O texto do Alberto Romero, sob a direção de Miguel Arcanjo Prado e Zé Guilherme Bueno, apresenta o reencontro de um casal afastado na adolescência
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 20 de maio de 2026)
Gabo (interpretado por Juan Tellategui) e Fernando (papel de Cícero de Andrade) se apaixonaram na adolescência e, vítimas do preconceito naquela época, não tiveram a chance de viver esse amor. Passados 25 anos, os dois podem entender os verdadeiros motivos que os levaram a um abrupto afastamento e, quem sabe, ensaiar um recomeço para esta história.
Escrita pelo autor argentino Alberto Romero, a comédia dramática Visita a Domicílio estreia nesta quarta, 20, na Sala Paschoal Carlos Magno, do Teatro Sérgio Cardoso, depois de lançada no 34º Festival de Curitiba, em abril. A montagem marca a estreia na direção do jornalista Miguel Arcanjo Prado, que divide os créditos com Zé Guilherme Bueno e responde pela adaptação do texto traduzido por Tellategui, idealizador do projeto.
Gabo e Fernando são dois homens com mais de 40 anos que se reencontram em uma situação casual. O primeiro enfrenta um problema inesperado na coluna e, impedido de procurar um hospital, aciona o plano de saúde em busca de um médico que possa atendê-lo em casa. Para a surpresa de ambos, quem aparece é Fernando e os dois, entre traumas e memórias, começam a acertar as contas do passado.

Não se trata, porém, de uma peça pesada ou que procura levantar bandeiras identitárias – embora a causa esteja inevitavelmente presente na abordagem. Visita a Domicílio começa como uma comédia bem tradicional, capaz de arrancar gargalhadas de alguns segmentos da plateia e, aos poucos, vai se adensando, em uma fórmula comum da cena argentina, que valoriza o drama sem deixar de lado o humor. “O autor sempre ressaltou que escreveu uma comédia dramática e não via a necessidade de que toda a história sobre personagens LGBTQIAP+ termine com mortes ou sofrimentos”, comenta Arcanjo. “O texto pode parecer leve, mas é repleto de simbolismos que devem pegar o público pelo coração porque trata de vínculos afetivos.”
Com duas décadas de exercício na cobertura teatral, o mineiro Arcanjo, de 44 anos, vive desde 2007 em São Paulo e, como dramaturgo, assinou a peça Entrevista com Phedra, dirigida por Tellategui e Robson Catalunha em 2019. O texto era baseado em reportagens realizadas pelo jornalista com a atriz cubana Phedra D. Córdoba (1938-2016), que morou no Brasil por 40 anos e, na sua última década de atividade, participou de diversos espetáculos da Cia. Os Satyros. “O que me leva a dialogar com o teatro é o amor pelas pessoas”, diz ele, negando qualquer vaidade. “Tinha uma grande amizade com a Phedra, ela me pediu que contasse a sua história no palco e, agora, volto ao teatro por causa do Juan.”
O ator argentino Juan Tellategui, de 45 anos, nasceu em Zárate, foi criado em Buenos Aires e, desde 2011, adotou São Paulo como a sua cidade. Há três anos, de passagem pelo seu país, ele encontrou o dramaturgo Alberto Romero e pediu sugestões de textos para montar no Brasil. Visita a Domicílio, que tem o título original de Tu Hipocampo y mi Caballito de Mar, até então inédito na Argentina, foi apresentado por Romero e o encantou de imediato. “Fiquei interessado na forma como ele concentra essa história nas relações pessoas”, justifica Tellategui. “A sexualidade dos personagens não está atrelada a um viés trágico e a abordagem é esperançosa e positiva.”
Zé Guilherme Bueno, de 35 anos, conheceu o texto quando foi sondado por Arcanjo e Tellategui para o papel de Fernando. Com dez anos de estrada como intérprete, ele participou de, entre outros espetáculos, Tatuagem, Nossos Ossos e João, encenados por Kleber Montanheiro, e carrega a experiência de ter sido assistente de direção de Elias Andreato em dez montagens e de Gabriel Villela em outras três.

Como diretor, Bueno assinou De Furdunço a Cafundó, texto de Raphael Gama, e O Homem Imortal, dramaturgia de Luís Alberto de Abreu. “Eu li Visita a Domicílio pela primeira vez como ator, gostei bastante da história, mas imaginei que teria uma contribuição maior a oferecer na função de diretor”, conta Bueno. “Achei uma dramaturgia muito episódica, em oito atos, mais próxima a uma telenovela, e, a partir desta observação, tive algumas ideias que incorporei à própria encenação e colaboraram para a gente alcançar uma síntese.”
A entrada de Cícero de Andrade, de 37 anos, completou a feição inicial do projeto. Produtor de espetáculos significativos, como os recente O Retorno e Mulher em Fuga, ele é amigo de Arcanjo e Tellategui desde 2016, quando participou de Romeu e Julieta, versão dirigida por Zé Henrique de Paula no Teatro do Núcleo Experimental, e reconheceu que teria a chance de trocar com uma nova equipe. “Eu investigo a temática LGBTQIAP+ e o que me chamou a atenção em Visita a Domicílio é que os personagens gays não são colocados em cena sofrendo com situações de violência”, diz Andrade. “Durante o processo, eu percebi que, como ator, estava querendo mesmo respirar um pouco das funções de produtor e voltar a experimentar o jogo cênico.”
Em meio aos ensaios, a participação de Arcanjo se tornou cada vez mais intensa e foi além da visão de um mero adaptador ou produtor. Bueno, então, propôs que os dois assinassem juntos a direção. Mesmo pego de surpresa pela generosidade do colega, Arcanjo topou o desafio e, enquanto Bueno se concentrava mais na encenação, ele destrinchava significados no texto e orientava o trabalho dos atores. “O Zé me disse que estávamos tomando todas as decisões juntos e fiquei um pouco resistente de assumir devido ao trabalho como jornalista e crítico”, confessa Arcanjo. “Estou entendendo como funciona esse outro lado do teatro e não sei ainda se gosto mais ou menos.”
Serviço
Visita a Domicílio
Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno. Rua Rui Barbosa,153
Quarta e quinta, 19 h. R$ 70
Até 25 de junho (estreia em 20 de maio)
