Sob a direção de Fernanda Raquel, espetáculo questiona e debocha do original sobre a expulsão dos holandeses de Salvador pela armada luso-espanhola
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 27 de maio de 2026)
Sem sequer pisar em terras brasileiras, o dramaturgo espanhol Félix Lope de Vega y Carpio (1562-1635) escreveu a peça El Brasil Restituído em 1625. A comédia barroca, o mais antigo documento dramático sobre o país, foi encomendada pelas coroas ibéricas e retrata a expulsão dos holandeses de Salvador pela armada luso-espanhola, que reivindicava o território. Não faltou uma visão estereotipada e conveniente aos interesses dos colonizadores para retratar o país da América do Sul que poucos conheciam, mas se mostrava bastante rentável.
Dentro das pesquisas do doutorado sobre o teatro barroco espanhol, o ator João Pedro Ribeiro, de 30 anos, descobriu a peça e se viu diante de um farto material. “Pouco se conhece sobre o período além das obras de Lope de Vega ou Calderón de la Barca (o autor de A Vida É Sonho) e tive em mãos uma peça com características propagandistas”, diz Ribeiro. “Fiquei debruçado sobre o texto e quis testá-lo em cena, mesmo que achasse impossível, por isso convidei a Fernanda, que foi minha professora, para que começássemos um trabalho de improvisação das cenas.”
Sob a direção de Fernanda Raquel, o inviável se torna realidade com o espetáculo El Brasil Destituído, dramaturgia colaborativa coordenada por Victor Nóvoa em cima da obra de Vega, que estreia nesta quinta, 28, no Espaço Cênico Ademar Guerra, do Centro Cultural São Paulo. Mais que uma reflexão sobre a visão dos colonizadores, o elenco promete subverter as ideias vendidas pelo autor espanhol com sua linguagem rebuscada, muitas delas incorporadas ao imaginário coletivo em relação ao Brasil.

Os atores Ailton Barros, João Pedro Ribeiro, Rodrigo Scarpelli e Victor Mota e as atrizes Luane Sato e Nilcéia Vicente oferecem uma desmontagem da peça de Vega e evidenciam os mecanismos da máquina teatral como reprodutora de uma representação colonial. “A dramaturgia é baseada no documento histórico, mas a nossa intenção é problematizar e até debochar deste original”, explica Ribeiro. “Representamos as cenas do Lope de Vega e as interrompemos na reinterpretá-las e respondê-las sob uma lógica teatral.”
A peça original, El Brasil Restituído, dentro da nova peça, El Brasil Destituído, tem uma estrutura delirante não muito afastada do exagero dos folhetins em torno da questão da honra ferida. Em Salvador, Guiomar, uma cristã nova, é abandonada por seu amor, Dom Diego de Menezes, um cristão velho, de origem nobre. Revoltada, a moça pede a seu pai, Bernardo, para ajudá-la em um plano de vingança contra quem a desprezou.
A visão espanhola de Vega remonta à captura da então capital federal pelos holandeses em 9 de maio de 1624 e à expulsão pela armada luso-espanhola menos de um ano depois. “Segundo Vega, os judeus portugueses favoreceram a entrada dos holandeses e os espanhóis não tiveram culpa”, explica Ribeiro.
Na encenação, o Brasil é representado pela primeira-dama de uma companhia de teatro, interpretada pela atriz Nilcéia Vicente, que defende os maiores absurdos, claramente inspirada em personagens da vida pública como a vereadora Janaina Paschoal e a senadora Damares Alves. A mesma Nilcéia assume o papel de Guiomar para brincar com o duplo de que a mocinha vingativa da peça é um paradigma do território invadido.

O ator Rodrigo Scarpelli defende Dom Diego de Menezes, além de Machado, o narrador da história. Entre outros personagens, Aílton Barros é Bernardo, o pai de Guiomar, Luane Sato interpreta o mensageiro Laurêncio e Ribeiro assume a pele do galã Leonardo, que chega com as tropas holandesas e se casa com Guiomar. “A gente fala de como o teatro produziu e continua produzindo até hoje esse discurso de colonização”, afirma Ribeiro. “Por mais que não exista uma metalinguagem, somos um grupo teatral questionando estas ideias.”
Como diretora, Fernanda Raquel, de 48 anos, conta que se interessou de cara em participar deste trabalho sobre o olhar europeu que usa o Brasil como desculpa para reafirmar o interesse da propaganda colonial. “A lida com documentos no teatro sempre começa com um espanto”, justifica.
Um fator importante para a encenação, entretanto, segundo ela, foi colocar o registro histórico no palco e não apenas negá-lo. Assim é oferecida a chance de o público tirar as suas conclusões. “Usamos o texto de Vega e, a partir disto, vem o nosso comentário crítico sobre a perspectiva de alguém que nunca esteve no Brasil”, diz. “Este olhar colonial não está interessado em ver o que realmente é, mas em forjar uma imagem que possa controlar.”
Em um momento em que a sociedade se vê desafiada a separar as verdades forjadas dos fatos, El Brasil Restituído se transforma em El Brasil Destituído para mostrar que a propagação de falsas imagens e informações é um instrumento difundido desde a formação dos grandes impérios. A questão é como interromper a prática ou, pelo menos, desenvolver um senso crítico das pessoas para que as mensagens sejam interpretadas sem o peso de uma verdade absoluta.
“É muito difícil se livrar de uma imagem colonial, mas, nos últimos anos, vimos que, felizmente, muita gente tenta criar outros imaginários”, declara Fernanda. “É só olhar para tudo de uma maneira crítica e, no nosso caso, apoiados na teatralidade, não oferecer respostas fechadas.”
Serviço
El Brasil Destituído
Centro Cultural São Paulo– Espaço Cênico Ademar Guerra. Rua Vergueiro, 1000
Quinta a domingo, 20h. Não haverá apresentações nos dias 13 e 19/6. Sessões extras nos dias 10 e 17/6, 20h. Grátis. Ingressos disponíveis um dia antes da apresentação, a partir das 14h, nas bilheterias físicas e digitais (https://ccsp.ticketmais.com.br)
Até 28 de junho. A partir de quinta (28)
