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Armazém Companhia de Teatro vive “Dias Felizes” mesmo em meio às adversidades da arte

Sinopse

O coletivo, dirigido por Paulo de Moraes, apresenta o clássico de Beckett no Sesc Pompeia e finaliza os ensaios de “A Gaivota”, de Tchekhov

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 24 de junho de 2026)

Em 1998, o diretor paranaense Paulo de Moraes, aos 32 anos, encarou pela primeira vez o dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989) com a peça Esperando Godot. O desafio em si, imenso por natureza e ambição, vinha acompanhado da recente mudança da Armazém Companhia de Teatro, fundada onze anos antes em Londrina, para o Rio de Janeiro. Se o pessimismo da obra beckettiana contrastava com o otimismo do investimento do grupo em uma cidade solar, o espetáculo não poderia ter representado uma melhor estreia em terras cariocas. 

A atriz Patrícia Selonk, aos 28 anos, foi fartamente elogiada pela interpretação de Estragon, e o coletivo, no ano seguinte, ocuparia a Fundição Progresso, na ainda pouco badalada Lapa, onde estão sediados até hoje, em meio ao burburinho boêmio que tomaria conta do bairro na década de 2000. “Beckett fala de uma tentativa de resistência e, claro, que, como um jovem, compreendia essa ideia e tinha noção do que era uma condição precária”, comenta Moraes, aos 60 anos. “Só que, com o tempo, ainda mais nesta idade, resistir não é mais um projeto, é questão de teimosia.”

Quem fala isto é o diretor maduro que colocou em cena no ano passado um outro Beckett, o seu segundo, Dias Felizes, que estreia nesta quinta, 25, no Sesc Pompeia, em São Paulo. Foram três temporadas lotadas no Rio e passagens pelos festivais de Porto Alegre, Curitiba e Xangai, na China. No palco, Patrícia é Winnie, a mulher enterrada até a cintura que, entre a ironia, o desespero e resiliência, se apega a rituais para crer que seus dias valem a pena. “Mais um dia feliz”, repete a personagem.

Patricia Selonk na peça Dias Felizes,. Foto Gabriel Monteiro

Em sua bolsa, Winnie carrega uma escova de dentes, um batom, um espelho e até um revólver e, como interlocutor, Willie (representado em alternância a cada sessão por Felipe Bustamante, Isabel Pacheco e Jopa Moraes) simboliza um cúmplice na jornada solitária. “A Winnie é uma personagem que precisa de um tempo para compreendê-la e transmitir uma leitura clara, sem espinhos”, observa o diretor. “Por isso é que um jovem se aproxima de Beckett com reverência e, hoje, tanto eu como Patrícia, encenamos a obra como parceiros que trazem contribuições.”

Foi Patrícia quem sugeriu ao grupo de voltar a Beckett ainda na pandemia. Na onda do teatro digital, a atriz realizou experimentações sobre Winnie e ficou com a personagem na cabeça. “Sempre que o mundo entra em colapso, Beckett se confirma mais atual ainda”, justifica. 

Nas descrições do autor, a personagem cabe com perfeição a uma intérprete por volta dos 50 anos. A idade certa chegou e, com ela, a mensagem do teatro do absurdo se tornou mais explícita. “As estruturas que produzem sentido não oferecem conforto, perdem os significados e, por sermos um grupo, o revezamento entre dois atores e uma atriz no papel de Willie ainda rendeu um novo barato”, diz Patrícia, aos 55 anos. “A personalidade de cada um contribui para leituras diferentes a cada sessão.”

Moraes elogia o auge de Patrícia, sua companheira de vida e arte há mais de três décadas, na pele da célebre personagem. Segundo ele, a artista, que sempre foi uma intérprete muito física, capaz de emprestar uma corporalidade marcante aos papeis, se supera ao usar apenas o corpo da cintura para cima no primeiro ato e, a seguir, quando a personagem está quase totalmente enterrada, trabalhar apenas com as expressões faciais.

Outra cena de Dias Felizes, de Beckett. Foto Gabriel Monteiro

“O público precisa olhar para a superfície e não ficar em busca de significados em Beckett, e Patrícia apresenta a Winnie com deboche, sarcasmo e nenhuma autopiedade”, define o encenador. “Como o espetáculo tem um certo humor e uma ideia de positividade, as pessoas se projetam na personagem através das pequenas coisas que deseja.”       

Para Patrícia, o otimismo de Winnie se evidencia no cumprimento destes rituais que fazem com que ela não tenha tempo de pensar nas reais condições de sua existência. De certa forma, a analogia alimenta a Armazém Companhia de Teatro, que, há 39 anos, desafia as os mecanismos de produção e contorna as adversidades em uma trajetória coerente e constante.

Dias Felizes ganhou o palco sem nenhum patrocínio. O cenário vistoso, idealizado por Carla Berri e Moraes, foi montado com materiais reaproveitados de outras produções do grupo. “O nosso país atravessa um momento em que é visível o quanto é fácil destruir as coisas e o quanto é difícil reconstruí-las”, constata a atriz. “A gente está sempre sufocado, enterrado como a personagem e, em algum momento, bota a cabeça para fora e respira.”

Mas tanto Patrícia como Moraes sabem que de nada adianta reclamar e, diante da possibilidade, trabalhar é o que de melhor se pode fazer. A passagem de Dias Felizes pelo Modern Drama Valley Theatre Festival, no Daning Theatre, em Xangai, é uma destas compensações. O Armazém esteve pela quinta vez desde 2017 na China, onde já apresentou os espetáculos A Marca da Água, Hamlet, Brás Cubas e Neva. “Estamos em um momento em que temos uma boa quantidade de trabalho, então precisamos ficar felizes por realizar projetos e manter nosso trabalho em grupo”, garante a atriz. 

Em meio à temporada paulistana, a Armazém se prepara para estrear um novo espetáculo. A Gaivota, inspirado em outro clássico, desta vez do russo Anton Tchekhov (1860-1904), entra em cartaz no dia 5 de agosto no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, e tem confirmado um circuito que inclui São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Salvador. 

Patrícia será Arkadina, a dama do teatro, que volta à propriedade da família no interior e se vê espelhada na jovem e ambiciosa Nina, uma aspirante à atriz, que ganha a interpretação de Lorena Lima. “É um sonho antigo trabalhar esse texto”, conta Moraes. “Temos três atos ensaiados e montados e, agora, em São Paulo, ficaremos um mês parados, para retomar o trabalho somente em 20 de julho, que dizer, parados não vamos ficar, a cabeça continuará a mil.”

Serviço

Dias Felizes

Teatro do Sesc Pompeia.  Rua Clélia, 93

Quinta, 20h. Sexta, 16h e 20h. Sábado, 20h. Domingo, 18h. R$ 70

Até 19 de julho (estreia 25 de junho)

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Ficha Técnica

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Serviço

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