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“Elefante” aborda a resistência ao envelhecimento e o tabu da morte

Sinopse

Sob a direção de Igor Angelkorte e em homenagem ao ator e professor Fernando Bohrer, a montagem da Probástica Companhia de Teatro estreou em 2013 e ganhou novo fôlego depois do trauma pandêmico

Por Dirceu Alves Jr.

Para começar a explicar o espetáculo Elefante, em cartaz no Sesc Belenzinho, o ator e diretor carioca Igor Angelkorte, de 36 anos, usa uma imagem poética. Nas suas palavras, quando uma árvore cai naturalmente é porque atravessou um ciclo completo. Foi pensando nos mistérios da existência que, instigado por uma notícia de jornal, o artista criou o argumento da peça que tem texto escrito pelo dramaturgo Walter Daguerre. Estava lá no impresso: com o avanço da ciência, pesquisadores pregavam que a ideia de morte por causas naturais estaria perto do fim, e o homem eterno, quem sabe, até teria nascido.

Estamos falando de 2011, talvez 2012, Angelkorte acabara de perder a sua avó, figura fundamental em sua formação, de maneira repentina, aos 70 anos. “Ela passou a ter umas ausências e rapidamente partiu, fiquei triste, atordoado, o vazio deixado pela morte sempre me assustou, desde pequeno, e não bem explicar”, afirma. Junto da Probástica Companhia de Teatro, fundada por ele, ao lado de Chandelly Braz, Fernando Bohrer, Lívia Paiva e Samuel Toledo, Elefante começou a nascer, com ares de ficção científica, e estreou em 2013, ficando em cartaz até 2017 e retomando carreira nesta temporada paulistana. “Desde então, 2017, nunca mais pisei no palco, pensávamos que a peça tinha acabado, veio o sofrimento da pandemia, trabalhos no audiovisual e um ciclo parecia fechado”, diz. “Volto ao teatro agora, em São Paulo, e vejo que o espetáculo, assim como nós, está envelhecendo bem.”

Cena da peça Elefante. Foto Phillipp Lavra

Elefante trata do tabu da morte, do envelhecimento do corpo e de quem testemunha o processo do fim de cada um de nós. Em um futuro não muito distante, descobriu-se uma pílula que garante a eternidade. Basta tomá-la que ninguém mais definha, fica conservado na faixa dos 30 anos, e muito menos morrerá. É diferente de outros enfoques do tema, como, por exemplo, o romance As Intermitências da Morte, de José Saramago. Naquela obra, ninguém morria, mas conhecia a decrepitude. Aqui, a idealização da juventude, a beleza e a energia resistem inabaladas.

O fotógrafo Francisco (interpretado por Fernando Bohrer), porém, decide ser uma nota dissonante. Ele vai registrar as imagens do cotidiano de uma ilha onde a população negou a tal droga e, impactado, enxerga a importância de pagar o preço para viver todos os estágios da existência humana. Sua família (representada por Chandelly, Lívia, Angelkorte e Toledo) se revolta, considera a atitude uma eutanásia, não entendem a razão que leva Francisco a cogitar passar por uma experiência ultrapassada e descartada por todos. “A peça vai atravessando questões filosóficas, morais, éticas, existenciais, toca em coisas que talvez nem a gente que trabalha nela há tanto tempo entende até agora”, declara Angelkorte. “Nós ensaiamos 10 meses, estamos fazendo há 10 anos e sempre descobrimos outras intenções.”   

Outra cena da peça Elefante. Foto Phillipp Lavra

A montagem da Probástica Companhia de Teatro resultou em uma homenagem ao ator Fernando Bohrer, hoje com 82 anos, que foi professor de todo o elenco durante a formação na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), entre o final dos anos de 2000 e comecinho dos de 2010. “É um elogio a todos os professores, pedagogos, educadores da arte, que são tão pouco valorizados, e, graças ao empenho, à dedicação pessoal deles, novos artistas surgem por aí”, comenta o ator e diretor. 

A admiração pelo mestre resultou em um outro trabalho de cunho documental e afetivo, o filme Fernando, realizado por Angelkorte, Paula Vilela e Julia Ariani, um jogo entre o real e a ficção. No longa, o cotidiano do professor é mostrado a partir da descoberta de um problema cardíaco e os impactos desse diagnóstico em sua vida pessoal e nas relações com a arte.

Angelkorte se deixa tomar pela emoção ao falar de Bohrer. O diretor revela que sofreu muito na pandemia. Mesmo na fase final, não conseguia se livrar da depressão, pensar em futuros trabalhos, chutar a bola para frente. Um dia, ele controlou a tristeza e foi visitar o mestre, que não encontrava há bastante tempo e tinha perdido há menos de dois meses uma pessoa amada. Ao abrir a porta do elevador, Angelkorte enxergou Bohrer no fundo do corredor e, vendo a fisionomia abatida do ex-aluno, o professor bateu forte o pé no chão, simulou uns passos de flamenco e deu a entender que a cura dos dois começaria naquele momento. “Fernando não faria essa temporada, alegou cansaço, questões da idade, tentamos outros atores por mais de um mês e ninguém conseguia a disponibilidade”, conta o diretor. “Ele é mais jovem que todos nós, um mestre vaga-lume, um desses artistas anônimos para a maior parte do Brasil, mas que serve de motor para muita gente.”

Serviço

Elefante.

Sesc Belenzinho – Sala de Espetáculos 1. Rua Padre Adelino, 1000, Belenzinho.

Sexta e sábado, 19h; domingo e feriado (1º de maio), 17h. R$ 50.

Até 5 de maio.

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Ficha Técnica

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Serviço

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