”, afirma. “Vejo engenheiros e advogados loucos pela aposentadoria, mas com atores não acontece isso, aliás, se um ator reclamar que está trabalhando deve haver algo de errado com ele.”

Serviço

Irineu.

Teatro Marte Hall. Rua Domingos de Morais, 348, Vila Mariana.

Sábado, 20h. Domingo, 18h. R$ 80.

Até 26 de maio.    

Dirceu Alves Jr

Dirceu Alves Jr

Jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

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