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Celebrado no Rio, o monólogo “Tráfico”, escrito por Sergio Blanco, finalmente chega a São Paulo 

Sinopse

O ator Robson Torinni superou diversas inseguranças para interpretar um garoto de programa no solo dirigido por Victor Garcia Peralta

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 11 de março de 2026)

Em 2018, o dramaturgo uruguaio Sergio Blanco veio ao Brasil assistir a um ensaio de Tebas Land, peça de sua autoria, que estrearia no Rio de Janeiro. Sob a direção de Victor Garcia Peralta, a montagem protagonizada por Otto Jr. e Robson Torinni mostrava um rapaz que matou o pai sendo entrevistado na penitenciária por um autor de teatro. 

No intervalo da apresentação, Blanco chamou Torinni, intérprete do jovem parricida, e falou: “Estou escrevendo um monólogo e quero que você faça!”. O ator levou um susto e, instintivamente, disparou um “você está maluco?”. Ele, que já passava noites em claro por causa de Tebas Land, não se imaginava de jeito nenhum sozinho no palco.

Alguns meses depois da estreia de Tebas Land, Blanco mandou o texto, Torinni se apaixonou pelo solo, a história de um garoto de programa que faz qualquer coisa comprar uma moto de luxo, inclusive se tornar um assassino de aluguel. O monólogo em questão é Tráfico, que, depois de três anos e meio no Rio, chega a São Paulo no Teatro Estúdio, nos Campos Elíseos, em encenação assinada pelo mesmo Garcia Peralta.

Robson Torinni no monólogo Tráfico. Foto Victor Pollak

Com o monólogo na mão, o ator ameaçou amarelar mais de uma vez. “Me dá a real! Você acha que eu tenho condições de fazer isso?”, perguntou ao diretor. Garcia Peralta, que, além de Tebas Land, já havia trabalhado com o intérprete na peça A Sala Laranja, respondeu: “Você tem sim, só vamos trabalhar muito para isso”.

O protagonista ouviu de alguns amigos que o desafio era pesado, que aquele buraco era profundo demais e, se o projeto desse errado, a culpa seria só dele. Depois de dois meses de processo, 15 dias antes da estreia, o produtor Sérgio Saboya viu um ensaio e foi sincero. “Eu não vejo humanidade neste personagem”, disse. 

Torinni começou a chorar, avisou que desistiria do projeto e entrou na maior crise. Garcia Peralta fez que não ouviu e falou que não dava para perder tempo. O ator custou a recuperar o eixo. “Em Tebas Land, o Robson fazia dois monólogos enormes, um sobre a morte do pai e outro sobre a infância do personagem, que ele pegou rápido e funcionou bem. Sabia que daria conta”, comenta o diretor.

Tráfico estreou em outubro de 2022 no Teatro Poeirinha, no Rio, com uma verba de 50 mil reais, obtida através de um edital da prefeitura carioca. Os 50 lugares da pequena sala lotaram com semanas e, depois, meses de antecedência. Os elogios da crítica colaboraram para o boca a boca, indicações para prêmios endossaram a qualidade da peça e, assim, se passaram mais de três anos. Mesmo que pareça pouco, são quase 150 apresentações e um público superior a 10 mil espectadores.

Robson Torinni em outra cena do monólogo Tráfico. Foto Victor Pollak

Torinni e Garcia Peralta acreditavam no potencial do texto, mas pensavam que a maioria das pessoas não se interessaria por uma história tão indigesta, tão incômoda. Depois de alguns meses, Tráfico saltou do Poeirinha para o Poeira, com quase o triplo da lotação, e ficou mais de um ano direto se alternando entre as duas salas. “Só parei por dois meses porque estava exausto, com energia zero, saía do teatro e ia para o hospital”, confessa o protagonista. “Até hoje sinto dores depois da peça, faço massagens, acupuntura, ouço música clássica para me reequilibrar, porque é tudo muito exigente.”  

Tráfico se passa na periferia de uma cidade latino-americana. Alex perdeu o pai para a guerra das drogas, não conheceu o carinho da mãe e cresceu sem perspectivas. O seu sonho é ter uma moto de luxo, símbolo de um lugar de pertencimento que o colocaria próximo aos rapazes que considera bem-sucedidos. Para compor o personagem, Torinni entrevistou meninos das periferias e comunidades cariocas e, segundo ele, todos relatam histórias semelhantes às de Alex. “A moto pode ser substituída por um tênis Nike igual ao dos moleques da Zona Sul, mas a história de violência doméstica e a ambição de fazer qualquer coisa para pertencer a um outro meio são as mesmas”, compara.

Garcia Peralta ressalta a força da identificação do texto de Blanco justo à plateia, principalmente as menos privilegiadas. A peça realizou quatro apresentações nas chamadas Lonas Culturais, projeto da prefeitura carioca que leva espetáculos para as periferias e, segundo o diretor, o que se ouvia na plateia era comentários do tipo “é como o meu irmão”, “é igual ao meu primo”. 

Para chegar a tal reconhecimento, Garcia Peralta acredita que a performance de Torinni é fundamental e, desde que o ator entra em cena, o trabalho de “quebrar o gelo” é efetivado com o mesmo realismo do texto de Blanco. Na primeira cena, o intérprete apresenta a sua história, joga charme para plateia, pergunta se alguém quer tocar nele. “As pessoas levantam a regata e acariciam a barriga do Robson”, conta o diretor.

Outra cena do monólogo Tráfico, com Robson Torinni. Foto Victor Pollak

Por outro lado, vários espectadores se incomodam com as histórias cada vez mais sombrias do garoto de programa e até se levantam das cadeiras, deixando o teatro. Algumas mulheres têm crises de choro diante das narrativas de feminicídio e um casal heterossexual já saiu da sala indignado, reclamando que esta era “mais uma peça de viado”. “Eu acho que Tráfico tem esse lado indigesto mesmo e você pode adorar ou detestar”, reconhece o ator. “O texto mexe em um lugar profundo do ser humano e, às vezes, o espectador pode se projetar no Alex e não gostar do que ouve ou enxerga.”

Robson Torinni faz 40 anos no próximo dia 27. É pernambucano de Garanhuns, morou em São Paulo entre 2006 e 2011 e, desde então, vive no Rio. O trabalho em Tráfico abriu portas para outras oportunidades. Na novela Família é Tudo, exibida pela Rede Globo em 2024, ele interpretou um skatista mau-caráter. Rodou ainda a série Entre Longes para o Canal Brasil e tem uma pequena participação no longa Ruas da Glória, dirigido por Felipe Sholl. “Nem sempre eu me sustento só com a bilheteria de Tráfico”, assume o protagonista, que ainda trabalha como modelo e faz publicidade. 

No teatro, o seu próximo projeto é O Homem de Aço, monólogo do argentino Juan Francisco Dasso, sobre a relação de um pai com o filho autista. A direção será novamente de Victor Garcia Peralta. “Depois desta peça, eu começo a me desapegar do Victor”, promete.

Com as devidas proporções da comparação, assim como Alex, Torinni desafiou os próprios limites para subir ao palco com o espetáculo Tráfico e se aproximou de um status de pertencimento na cena teatral. Uma crise ou outra ainda pode ameaçar a sua segurança, mas são cada vez mais raras. A temporada em São Paulo, por exemplo, não conta com patrocínio algum e o medo do prejuízo foi deixado de lado. “Se eu ficar sujeito aos editais, acabo parado em casa”, lamenta. “Tráfico me deu a certeza de que sou um outro ator e não posso deixar de aproveitar essa oportunidade.” 

Serviço

Tráfico

Teatro Estúdio. Rua Conselheiro Nébias, 891

Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. R$ 100

Até 3 de maio (estreia 13 de março)

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Ficha Técnica

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Serviço

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