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Denise Fraga reafirma sua crença na força da palavra

Sinopse

Atriz volta com o solo “Eu de Você”, em que dá voz a pessoas comuns e comove plateias por onde passa

Por Dirceu Alves Jr.

“Eu confio no teatro. Olha, nós aqui, nesse pacto de foco comum. Se alguém ainda duvida de que estamos interligados, vai sair daqui com a certeza de que pelo menos alguma coisa nos une. Essa noite, essa noite de silêncio compartilhado. Eu confio no teatro”, diz Denise Fraga, em um hipotético olho no olho com os espectadores do espetáculo Eu de Você, não importando se, naquela hora, a artista ocupa o palco de uma sala com capacidade para 200 ou 2000 pessoas.

Este é um dos momentos mais tocantes da montagem, que voltou em cartaz no Tuca, em São Paulo. No solo, a atriz, sob a direção de Luiz Villaça, seu parceiro de vida e de arte, se passa por mais de uma dezena de personagens sem deixar de ser ela mesma em momento algum.  

Quando dá essa fala, volta à cabeça de Denise um conjunto de cenas renovado em sua imaginação, na concentração do camarim, uma hora antes de soar o terceiro sinal. Em meio aos seus preparativos, a atriz costuma pensar nas centenas de pessoas que jamais se viram na vida, mas, por um gosto em comum, escolheram o mesmo programa para aquela noite.

“Será que eu levo um casaco?”, pode se perguntar alguém prestes a fechar a porta de casa. O outro pega o celular e avisa o amigo que já entrou no carro e daqui a pouco lhe apanha na frente do prédio. Têm aqueles que tomaram o metrô ou esperam o Uber pedido através do aplicativo. Um casal deixou os filhos com a babá e três colegas saíram apressados do trabalho com medo de perder o horário da sessão.

A cabeça de Denise voa e, neste momento, a experiência teatral já se iniciou. Para ela, o movimento de cada um até ocupar a sua poltrona espalha uma energia capaz de impregnar o ritual coletivo que, desde a Grécia Antiga, encanta e pode até mudar o pensamento.

Denise realmente acredita no poder do teatro e, pelo menos, nos últimos 15 anos, firmou um pacto com o público de que pode representar o que bem entender – desde que tenha o domínio da palavra. Assumiu o papel de uma chinesa em A Alma Boa de Setsuan (2008), interpretou um homem em Galileu, Galilei (2015) e protagonizou A Visita Velha Senhora (2017) longe da idade cronológica da personagem.

A atriz Denise Fraga, que está na peça Eu de Você. Foto João Caldas Fo

“As pessoas compram o que faço por causa da minha vontade de dizer aqueles textos”, justifica. “O Galileu é uma prova e passei ridículo na pele aquele homem que fica velho, mas está além de mim, tenho que fazer estes personagens.” 

Em Eu de Você, no entanto, ela ampliou os seus próprios limites como artista. “Foi a primeira vez que entrei em uma sala de ensaios sem um texto para me apoiar e jamais acreditei neste tipo de processo criativo”, confessa.

A peça gira em torno das histórias de pessoas comuns, que riem e choram, pegam trânsito, se estressam com o chefe e se preocupam com aqueles de quem gostam. Eu de Você nasceu de entrevistas, cartas e depoimentos colhidos em vários cantos do país desde o final de 2018 e ganhou forma na dramaturgia que teve o texto finalizado pela atriz, Villaça e Rafael Gomes.

“Eu me sentia sozinha com aquelas cartas todas a minha volta e pensava como trataria daquilo com leveza em uma fase em que a vida prometia ficar ainda mais dura”, lembra ela, em referência a então recente eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro.  

Denise estreou em setembro de 2019 em Porto Alegre, lotou o Teatro Vivo, em São Paulo, por três meses, fez apresentações em Campinas e, em março de 2020, concluiu apenas uma das três semanas programadas em Belo Horizonte.

Denise Fraga em Eu de Você. Foto João Caldas F

A vida ficou realmente dura, bem mais dura do que podiam prever os grandes pessimistas. Veio a pandemia da Covid-19 e, se o mundo parou, os teatros, claro, foram os primeiros a serem fechados. Denise só chorava. E chorou até fevereiro de 2022, quando estreou Eu de Você no Rio de Janeiro, diante de uma plateia de máscaras, em um país que já enterrara mais de 600 mil mortos.

“Quando vi que não teria a expressão do público para me guiar foi como um golpe, mas entendi que precisaria me acostumar a ler os olhos de cada um”, lembra. “Por outro lado, estávamos unidos em resistência porque, assim como eu, aquelas pessoas consideravam o teatro necessário.”     

Muitos não acreditaram que aquele espetáculo tivesse sido criado antes da crise sanitária. “Tudo ficou mais potencializado ainda porque naqueles últimos dois anos repensamos a existência, vestimos um pouco a experiência de ser o outro”, reflete.

Eu de Você cruzou mais treze cidades, somou mais de 100 mil pagantes e, no fim de janeiro, voltou a São Paulo, no Teatro Sérgio Cardoso. Em uma das interações que faz com a plateia, a atriz perguntou a um espectador por que ele tinha decidido assistir ao espetáculo. “Ora, porque só se fala nisso”, respondeu o sujeito, para a surpresa da interlocutora. 

Cena do monólogo Eu de Você, com Denise Fraga. Foto João Caldas F

Denise viu que ele tinha razão e, com dor no coração, interrompeu a temporada com casa cheia para filmar em Portugal, entre maio e julho, o longa-metragem Sonhar com Leões, dirigido por Paolo Marinou-Blanco. Voltou revigorada e mais alimentada ainda para reencontrar seu público no teatro. “É um filme sensacional, um manifesto pela eutanásia”, antecipa. “Mesmo sendo uma atriz convidada, abracei a causa desse projeto para mim.”

Como Eu de Você não deve deixar os palcos tão cedo, é possível que a peça ainda esteja em cartaz quando for lançada a sua versão cinematográfica. Eu de Você, O Documentário teve sua primeira fase de produção em um dos poucos momentos em que Denise parou de chorar na pandemia, no fim de 2020.

“Conseguimos licença para entrar no Theatro Municipal completamente vazio e gravar a primeira parte do filme que mostra uma atriz decidida a fazer uma peça que ela é impedida de apresentar”, revela. “Eu tinha medo de jamais ver um teatro cheio e aquilo virou uma força dentro de nós, voltar ao Municipal para filmar a segunda parte com a plateia lotada.”

No dia 1º de agosto, um Municipal abarrotado de gente aplaudiu a sessão de Eu de Você realizada para a segunda e derradeira etapa das filmagens. Os ingressos, entre R$ 15 e R$ 30, se esgotaram em dois dias. Liderados por Villaça, sete diretores registraram em sete câmeras o espetáculo diante do público e gravaram depoimentos dos porteiros, bilheteiras e pessoas que circulavam na volta do centenário prédio da Praça Ramos de Azevedo.

Denise, novamente, chorou muito, mas de emoção, e agradeceu um por um de quem estava à sua frente com as mãos em movimento, batendo palmas. “O teatro é uma fissura na minha vida, o meu primordial, ele me deu muitas coisas, talvez menos dinheiro, mas outras riquezas que são incalculáveis.” 

Serviço

Eu de Você

Teatro Tuca. Rua Monte Alegre, 1024

Sexta, 21h; sábado, 20h; domingo, 17h.

R$ 60 (sex.) e R$ 100 (sáb. e dom.).

Até 1º de outubro.

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Ficha Técnica

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Serviço

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