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César Mello e Paulo Gorgulho perseguem a humanização dos mitos em “Entre Franciscos, O Santo e o Papa”

Sinopse

Peça de Gabriel Chalita, dirigida por Fernando Philbert, estreia no Teatro Sérgio Cardoso e cria um encontro entre São Francisco de Assis e o Papa Francisco

Por Dirceu Alves Jr.

Em 2017, o Papa Francisco inaugurou em Roma uma lavanderia para que os moradores de rua pudessem limpar, secar e passar roupas e cobertas sem custos algum. O serviço assistencial, administrado por voluntários, foi estendido para as cidades italianas de Gênova e Turim e, mais que higiene, oferece dignidade à população carente.

É em um destes estabelecimentos que se ambienta a ação de Entre Franciscos, O Santo e o Papa, peça de Gabriel Chalita dirigida por Fernando Philbert, que estreia nesta sexta, 10, na Sala Paschoal Carlos Magno, do Teatro Sérgio Cardoso. Cansado da realidade, o Papa Francisco (interpretado por Paulo Gorgulho) busca sossego em uma das lavanderias para refletir em meio a tantas incertezas e decepções. Por lá, ele encontra um rapaz (vivido por César Mello), que acompanha a limpeza de suas roupas e se revelará como São Francisco de Assis.

César Mello e Paulo Gorgulho na peça Entre Franciscos, O Santo e o Papa. Foto Guilherme Logullo

Oito séculos separam estes dois homens que, neste encontro fictício, são retratados com objetivos e inquietações bastante semelhantes. São Francisco teria nascido na cidade italiana de Assis entre 1181 e 1182 e morrido em 1226.  O argentino Papa Francisco, por sua vez, é de Buenos Aires, tem 87 anos e, desde 2013, responde pelo posto máximo da Igreja Católica com uma postura combativa e até incômoda para quem esperava dele a mera defesa dos interesses do clero    

Veio de Philbert a sugestão para Chalita usar uma das lavanderias como cenário de Entre Franciscos, O Santo e o Papa. A dupla já tinha trabalhado no monólogo Sorriso de Mãe, protagonizado por Joelson Medeiros, e, quando o texto chegou às mãos do diretor, a ação se passava em um quarto, onde o Papa adoentado recebia a visita do santo. “Por onde caminhar para que a peça não virasse uma missa ou uma mera autoajuda?”, pensou o encenador. 

Philbert acreditou que a mudança ampliaria o entendimento e o alcance da dramaturgia. “O Gabriel tem uma escrita atravessada pela fé católica, e nós subvertemos o texto, enfocando dois homens que se debatem contra o mundo e vão se apoiando um no outro”, diz. “Como não sou religioso, ajudo a puxar o pêndulo da peça para a vida real, mostrando que estes dois sujeitos por acaso são os Franciscos, mas podem representar cidadãos comuns.”

César Mello e Paulo Gorgulho na peça Entre Franciscos, O Santo e o Papa. Foto Guilherme Logullo

Paulo Gorgulho, de 65 anos, respirou aliviado ao saber, no primeiro encontro da equipe, que a intenção do autor e do diretor era caracterizar a montagem com uma abordagem filosófica e não religiosa. “Se você acha que a sua fé é a única pura e verdadeira pisamos em um terreno muito perigoso e poderíamos alimentar essa polarização política que também atingiu a religião”, explica ele, que, apesar de não ser católico, tem formação cristã.

O ator confessa profunda admiração pelo Papa Francisco e suas ações voltadas para os desvalidos e as minorias, que não chegam nem perto, segundo ele, do trabalho desenvolvido por seus antecessores. “É um papa que se expõe para o mundo todo, suas declarações são firmes e não deixa barato sobre homofobia, abusos e pedofilia”, diz o artista. “Por isso, o que me interessa na composição do personagem é transmitir o caráter e não me preocupo em caminhar ou falar como um senhor que tem 87 anos.”  

Intérprete de São Francisco, César Mello, de 47 anos, não pratica nenhuma religião. Tem uma caminhada em busca do autoconhecimento com meditação e numerologia e acredita que a abordagem metafísica faz do espetáculo um tratado sobre a fé e o combate aos preconceitos. “O meu personagem está na Itália de hoje, tem raízes africanas e pode ser qualquer um dos imigrantes que chegam a Europa toda hora em busca da sobrevivência.”.

O próprio Chalita pensou em Mello para o papel porque considerou relevante São Francisco de Assis ser representado por um preto. Em cena, o personagem abre o universo para as matrizes africanas e canta duas músicas traduzidas para o iorubá. O ator, que já deu vida ao advogado abolicionista Luiz Gama (1830-1882) no filme Doutor Gama, orgulha-se de viver mais um personagem verídico que, com sabedoria, lutou pelas transformações. “A responsabilidade de representar São Francisco se multiplica porque, assim como o Papa, ele ultrapassa a Igreja Católica e suas ações se ampliam para o meio ambiente, para a proteção dos animais e, claro, para uma luta pela igualdade”, salienta.     

César Mello e Paulo Gorgulho na peça Entre Franciscos, O Santo e o Papa. Foto Guilherme Logullo

Gorgulho e Mello são atores de gerações distintas que, de certa forma, reencontram o teatro de maneira comum com Entre Franciscos, O Santo e o Papa. Formado pela Escola de Arte Dramática (EAD) em 1981, Gorgulho trabalhou naquela década com os diretores Antônio Abujamra (1932-2015) e Iacov Hillel (1949-2020) e ganhou projeção na televisão diante do estouro da novela Pantanal (1990), na TV Manchete. “Tem centenas de atores que podem ser mais preparados que eu, mas contou muito estar na hora e no lugar certos”, reconhece. Na Rede Globo, emendou diversas novelas, passou pela Record e ficou sem tempo para os palcos. O último trabalho foi CataDores, junto do ator Jairo Mattos, apresentado até 2012.

O reconhecimento para Mello, que começou pelo teatro dramático, veio no terreno dos musicais em Hair, O Rei Leão, Wicked e o recente Uma Linda Mulher. Nos últimos anos, junto às oportunidades no audiovisual, como na série Bom Dia, Verônica, no filme O Pastor e o Guerrilheiro e na novela Elas por Elas, ele viu reaparecerem os convites para as peças, digamos, de prosa. Sob a direção de Nelson Baskerville, o artista participou de Mary Stuart (2022) e Amadeo (2023), espetáculo em que foi visto por Chalita e recebeu o convite para Entre Franciscos, O Santo e o Papa. “O que mais me instiga neste trabalho é a humanização de São Francisco, porque o meu personagem não tem nada de santo, esta é uma imagem que a igreja criou para ele”, completa Mello.  

Serviço

Entre Franciscos, O Santo e o Papa.

Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno. Rua Rui Barbosa, 153

Sexta a domingo, 18h. R$ 80.

Até 30 de junho. A partir de sexta (10).

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Ficha Técnica

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Serviço

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