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Solo com Fernanda Viacava coloca a prostituta Gabriela Leite como símbolo de liberdade feminina

Sinopse

Sob a direção de Malú Bazán, “Gabri[ELAS]” que estreia no Sesc Avenida Paulista parte da vida e das ideias da ativista para abordar o universo das mulheres

Por Dirceu Alves Jr.

Foi em 2014, durante os ensaios da peça Abajur Lilás, de Plínio Marcos (1935-1999), que a atriz Fernanda Viacava, de 53 anos, teve o primeiro contato com a vida e as ideias da prostituta e ativista Gabriela Leite (1951-2013). Por sugestão de Isadora Ferrite, sua colega de elenco, ela leu a biografia Filha, Mãe, Avó e Puta, lançada em 2009, e pensou que um dia levaria aquela história para o palco. 

A partir desta sexta, 12, em uma sala envidraçada do 4º andar do Sesc Avenida Paulista, Fernanda e Gabriela se encontram pela primeira vez no monólogo Gabri[ELAS], dirigido por Malú Bazán, com base em dramaturgia da roteirista Caroline Margoni e pesquisa da psicóloga Elaine Bortolanza. No artifício cênico, Fernanda se desdobra entre as duas personagens – ela mesma e a ativista – em uma conversa que ultrapassa as questões do meretrício e trata de sexualidade, maternidade, preconceito e menopausa. “O texto de Caroline apresenta duas curvas dramáticas”, adianta a atriz. “Enquanto Gabriela enfrenta um processo judicial, eu questiono os caminhos da minha carreira e a necessidade de aceitar ou não papéis secundários que pouco me acrescentam.”

Fernanda Viacava no solo Gabri[ELAS]. Foto Cassandra Mello

A paulistana Gabriela Leite foi a primeira mulher a se assumir publicamente como profissional do sexo, ainda no começo da década de 1980, e se tornou referência na luta pelos direitos de uma categoria renegada pela sociedade. Estudante de filosofia na USP, ela veio de uma classe média e deixou o escritório em que dava expediente como secretária para, em busca de uma reviravolta pessoal, fazer plantão nas zonas boêmias de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Em 2005, fundou a grife Daspu, que cria roupas femininas e apoia políticas públicas em defesa das garotas de programa. “Quase ninguém enxerga a prostituta como trabalhadora, como prestadora de serviços, e a Gabriela dizia que, mesmo para quem tem poucas escolhas na vida, essa profissão era uma escolha”, afirma Fernanda.

Em 25 anos de carreira, Fernanda deu corpo e voz a outras meretrizes, como nas peças Réquiem (2011), Abajur Lilás, Memórias (Não) Inventadas (2017) e Jornada de um Imbecil até o Entendimento (2018). Diante de Gabriela, porém, veio a insegurança de não ter um lugar de fala para encarar um desafio tão forte e categórico – por isso, a opção de borrar os limites de ficção e realidade por meio de duas narrativas paralelas. 

Fernanda Viacava no solo Gabri[ELAS]. Foto Cassandra Mello

Em 2019, a artista convidou Malú Bazán, de 46 anos, para dirigi-la no projeto e começou a se cercar de uma equipe feminina – hoje são catorze mulheres na ficha técnica – que lhe ajudou a encontrar a embocadura da personagem. O processo se arrastou por quatro anos e, segundo Malú, a pandemia desbancou qualquer possibilidade de prazo e trouxe uma calma para realização de dezenas de entrevistas. Foram ouvidos familiares de Gabriela e lideranças do movimento das prostitutas de diversas partes do Brasil, e posteriores pesquisas de campo levaram o espetáculo a uma maturação que vai além de simplesmente colocá-lo cena.   

No Jardim Itatinga, em Campinas, considerado um dos maiores redutos de prostituição da América Latina, Fernanda e Malú conversaram com Betânia Santos, coordenadora da Associação Mulheres Guerreiras, em um quarto totalmente vermelho. A diretora, até então resistente a adotar qualquer clichê que reforçasse o estereótipo da sexualidade, viu que tais elementos extrapolavam o imaginário popular. “Era um ambiente com muita poluição sonora, com rádio e televisão ligados, gente falando o tempo todo”, lembra Malú.

Fernanda conta que enxergou uma liberdade rara ao sair para circular pelo bairro por volta das 15h ou 16h e um evidente orgulho daquelas mulheres no exercício da profissão. “As meninas ficam nas ruas de calcinha, algumas com o peito de fora, de salto alto ou rasteirinha, logo elas também apostam naquele jogo de sedução, na paquera, existe um teatro envolvendo aquela história”, define a atriz. “E essa voz de se assumir puta começou com Gabriela.”    

Malú ressalta que a ativista não comprou brigas apenas pelos reconhecimentos de uma categoria profissional, mas também para que as mulheres se vissem no direito de abrir novas possibilidades de mundo. Por isso, como diretora, ela teve a preocupação de mostrar Gabriela com a perspectiva das décadas de 1970, 1980 e 1990 sem promover nenhum tipo de descontextualização – independentemente dos avanços em torno da causa feminina verificados desde 2013, ano de sua morte. “É importante conservar o que tem de mais contundente em seu discurso de mulher, mãe e profissional porque o que me move a falar de Gabriela é o fato de ela dizer ‘a rua é minha, o corpo é meu’ e nada pode ser mais atual, ainda mais na semana em que foi encontrada morta a artista Julieta Martínez, a palhaça Jujuba.”  

Serviço

Gabri[ELAS].

Sesc Avenida Paulista. Avenida Paulista, 119.

Sexta e sábado, 20h30; domingo, 18h30. R$ 40.

Realização: Sesc 

Até 4 de fevereiro. Sessão extra na quinta (25).

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Ficha Técnica

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Serviço

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