Carol Gonzalez e Chico Carvalho são dirigidos por Marcelo Lazzaratto em peça do russo Ivan Viripaev que estreia no Centro Cultural Banco do Brasil
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 23 de abril de 2026)
Do dramaturgo russo Ivan Viripaev, de 51 anos, o público brasileiro pode se lembrar de Oxigênio, peça montada por Marcio Abreu em 2011 com o ator Rodrigo Bolzan e a atriz Patrícia Kamis na pele de casal envolvido em um crime passional. É outro casal, Barbara e Werner, os personagens de A Linha Solar, espetáculo dirigido por Marcelo Lazzaratto com a atriz Carol Gonzalez e o ator Chico Carvalho, que estreia nesta sexta, 24, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo.
Para justificar o que lhe encantou no texto, Lazzaratto, de 59 anos, dá uma resposta bem simples que ajuda a compreender do que se trata A Linha Solar. “Quando li, eu comecei a rir nas primeiras linhas e fui rindo bastante até o final”, lembra. “O autor leva uma discussão de relação ao paroxismo e não tem como não se identificar com a sobreposição de um colocar o outro a nocaute, principalmente quando a gente já viveu situações parecidas.”
Então, A Linha Solar, que, a princípio, poderia parecer um drama apoiado em um D.R. de casal, é uma comédia e este ponto já a diferencia das costumeiras peças que abordam ajustes de contas entre amantes em crise. O cenário neutro, criado por Simone Mina, que pode representar uma cozinha ou uma sala, é apenas um ambiente com duas cadeiras.

Por lá, Barbara e Werner (interpretados por Carol e Carvalho) começaram uma conversa às 22h, a noite correu e, às 5h, o sol começa a despontar. Os dois se veem diante de uma inevitável separação. O amor permanece forte e, mesmo assim, parece inviável que continuem juntos. “A peça trata da incomunicabilidade através da relação de um casal, mas também pode representar problemas geopolíticos”, observa o diretor. “Todo grande texto foca em um detalhe que você visualiza um todo relacional, e Viripaev cria um jogo de linguagem que testa os limites de uma relação.”
Idealizadora do projeto, Carol Gonzalez, de 49 anos, descobriu a peça em 2018, na última vez em que visitou Paris, cidade onde morou entre 2003 e 2010 e fez mestrado em teatro na Sorbonne. Na verdade, a atriz e produtora assistiu encantada à encenação de uma outra peça de Viripaev, Embriagados, só que, neste caso, são catorze personagens e uma montagem quase inviável de ser levantada devido a uma equipe imensa.
Disposta a mergulhar na obra de Viripaev, ela chegou a uma tradução em francês de A Linha Solar, então recém-lançada, e percebeu ali uma forte assinatura do autor. Os diálogos truncados e as cenas justapostas que testam o absurdo das convenções chamaram a sua atenção. “Os dois personagens podem ser muitas coisas, dois países, duas religiões, são duas visões em confronto que não se limita a uma história de família.”
Carol queria ser dirigida por Lazzaratto desde 2019, quando os dois contracenaram em Cais Oeste, drama de Bernard-Marie Koltès (1948-1989) encenado pelo também francês Cyril Desclés no Sesc Santo Amaro. Neste espaço de tempo, ela produziu e protagonizou Sangue, texto e direção de Kiko Marques, que contava ainda com os atores Leopoldo Pacheco, Marat Descartes e Rogério Brito. No trabalho, que estreou em 2024, veio à tona a discussão em torno da visão mercantilista dos herdeiros dos grandes artistas e pautas urgentes, como racismo, violência contra a mulher e xenofobia.

Carol enxerga grandes diferenças entre as duas obras, principalmente porque, em A Linha Solar, existe uma imparcialidade na dramaturgia e cabe ao espectador escolher qual dos personagens terá a sua defesa. “Diferentemente de Sangue, aqui chegamos quase a um politicamente incorreto em relação ao que é dito em cena e pode provocar reflexões sobre quem está certo ou errado”, justifica. “Em Sangue, o público entrava no teatro tomando partido de um lado da história e, aqui, o autor não protege nem a mulher e nem o homem.”
O ator Chico Carvalho, de 47 anos, que trabalha pela primeira vez com Carol, tem uma longa relação profissional com Lazzaratto. O intérprete foi dirigido pelo encenador em espetáculo Ricardo III em 2013 na performance que lhe valeu o Prêmio Shell e, no ano passado, em A Grande Magia, peça do italiano Eduardo de Filippo (1900-1984), que comemorou os 25 anos da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico. “O Lazzaratto pensa o ator como o portador da palavra e verticaliza tudo em função do texto, algo cada vez mais raro hoje em dia no teatro”, define o artista.
Sobre A Linha Solar, o protagonista ressalta que se trata de uma peça que deixa os intérpretes em permanente estado de atenção porque é um jogo de gato e rato entre os personagens. “Mesmo que fale de amor, a história é organizada em cima do convencimento, de fazer a opinião de um prevalecer em cima da do outro”, explica. “Os personagens brigam o tempo todo por atenção e esta é a mesma estrutura das guerras que aqui é colocada no minúsculo de uma cozinha para tomar uma proporção macro em que podemos enxergar Donald Trump ou Benjamin Netanyahu”, completa Carvalho.
Serviço
A Linha Solar
Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112
Quinta, sexta e segunda, 19h. Sábado, domingo e feriado, 18h. R$ 30
Até 17 de maio (estreia dia. A partir de sexta (24)