O melhor do teatro está aqui

Ciranda_TOPO_CANALMF_3033x375_NOVO

Ana Beatriz Nogueira aborda o desejo reprimido no solo “A Procura de uma Dignidade”

Sinopse

Sob a direção de Gilberto Gawronski, a intérprete se desafia em uma linha performática em que os estímulos são tão importantes quanto a fidelidade ao texto, versão do conto de Clarice Lispector

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 4 de março de 2026)

Com quatro décadas de carreira, Ana Beatriz Nogueira, de 59 anos, se orgulha de sentir um misto de entrega e apreensão cada vez que sobe ao palco. A atriz carioca protagoniza o monólogo A Procura de uma Dignidade, adaptação de Leonardo Netto para o conto de Clarice Lispector (1920-1977), sob a direção Gilberto Gawronski. A montagem, que estreia nesta sexta, 6, no Teatro YouTube, o antigo Eva Herz, dentro da Galeria Magalu do Conjunto Nacional, é uma nova incursão na obra da escritora, de quem a artista fez outro solo, Um Dia a Menos, em 2019. 

O tal misto de entrega e apreensão nada tem a ver com insegurança ou falta de domínio técnico, pelo contrário. Ana Beatriz mergulha com tanta intensidade no mundo da personagem, a Sra. Xavier, que, graças a sua experiência, se permite embaralhar emoções a favor do trabalho. 

Ana Beatriz Nogueira no monólogo A Procura de uma Dignidade. Foto Nil Caniné

Na ficção, ela é uma mulher de classe média alta que decide assistir a uma palestra sobre literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), vizinha ao Maracanã. Por engano, ela entra no estádio de futebol e se perde em seus labirínticos corredores subterrâneos a ponto de não achar a saída e, por fim, aceitar a desorientação – mesmo sentimento explorado pela atriz. “Em cena, eu não fico pensando no texto, no que tenho que falar porque estou perdida e tenho que transmitir essa sensação ao público”, diz. “Não posso ficar consciente de tudo e esta é uma proposta de renovação como intérprete.” 

A caminho do encontro intelectual, a Sra. Xavier é assaltada por desejos íntimos, aquele fogo interno que julgava não lhe ser mais permitido por causa no avanço da idade. No conto, Clarice descreve a personagem como uma mulher de quase 70 anos. No palco, ela pode ter qualquer idade, é uma pessoa que reabre um capítulo que julgava encerrado. “Quantas vezes eu mesma me senti mais velha aos 15 ou 20 anos e muito jovem aos 40?”, reflete a atriz. “É como se essa mulher entrasse em um buraco feito só para ela, no caso o túnel que dá acesso aos corredores, e descobre possibilidades jamais imaginadas.”

Entre as metáforas desenhadas por Clarice, Ana Beatriz escolhe a da sexualidade na idade madura para basear a sua leitura. Para ela, a Sra. Xavier é uma mulher que, talvez por ter se acomodado no casamento, não se enxerga mais como uma pessoa capaz de chamar a atenção dos outros e ocupa seu tempo com atividades extras, como a palestra cultural. “Se fosse nos anos de 1970, talvez a melhor leitura seria a liberdade, a luta pela democracia; nos anos de 1980, a emancipação do machismo, mas, na minha visão de hoje, é o despertar de uma energia sexual quando não se esperava mais”, define Ana Beatriz. 

Ana Beatriz Nogueira em outra cena do monólogo A Procura de uma Dignidade. Foto Nil Caniné

Essa profusão de sensações que arrebata a intérprete faz parte de uma provocação lançada por Gilberto Gawronski assim que recebeu o convite para comandar o trabalho. O diretor assistiu e gosto muito de Um Dia a Menos. Só enxergava sentido em Ana Beatriz voltar aos textos de Clarice se fosse por um caminho totalmente diferente. Ele sugeriu o desenvolvimento de um projeto estético e contemporâneo. “Ana tem o approach das personagens da Clarice por conta da sua densidade dramática”, diz. “Propus a eliminação de um cenário realista, o uso de uma linguagem de vídeo e uma interpretação voltada a uma linha física e performática.”

No palco, Ana Beatriz contracena com o cenário criado por Beli Araújo, a trilha sonora elaborada por Chico Beltrão e as projeções editadas por Pedro Colombo. Em off, a voz do escritor Silviano Santiago transmite o conteúdo sobre Clarice que faz parte da palestra escolhida pela personagem. “A peça é uma instalação artística em que uma atriz performa e pode ser acessível a qualquer espectador”, descreve Gawronski. “Por exemplo, em uma cena, a personagem dorme com um cigarro acesso, vem a imagem do fogo e, quem tiver essa referência, pode entender de uma outra forma (em 1966, Clarice adormeceu com um cigarro entre os dedos, incendiando o quarto).

Ana Beatriz Nogueira em A Procura de uma Dignidade, inspirada em Clarice Lispector. Foto Nil Caniné

Gawronski conheceu Ana Beatriz na década de 1990 quando rodaram o filme Lara, realizado pela cineasta Ana Maria Magalhães, e, em 2020, participaram de uma mesma novela, Um Lugar ao Sol, embora nunca tenham contracenado. Como diretor, ele ficou surpreso com a sua capacidade de renovação a cada ensaio que permanece viva durante a temporada. “Ela não se permite fazer uma passagem técnica e toda noite oferece um espetáculo diferente, é uma inquietude jazzística”, elogia. “A primeira fala da peça é algo como ‘eu não sei exatamente como entrei aqui’ e já vi ela levando até três minutos para dizer isso a frase, conforme a intensidade do momento.”

A protagonista afirma que os textos de Clarice propiciam as constantes mutações porque assumem novos sentidos a cada instante – e esta constatação não tem nada a ver com o clichê de que cada noite é diferente da outra para uma peça teatral. “Eu sou uma atriz aberta para a situação e, assim, estou diferente a cada hora”, justifica. 

Dentro deste espírito inquieto, Ana Beatriz prepara o próximo espetáculo. Será Boa Noite, Mãe, da dramaturga estadunidense Marsha Norman em torno de um perturbador embate de mãe e filha. A peça foi montada no Brasil com Nicette Bruno (1933-2020) e Aracy Balabanian (1940-2023) e levada ao cinema pelas atrizes Anne Bancroft (1931-2005) e Sissy Spacek na década de 1980. 

Sob a direção de Victor Garcia Peralta, o projeto deve estrear em outubro e celebra os 60 anos da artista. “Vejo um humor fora da curva na intimidade das personagens, aquele jeito de falar as coisas que só é possível entre mãe e filha”, declara. “Falta decidir quem vai interpretar a minha filha, mas isso não vai ser difícil porque trabalho com tantas atrizes e poderia realmente ser a mãe delas.”  

Serviço 

A Procura de uma Dignidade

Teatro YouTube – Sala Eva Herz. Galeria Magalu. Conjunto Nacional. Avenida Paulista, 2073.

Sexta e sábado, 20h; domingo, 18h. R$ 150

Até o dia 29 de março (estreia 6 de março)

[acf_release]
[acf_link_para_comprar]

Ficha Técnica

[acf_ficha_tecnica]

Serviço

[acf_servico]