Sob a direção de Miwa Yanagizawa, a atriz apresenta no Teatro Youtube o monólogo que propõe novas visões para a imagem de perfeição da referência bíblica
Por Dirceu Alves Jr. (publicado em 16 de abril de 2026)
Foi durante uma viagem de avião que a atriz Suzana Nascimento nem se lembra qual era o destino. Talvez da Itália para o Brasil, do Rio de Janeiro a Brasília ou até mesmo a alguma cidade do interior paulista. Em 2015, ela leu o livro Em Nome da Mãe, do italiano Erri de Luca, e se sentiu tomada por uma emoção que até hoje reluta em entender. Chorou, chorou e não enxergou o motivo para tantas lágrimas diante da história de Maria de Nazaré, do momento em que é comunicada pelo anjo Gabriel que dará à luz o filho de Deus até o seu parto. “Se fosse mãe teria uma explicação, mas não tenho filhos”, comenta. “Vi de cara que precisaria realizar algum trabalho em torno daquilo.”
A artista enxergou mais que teatro, enxergou uma possibilidade de discutir em cena as amarras impostas pelo patriarcado que ainda interferem na vida das mulheres. Sob a direção de Miwa Yanagizawa, o monólogo Em Nome da Mãe estreou no formato on-line, no auge da pandemia, em 2021, e chegou às plateias presenciais em 2024, no Rio de Janeiro. Vastos elogios, indicações a prêmios e prêmios recebidos, como o de melhor atriz da Fita (Festa Internacional do Teatro de Angra dos Reis) em 2024, provaram que a intuição de Suzana reverberava diante de distintas plateias.
O espetáculo chega a São Paulo para duas semanas no Teatro Youtube, a partir desta quinta, 16. A humanização de Maria de Nazaré proposta pela atriz e dramaturga emociona e contagia os espectadores. Mais que isso, a montagem provoca um questionamento sobre o quanto o destino das mulheres ao longo dos séculos ainda é pautado por uma referência bíblica de pureza que talvez seja só idealização.

“Nós fechamos um acordo com a plateia baseado no afeto para desconstruir aquela fábula sobre Maria que sempre nos contaram com uma outra fábula”, explica Miwa. “Não dá mais para ficar com a imagem do presépio e aceitar que aquela mulher ao lado da manjedoura é uma mera coadjuvante desta história toda.”
Suzana interpreta Maria, adolescente pobre e misteriosamente grávida de um filho que não é do seu noivo. Ela vive também uma anciã, que pode significar uma projeção da Maria velha, um alerta para a sua versão jovem de todas as dificuldades que ela e o filho enfrentarão pela frente. Por fim, Suzana é ela mesma, uma artista mineira, radicada no Rio de Janeiro, que, aos 48 anos, traça paralelos entre a educação cristã, a carreira de atriz e analisa sociologicamente as situações enfrentadas por mulheres e, principalmente, meninas que ficam sozinhas com um filho nos braços em uma sociedade que só pensa em julgá-las.
“Eu peguei o eixo central do livro, o período da gestação, e perfurei a história com experiências pessoais, coletivas e questões contemporâneas”, diz a intérprete. “Desde 2015, eu me transformei muito como mulher e artista e vi que não poderia me restringir a uma adaptação.”
Suzana nasceu e morou até os 20 anos em Juiz de Fora, Minas Gerais, filha do auxiliar de enfermagem José, que morreu aos 73 anos, em 2020, e da costureira Irene, de 76 anos. Dona Irene é católica, bate ponto na missa e, mesmo que nunca tenha forçado a barra, investiu na formação cristã da sua menina. Aos 7 ou 8 anos, Suzana participava das coroações, ritual que consiste em reunir crianças para ofertar flores e exaltar Nossa Senhora. “A religião católica vende Maria como pura, casta, aquela que cuida de todos e, como mulher, percebo ainda traços desta criação em minhas atitudes.”

A atriz hoje é adepta da umbanda – “religião mais livre e sem o peso da culpa” –, mas foi no catolicismo que a profissional começou a ser moldada. Aos 14 anos, começou a fazer teatro no grupo da igreja e interpretar o evangelho nas missas. Em pouco tempo, se tornou diretora das pequenas encenações e, na mesma época, assistiu ao Grupo Galpão na montagem de Romeu e Julieta, dirigida por Gabriel Villela. Pronto, a adolescente entendeu que o que fazia não era um passatempo na comunidade.
Em 2000, Suzana deixou a família em Juiz de Fora para viver sozinha no Rio de Janeiro e iniciar a sua jornada da heroína, referência à teoria da psicóloga estadunidense Maureen Murdock, que analisa as diferenças entre trajetórias femininas e masculinas e embasou a dramaturgia de Em Nome da Mãe. “Desde os contos de fadas, a função da mulher é ficar em casa e, por exemplo, a Branca de Neve só vai embora porque a madrasta quer matá-la ou a Bela procura a Fera para salvar o pai”, observa. “Nunca a mulher parte pelos próprios objetivos, como os homens.”
No Rio, Suzana cursou a faculdade de produção cultural, estudou interpretação na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), trabalhou por cinco anos em programas educativos e visitas guiadas do Centro Cultural Banco do Brasil e foi encontrando as peças para o seu teatro. Participou de espetáculos de repercussão, como Os Impostores, dirigido por Rodrigo Portella, Dançando no Escuro, comandado por Dani Barros, e Julius Caesar – Vidas Paralelas, da Cia. dos Atores. O seu grande sucesso, porém, até Em Nome da Mãe, era Calango Deu! Os Causos da Dona Zaninha, monólogo de sua autoria, dirigido por Isaac Bernat, que estreou em 2012 e ficou 10 anos em cartaz. “É sobre uma senhora contadora de histórias muita inspirado em minha ancestralidade e nas raízes de Minas Gerais.”

Conversa vai, conversa bem, e Suzana volta a tocar no assunto da emoção aflorada durante a leitura do livro de Erri de Luca que deu origem ao solo Em Nome da Mãe. “Me perguntava que nem podia dizer que fiquei tão tocada por causa de conflitos com a minha mãe porque sempre tivemos uma boa relação”, declara.
A atriz pensa mais alguns segundos, minutos que, quem sabe, se estenderam desde 2015, e, finalmente, chega a uma conclusão. “Eu acho que me emocionei mesmo como filha, porque não queria me encaixar naquele molde de sociedade imposto a minha mãe”, reconhece. “A gente olha para as mães esperando perfeição porque a igreja romantiza Maria e, mesmo assim, depois de cumprir a função dela, foi sumida da história.”
Serviço
Em Nome da Mãe
Teatro Youtube – Sala Eva Herz. Conjunto Nacional. Avenida Paulista, 2073
Quarta a sábado, 20h. Domingo, 17h. R$ 130
Até 26 de abril (estreia 16 de abril)