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Como diretor, Kiko Marques propõe nova visão de “Os Gigantes da Montanha”, peça de Pirandello

Sinopse

A obra do dramaturgo italiano considerada inacabada (e que acompanha Marques há 35 anos) ganha montagem em um casarão da Bela Vista para ressaltar o valor do sonho em um mundo capitalista

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 4 de junho de 2026)

A história da criação da peça Os Gigantes da Montanha, de Luigi Pirandello (1867-1936), renderia uma outra peça. O autor italiano começou a escrevê-la em 1928, tempos depois deu uma pausa para se dedicar a uma nova dramaturgia, A Fábula do Filho Trocado (1934), que foi um retumbante fracasso, e morreria deixando a obra inacabada. Quer dizer, às vésperas da morte, ele teria relatado a um de seus filhos o terceiro ato com o encerramento da trama – e, graças a esta descrição, ela ganhou um desfecho.

A dramaturgia de Os Gigantes da Montanha costura a vida profissional do diretor Kiko Marques, de 61 anos, que volta a trabalhá-la pela quarta vez na encenação que estreia nesta sexta, 5, no espaço cultural Zona Franca, na Bela Vista. Em 1991, ele participou como ator da versão dirigida por Moacyr Góes no Rio de Janeiro. Jovens promissores, como Maria Luísa Mendonça, Floriano Peixoto, Ana Kfouri e Marcos Breda, também figuravam no elenco.

Marques fazia o papel do anão e, durante parte do processo, se mostrava insatisfeito com a sua composição. “Uma noite, sonhei com um anão sem cabeça que vinha se apresentar para mim e mostrava o seu corpo, como ele era, como se movimentava”, lembra o artista. “Fiquei maluco, fui me preparar para imitá-lo, fiz fisioterapia para fortalecer os músculos e foi uma experiência transformadora.”

Cena do espetáculo Os Gigantes da Montanha, dirigido por Kiko Marques. Foto Raiane Souza

Em 1997 e 2008, Marques voltaria a trabalhar na peça, desta vez como diretor, para os espetáculos de formatura de seus alunos no Indac Escola de Atores, em São Paulo. O olhar não foi menos impactante e, mesmo como encenador, o artista pensou muito no quanto aquela primeira experiência de intérprete ainda reverberava dentro dele. “Fazer Os Gigantes da Montanha como ator foi a minha primeira entrada no universo dos sonhos”, observa. “A peça trata do sentido do encontro com o espectador como pulsão da arte genuína.” 

A encenação da vez nasceu de uma oficina ministrada por Marques no espaço Sala de Estar, na Vila Mariana, entre setembro e dezembro do ano passado, para treze atores e atrizes. Uma prévia do trabalho foi mostrada em dezembro mesmo, na Zona Franca, o local que, agora, se transforma na Vila dos Azarados, o cenário da fábula, habitado por personagens marginais, livres do pragmatismo e fiéis à crença nos sonhos. A encenação propõe uma experiência conduzida pela proximidade entre artistas e público. São apenas 30 espectadores por sessão para acompanhar a urgência de uma companhia teatral em para oferecer poesia a um mundo embrutecido.

Em Os Gigantes da Montanha, a Condessa Ilse (interpretada por Alejandra Sampaio) viveu momentos de glória como atriz e ganhou de presente de um poeta apaixonado uma peça em sua homenagem. Deprimido com o amor não correspondido, o bardo se matou e, para honrar a memória do autor, os artistas levantaram o espetáculo que trouxe Ilse de volta à cena. A montagem, financiada pelo marido da condessa, resulta em um fracasso que destrói o patrimônio do casal.

Dispostos a continuar encenando a peça, a trupe encontra abrigo na Vila dos Azarados e, incentivados pelo enigmático mago Cotrone (papel do ator Bruno Rods), decide apresentar o espetáculo aos gigantes da montanha, a representação do mundo capitalista na visão de Pirandello. “São pessoas embrutecidas, empenhadas em ganhar dinheiro que não têm a compreensão que eles esperam da arte”, diz Marques. “Pirandello constrói o trabalho sem ingenuidade, criticando o autocentrismo dos atores, que impõem a arte sem pensar em quem vai recebê-la.” 

Outro momento de Os Gigantes da Montanha, de Pirandello, dirigido por Kiko Marques. Foto Raiane Souza

O diretor propôs ao elenco – formado por, além de Alejandra e Rods, Ari Pinotti, Eduardo Venosa, Elora Sampaio, Francisco Taunay, Gustavo Smith, Ian Veronico, Ian Lima, Isadora Maffei, Ingrid Ruiz, Ioli Ferro e Rúbia Abati – a criação de um dramaturgismo em cima do original. Pela primeira vez, Marques sentiu necessidade e se considerou íntimo o suficiente do universo de Pirandello para pensar em atualizações e novas possibilidades de leitura. Afinal, como um dos fundadores e diretor da Velha Companhia, ele conhece bem os sonhos, as frustrações e a perseverança fundamentais para manter viva a chama de um grupo teatral. “Revimos questões que pareciam mais propícias ao imaginário da época”, justifica. 

O personagem Cotrone, antes muito centralizador, aparece como um mago mais horizontalizado e todos têm consciência desta nova postura. Outra personagem, Mara-Mara, identificada como “a escocesa” no original, agora é “a argentina”, em referência à clássica coreografia do japonês Kazuo Ohno (1906-2010) Admirando La Argentina e ganha interpretação da atriz Rúbia Abati. “Vivemos uma fase em que nos trancamos em nossas vilas tentando viver nos sonhos mesmo que produzindo hoje para pagar o almoço de amanhã”, observa Marques. “Por isso, tem uma frase do texto, dita por Cotrone a Condessa Ilse, que acho representativa: ‘Fique tranquila, somos pessoas em férias, de coração aberto’.”

Serviço

Os Gigantes da Montanha.

Zona Franca. Rua Almirante Marques de Leão, 378

Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. R$ 60

Até 28 de junho (estreia em 5 de junho)

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Ficha Técnica

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Serviço

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