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“O Caso Lorena” é ficção policial com o objetivo de provocar o público como se fosse uma história real

Sinopse

Julia Ianina e Carolina Manica estreiam nas funções de dramaturga e diretora da peça de suspense que trata da morbidez coletiva em torno das tragédias

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 10 de junho de 2026)

Um crime estampou as manchetes dos jornais e gerou enorme curiosidade na década de 1990. Uma mulher cortou a garganta de outra com um pedaço de vidro em uma quermesse sem um motivo aparente e que jamais foi explicado.

Batizada como O Caso Lorena, a história nunca circulou pela imprensa e tampouco é verdadeira. Trata-se de uma ficção criada pela atriz e autora paulista Julia Ianina, de 43 anos, interessada em investigar a curiosidade mórbida de cada um de nós em torno da tragédia alheia. Um ponto de partida incomum desperta o interesse pelo espetáculo. Ao invés do convencional “quem matou?”, a pergunta que se faz é “por que a vítima foi morta?”.

Intérprete experiente, Julia desenvolveu o argumento nas aulas do Núcleo de Dramaturgia do Sesi – SP, sob a coordenação de Angela Ribeiro e Silvia Gomez, em um exercício recente de escrita. A peça O Caso Lorena estreia nesta sexta, 12, no Teatro do Sesc Ipiranga, como o resultado desta primeira investida autoral da artista, que, sob a direção de Carolina Manica, divide a cena com a atriz Camila Raffanti e o ator Rodrigo Bolzan.

Tudo em O Caso Lorena é embalado para que o público acredite que o assassinato realmente ocorreu nos anos de 1990 e não se preocupe se você, meu caro leitor, movido pelo fascínio por casos de violência, correu para internet em busca de detalhes. Este é o jogo proposto por Julia e Carolina, o de fazer a plateia crer que Lorena foi realmente responsável por um crime passional e transformar cada um de nós em um detetive obcecado, assim como Paula, a protagonista interpretada por Julia.

Cena do espetáculo O Caso Lorena. Foto Paulo Vainer

A montagem aposta em uma atmosfera de suspense psicológico e investigação documental, explorando os limites entre verdade, memória e imaginação. Passadas três décadas, Paula desenvolve uma ideia fixa para entender as motivações de Lorena (representada por Camila Raffanti) e busca explicações em registros policiais, reportagens e diários. 

Em um fórum da internet, ela trava contato com Joana (também vivida por Camila), outra interessada em esclarecer o homicídio. Bolzan completa o leque de personagens como Dênis, o marido de Paula, o doutor Luiz Aguiar, psiquiatra de Lorena, e o delegado responsável pela apuração dos fatos. “A morte sempre mexe com a gente e esta peça propõe uma reflexão sobre os limites entre o eu e o outro”, explica Carolina. “Temos uma síndrome de super-herói porque sempre achamos que o outro pode morrer a qualquer momento e a gente não.”

O Caso Lorena pode ser considerada como a estreia de Julia na função de dramaturga, mas não é bem assim. Como integrante da Companhia Delas, a atriz participou da criação de vários textos coletivos, entre eles o recente Marie, A Descoberta Luminosa, visto no ano passado, peça infantil sobre a física polonesa Marie Curie (1867-1934).

Em 2021, ela escreveu e protagonizou o monólogo A Vida é Sonho ou o Contrário?, dirigido por Nelson Baskerville dentro do projeto on-line (das) Tripas(coração) – Solos em Confinamento, em que abordou o luto recente pela perda da mãe, vítima de um câncer na primeira semana do isolamento da covid-19. “Sempre quis escrever, mas, por outro lado, respeito muito os autores, e a pandemia, trancada em casa e triste por causa da minha mãe, me permitiu começar esse exercício”, conta ela, que, nesta época, se inscreveu no curso do Sesi-SP.

Apesar do pouco tempo, Júlia parece ter se dado bem no novo ofício. Em parceria com Camila Raffanti, criou duas séries de televisão, a adulta Instituto Proibido, que será exibida pelo Globoplay, e a infantil As Meninas da Garagem Secreta, ainda sem emissora para veicular. “Quando você assume o papel de autora o seu olhar dá um salto, é libertador”, observa. “Acontece uma mágica que é você escrever e virar imagem.”

Julia Ianina, Camila Raffanti e Rodrigo Bolzan com a diretora Carolina Manica. Foto Paulo Vainer

Quem também enfrenta o desafio de estreante em O Caso Lorena é Carolina Manica, de 45 anos. Atriz e produtora gaúcha com duas décadas de atividade em São Paulo, ela sempre abriu os próprios caminhos e garante que chegou a um momento em que comandar uma encenação se tornou natural e inevitável. Julia, companheira de set na série Vale dos Esquecidos, da HBO, gravada em 2021, lhe mostrou o texto de O Caso Lorena com a intenção de tê-la no papel de Paula. “Não, esta personagem tem a sua cara”, respondeu Carolina à amiga. “Mas, lendo a peça, enxergo todo um conceito de produção e direção que posso fazer.”

Responsável por seus projetos, Carolina garante que nunca foi uma intérprete voltada exclusivamente ao seu personagem e alimenta uma visão conjunta dos espetáculos, tanto em termos operacionais quanto artísticos. “Não sou aquela atriz fominha e penso constantemente em levantar textos que, inclusive, não teriam personagens para mim”, afirma. “Sou uma apaixonada pelo teatro e, cada vez mais, quando vejo um artista em cena, penso em como seria trabalhá-lo enquanto intérprete.”

Carolina explica que a encenação de O Caso Lorena é uma estrutura que vai sendo montada e desmontada até tudo se encaixar.  A concepção transita pelo fantástico, pelo onírico, é marcada por repetições, algo que, segundo ela, é muito comum aos pesadelos, e recebe a influência dos filmes do cineasta estadunidense David Lynch (1946-2025). A trilha sonora original de Arthur Decloedt, executada ao vivo, reforça a atmosfera cinematográfica. 

“Falo que coreografei um grande pesadelo porque a peça é fragmentada e, nesta visão nada realista, torna-se mais acessível às pessoas”, afirma a diretora. “O teatro acontece no recheio e não somente no começo ou no fim da peça, por isso precisamos desenvolver uma boa história que mantenha a atenção do público o tempo inteiro.” 

Serviço

O Caso Lorena

Teatro do Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822

Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h30. Sessões extras nas quintas (2, 16 e 23/7), 20h. Nos sábados, dias 13/6 e 11/7, sessões somente às 15h, devido aos jogos da Copa do Mundo. Não haverá sessão em 19/6. R$ 60

Até 26 de julho (estreia 12 de junho)

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Ficha Técnica

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Serviço

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