Ricardo Corrêa escreveu e protagoniza o monólogo dirigido por Davi Reis que reestreia no Espaço da Cia. da Revista
Por Dirceu Alves Jr. (publicada dia 17 de junho de 2026)
Depois de uma temporada de um mês no Sesc Ipiranga, o monólogo Anywhere, escrito e protagonizado por Ricardo Corrêa, sob a direção de Davi Reis, ganha uma nova chance de ser descoberto pelo público. A montagem, que reestreia neste sábado, 20, no Espaço da Cia. da Revista, uma das mais interessantes do semestre, mostra os conflitos de refugiados e imigrantes LGBTQIAPN+ em busca de acolhimento e pertencimento.
Entre o documentário, a ficção e a memória, a peça é centrada em um personagem-narrador, Samir, que nasceu e cresceu no Oriente Médio, em uma família tradicional, mas não religiosa – o que faz toda a diferença, como ressalta a dramaturgia. Desde pequeno, teve a tendência de ser um pouco “diferente” e, como o passar dos anos, isto se transformou em uma ameaça a sua vida.
Samir está retido na sala de espera de um aeroporto, em um lugar qualquer do mundo, à espera do documento que deve lhe permitir a entrada em um país para a construção de uma nova biografia. Neste tempo em suspensão, Samir recupera um passado de perseguições que é comum a tantas outras pessoas como ele.

Fundada em 2003, a Artera de Teatro, companhia de Corrêa e Reis, pesquisa a temática LGBTQIAPN+. Coração Dark Room, Não Conte a Ninguém e Bug Chaser, Coração Purpurinado são espetáculos que abordaram sob diferentes enfoques questões de sexualidade, comportamento e preconceito. Os trabalhos mais recentes, Monstro (2023) e Bichados (2024), focaram respectivamente os entraves para a adoção homoafetiva e o impacto do envelhecimento para os gays. O próximo projeto é Chemsex, peça sobre pessoas que recorrem a substâncias químicas para a prática sexual.
A ideia de Anywhere surgiu em 2018, diante da notícia das prisões de homossexuais na Chechênia que seriam encaminhados para os chamados “campos de concentração gays” em um molde próximo aqueles usados no nazismo. Corrêa e Reis se sentiram provocados a correr atrás de documentos e fontes que poderiam contribuir para a investigação, inicialmente batizada de Coração Refugiado, mas Monstro e Bichados, até pela proximidade das temáticas, se fizeram mais urgentes.
Para a construção da dramaturgia, a dupla conversou com refugiados de diferentes países através da internet, realizou um chamamento pelas redes sociais e contou com o apoio de instituições e ONGs que lhe apresentaram imigrantes capazes de contribuírem para o conteúdo dos personagens. “Precisávamos de um escopo maior e fomos nos aprofundando para não cometer equívocos ou parecer ingênuos”, afirma Reis. “O Ricardo sempre traz as ideias, as pesquisas e eu me vejo como um organizador deste material para testar o que funciona ou não em cena.”
“No meu país, pessoas como eu são mortas”, pensa em dizer Samir, diante do balcão da imigração, mas recua receoso, mais uma vez, de usar a sinceridade. O preconceito contra o personagem se manifestou ainda na infância, lá pelos 10 anos, quando ele usava um tênis cor-de-rosa, considerado de “coisa de menina” para colegas e professores.

Por volta dos 17, Samir conheceu o amor de Zyan e, adulto, formado em jornalismo, foi aconselhado pelo pai a pedir asilo em um país onde não fosse perseguido. “Tivemos um cuidado ético grande na criação do espetáculo porque, mesmo sendo homens gays, não temos a experiência de refugiados”, comenta Corrêa. “Como observou um dos entrevistados, aqui vivemos em liberdade e, quando ele enxerga um policial na rua, imagina que está ali para a sua proteção.”
A distância geográfica e o medo podem ser empecilhos de identificação até a página dois, afinal, o Brasil é considerado o país que mais mata LGBTQIAPN+ no mundo. Em 2025, foram registradas 257 mortes, o que significa um assassinato a cada 34 horas, segundo dados do de um relatório do Grupo Gay da Bahia. Reis salienta ainda que o deslocamento, mesmo dentro do país ou Estado, pode gerar apreensões capazes de fazer o público se sentir projetado: “O que reforça a pessoalidade são as nossas fugas, independentemente delas quais sejam”.
Reis, de 47 anos, saiu de Cambuí, no sul de Minas Gerais, para se dedicar ao teatro em São Paulo. Por mais que as mudanças, pelo menos nestes casos, sempre sejam para melhorar a vida, elas vêm cercadas de expectativas que podem culminar em frustrações. Não foi o caso. Ele estudou na Escola de Arte Dramática (EAD), na USP, onde conheceu Corrêa, de 40 anos, e juntos, além de fundar a Artera, construíram uma trajetória.
O parceiro foi criado no bairro de Pirajussara, em Taboão da Serra, e encontrou o acolhimento na arte. Um pouco desta experiência pessoal ganha o palco em uma emocionante passagem da peça. Durante uma cena em um karaokê, Corrêa se afasta de Samir ou de qualquer outro personagem para narrar as vivências como um menino LGBTQIAPN+ na periferia da grande São Paulo.
“Encontrei uma amiga de infância depois de muitos anos e ela me lembrou de momentos em que fugíamos correndo da escola porque os meninos me chamavam de ‘bicha’”, conta. “Que bom ouvir isto muito tempo depois e perceber que algumas destas situações podem até ter ficado, mas outras desapareceram da memória.”
Em Anywhere, Corrêa apresenta a sua interpretação mais consistente em um trabalho equilibrado da direção de Reis. Os elementos de projeção e música contribuem fortemente para a narrativa e emolduram com delicadeza os depoimentos. Como consequência, é o espetáculo mais otimista da Cia. Artera de Teatro, afinal foi levado à cena para tratar do sonho de uma nova vida. “É um trabalho maduro e não poderia terminar de outro jeito”, reconhece Reis. “Estamos falando da esperança nos recomeços.”
Serviço
Anywhere
Espaço Cia. da Revista. Alameda Nothmann, 1135
Sábado, 20h. Domingo, 19h. R$ 50
Até 12 de julho (estreia 20 de junho)
