Sergio Mastropasqua e Clarisse Abujamra interpretam o mítico casal em peça dirigida por Clara Carvalho que estreia no Masp
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 1º de julho de 2026)
Em tempos de valorização do discurso feminino, a versão contemporânea do dramaturgo inglês Robert Icke para Édipo Rei, de Sófocles, poderia se chamar Jocasta. Ele, que atualizou Mary Stuart, de Friedrich Schiller (1759-1805), e Professor Bernhardi, de Arthur Schnitzler (1862-1931), rebatizada de A Médica, ambas dirigidas em São Paulo por Nelson Baskerville, coloca na década de 2020 a trágica história de amor entre mãe e filho com camadas profundas e mais polêmicas.
Sob a direção de Clara Carvalho, o espetáculo é um thriller político ambientado nos bastidores de uma campanha em dia de eleição. Édipo (papel de Sergio Mastropasqua) é o candidato favorito em uma votação majoritária. As urnas já se fecharam, e a trama se desenvolve enquanto a equipe espera a apuração. Junto dele estão Creonte (representado por Rodrigo Scarpelli), o seu assessor direto, e Jocasta (interpretada por Clarisse Abujamra), a sua mulher, que, pela segunda vez, pode ocupar o posto de primeira-dama. No passado, ela foi casada com Laio, um ex-governante local.
No clássico de Sófocles, escrito há 2.500 anos, Édipo é atormentado pela profecia de que assassinaria o pai e se casaria com a mãe. Apavorado, o personagem foge do convívio com os pais adotivos que julga serem biológicos e, na estrada, mata um desconhecido, Laio. Em Tebas, ele se apaixona por Jocasta, uma mulher mais velha, viúva do antigo rei, e, depois de tanto escapar, Édipo é confrontado com o destino.

A crença nas maldições foi substituída por conspirações políticas na releitura de Icke, e a trama é conduzida sob o ponto de vista de Jocasta, mulher forte, determinada, mas que sofre com um trauma do passado, a morte de um bebê logo depois que dera à luz. Ela era uma garota que engravidou aos 13 anos de Laio, com quem se casaria, e jamais se refez desta e outras dores precoces, a ponto de se referir ao primeiro marido como um abusador, um imundo, um pedófilo.
“É interessante este ajuste aos novos tempos proposto por Icke em uma peça predominantemente lida e apresentada sob a ótica masculina”, diz Clara. “A história se sustenta através da visão de Jocasta sobre o passado e a tragédia desencadeada no presente.”
Ao lado de Édipo, Jocasta reconstruiu a vida e a autoestima. Os dois formam um casal apaixonado e de um cuidado mútuo que vai além da atenção mulher e homem e pode até conotar uma projeção de mãe e filho. Quando começam a circular comentários da oposição que podem abalar a credibilidade de Édipo, Jocasta é a primeira a defender o marido até “o último fio de cabelo”, como diz Clarisse. “Ela percebe que algo pode dar errado para o seu amor, perde as estribeiras e vai às últimas consequências”, completa.
Aos 78 anos, Clarisse prega que nenhum personagem pode ser encarado pela metade, mas o desafio de viver Jocasta é algo que a surpreende nesta altura da carreira. “É uma interpretação que não pode esbarrar em erro, é uma arquitetura matematicamente calculada”, explica.

Como atriz, Clarisse diz que tem a seu favor o fato de ser mais movida pela técnica, talvez até por uma certa frieza, e isso faz bem ao trabalho porque, na sua opinião, a meiguice só é manifestada diante de Édipo na intimidade dos dois. “A Jocasta é uma força que passa por cima de tudo para defender os seus e vai ser provocativo ao público ver essa personagem tão explícita, dentro desta praticidade que ela conduz a vida e a paixão por Édipo.”
Sergio Mastropasqua, de 61 anos, valoriza a iniciativa de Robert Icke na releitura dos clássicos em uma época em que todo mundo parece descartar o que é do passado. Para ele, o tão falado complexo de Édipo segue como a questão central. O dramaturgo leva ao palco, porém, discussões em torno da violência contra a mulher, do autoritarismo político e dos preconceitos sociais, fazendo de Jocasta uma mulher consciente e atuante nos acontecimentos ao redor. “Icke mantém toda a estrutura do original de Sófocles, mas coloca a peça em uma velocidade de acontecimentos conectada aos dias de hoje”, observa. “É tão explícito a ponto de ter um cronômetro em cena para demarcar as horas que antecedem o resultado da eleição.”
Édipo é a quinta parceria entre o Círculo de Atores, coletivo encabeçado por Mastropasqua, e a pesquisadora e produtora Rosalie Rahal Haddad. Desde 2018, eles já levaram ao palco A Profissão da Sra. Warren e O Dilema do Médico, do irlandês Bernard Shaw (1856-1950), Hedda Gabler, do norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), e A Médica, outra dramaturgia de Icke.
A nova peça estreou em Londres em 2024 e chegou no ano passado a Nova York, onde Clara, por sugestão de Rosalie, assistiu à montagem em fevereiro. Além de Mastropasqua e Clarisse, o elenco de Édipo reúne outros dez atores e a atrizes. Oswaldo Mendes, Chris Couto, João Bourbonnais, Thalles Cabral, Thaina Muniz, Márcia Teodoro, Marisa Mainarte, Rodrigo Scarpelli, Thomas Huszar e Roberto Borenstein completam o time.

Clara, de 67 anos, protagonizou A Profissão da Sra. Warren e A Médica, dirigiu O Dilema do Médico e Hedda Gabler e sente em Édipo um crescimento como encenadora. Intérprete com mais de quatro décadas de carreira, ela acredita que o papel de diretora é resultado das experiências como atriz, tradutora e professora de teatro e só se firma hoje em dia por causa desta trajetória de fazer, entender o que foi feito e passar adiante a compreensão.
“Como diretora, acredito que tenho um lugar de escuta, delicadeza e firmeza que as pessoas com quem trabalho sabem que sou bastante atenta para não deixar escapar nada”, afirma Clara. “E, sendo atriz, testo muitas coisas no meu corpo, mas jamais apresento para o ator como faria, porque pareceria autoritário e preciso esperar o que os intérpretes têm a me oferecer.”
Clarisse aponta um exemplo da capacidade de Clara em dirigir o elenco sem apagar as características de cada um – o que, segundo a protagonista, se torna mais viável por se tratar de uma mulher na transposição deste texto para o palco. “A Clara imprimiu um certo romance, uma delicadeza na peça e, para mim, que sou uma atriz mais cerebral e prática, isto foi importante”, reconhece Clarisse. “Nós encontramos essa harmonia, esse equilíbrio entre, digamos, uma certa frieza que me caracteriza e faz parte do temperamento desta Jocasta e a delicadeza da Clara.”
Serviço
Édipo
Grande Auditório do Masp. Avenida Paulista, 1578.
Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. R$ 100
Até 6 de setembro (estreia 4 de julho)
