Sob a direção de Ary Coslov, a peça, que estreia no Sesc Pinheiros, reúne, entre outros, as atrizes Andrea Dantas e Dani Barros e o ator Mario Borges
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 6 de maio de 2026)
Na primeira cena do espetáculo O Homem Decomposto, batizada de O Homem no Círculo, o ator Mario Borges se isola em limites invisíveis como um personagem em busca de proteção contra elementos externos. Em outra parte, O Corredor, o ator Marcelo Aquino é um maratonista que dispara sem conseguir reduzir a velocidade ou sequer virar à esquerda ou à direita. “Como é um visionário, o dramaturgo Matéi Visniec criou essas metáforas há mais de 30 anos e, hoje, elas podem ser associadas, por exemplo, à nossa realidade dominada por smartphones e streamings”, compara Aquino.
Três outros monólogos curtos chamam a atenção na montagem dirigida por Ary Coslov que estreou em outubro no Rio de Janeiro e, nesta quinta, 7, chega ao Auditório do Sesc Pinheiros, em São Paulo. Protagonizado pela atriz Andrea Dantas, O Homem do Cavalo traz uma mulher que começa a ser seguida por um equino branco, enquanto em A Louca Tranquila, a atriz Dani Barros interpreta a moradora de uma cidade invadida por borboletas que ameaçam a população. Por fim, o ator Júnior Vieira representa O Bicho da Maçã, em que o bichinho que mora na fruta questiona as limitações de seu mundo.

O Homem Decomposto é a encenação de catorze das 24 peças curtas criadas por Visniec na coletânea O Teatro Decomposto ou O Homem Lixo em que os fatos mais comuns se cruzam com um nonsense facilmente incorporado ao cotidiano dos personagens.
Romeno radicado na França, Matéi Visniec, de 70 anos, é um dos mais celebrados nomes da dramaturgia contemporânea e considerado o sucessor do teatro do absurdo impulsionado pelo irlandês Samuel Beckett (1906-1989) e o conterrâneo Eugène Ionesco (1909-1994). Dele, o público paulistano já viu, entre outras peças, A Máquina Tchekhov, dirigida por Clara Carvalho e Denise Weinberg em 2015, e Adeus, Palhaços Mortos!, comandada por José Roberto Jardim em 2016.
Durante a pandemia, Coslov reunia amigos em casa, no Rio de Janeiro, para driblar o tédio e, quem sabe, vislumbrar novos trabalhos. A obra de Visniec foi devorada por um grupo de atores e atrizes, que incluía Aquino, Borges, Analu Prestes, Stella Freitas e Isio Ghelman, entre outros. “Nós nos aprofundamos mesmo em O Homem Decomposto e A Palavra Progresso na Boca de Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa”, conta Aquino, pesquisador do autor, que, há dois anos, defendeu dissertação de mestrado a partir da peça O Corpo da Mulher como Campo de Batalha, escrita em 1997.
Em 2021, Coslov recebeu um convite para participar de um ciclo de leituras promovido pelo Teatro Adolpho Bloch, no Rio, e juntou a turma pela primeira vez no palco. A afinação do elenco o deixou entusiasmado e, naquele começo de abertura depois do isolamento, ele entendeu que o trabalho precisaria passar para outro estágio. “Eu sempre gostei de tudo o que li de Visniec, principalmente pela atualidade com que ele retrata o que acontece com a humanidade”, diz o diretor. “E, naquele momento específico, em que todos nós sobrevivíamos a um absurdo, enxerguei que era a hora de montá-lo.”

Além dos quatro solos, outras cenas para dois, três ou quatro personagens, dão a noção do caos contemporâneo. Entre as mais impactantes estão aquela ambientada em uma empresa que oferece serviços de lavagem cerebral para libertar as pessoas dos sofrimentos e a do homem que anda pelas ruas com o seu aparentemente inofensivo animal de estimação. “Visniec propõe um teatro em que é impossível o espectador ficar passivo”, afirma Coslov. “De tempos em tempos, como no pós-guerra ou até no fim da pandemia, acreditamos que o mundo melhoraria, mas, logo depois, vem a sensação de que tudo só piora mesmo, então, é importante pensar sobre isso”.
Para Coslov, o grande debate de O Homem Decomposto gira em torna da incomunicabilidade e da contradição que fez os meios de comunicação se desenvolveram com extrema rapidez e os homens se tornarem cada vez mais inacessíveis e com pouca habilidade na hora de compartilhar informações. “Existe uma disputa de ideias que serve para camuflar guerras de poder e ideologias”, afirma. “Tudo isso causa mudanças na linguagem e no comportamento que pioram a comunicação pessoal e podem virar questões macropolíticas.”
Aos 83 anos, o carioca Ary Coslov é um fervoroso defensor do texto teatral e dos grandes dramaturgos. O inglês Harold Pinter (1930-2008) é o seu favorito e, entre as suas obras, ele já montou Traição (2008), A Estufa (2014) e O Inoportuno (2019). Por isso, a clareza para contar uma boa história e prender a atenção do público é fundamental e possível de ser desenvolvido com qualidade, na sua opinião.
Por quatro décadas, Coslov trabalhou como diretor de novelas e séries da Rede Globo e, para ele, que gravava dezenas de cenas de um dia para outro, é preciso buscar um equilíbrio na equação de tempo e qualidade. “Por isso, eu sempre acreditei que é fundamental o desenvolvimento do trabalho com o ator e, para se fazer uma boa televisão, essa relação não pode ficar em segundo plano”, afirma. “A criatividade foi impactada nas últimas décadas porque tudo precisa ser rápido, mas acredito que, com bons textos e interpretações, o público se conecta e vivemos um momento de transformação positivo no teatro que será solidificado mais tarde.”
Serviço
O Homem Decomposto
Auditório do Sesc Pinheiros. Rua Pais Leme, 195
Quinta a sábado, 20h30. Sessões extras nos dias 22 e 29/5, 16h; e no dia 5/6, 18h. R$ 50
Até 6 de junho (estreia 7 de maio)
