Grupo de animação Mevitevendo, sediado em Mairiporã, na Serra da Cantareira, comemora seus 28 anos de trajetória, iniciada no Rio Grande do Sul, montando o espetáculo “Poema”, no Sesc Consolação, em que personagens inusitados surgem e desaparecem como se a plateia estivesse sonhando
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 19 de junho de 2026)
Celebrando nada menos do que 28 anos de trajetória, sempre elevando o teatro de animação a patamares insuspeitados de criatividade, a companhia Mevitevendo Teatro, nascida no Rio Grande do Sul e hoje sediada em Mairiporã (SP), decidiu montar um sonho completo no palco, com tudo o que caracteriza o ato de sonhar, ou seja, nenhuma linearidade, muita estranheza e uma força potente da imaginação. Deram um nome ao espetáculo que não poderia ser outro, Poema, e estrearam na semana passada no nobre palco paulistano do Sesc Consolação, cobiçado por todos o que fazem teatro no País.
“A recepção do público na estreia foi calorosa”, conta Cleber Laguna, que, ao lado de Marcia Fernandes, fundou a companhia em 1998. “Crianças e adultos entraram no sonho. É lindo sentir quando a plateia embarca no nosso ritmo, no nosso tempo, na nossa viagem. Quando as pessoas dançam com a gente, cria-se o mistério, inventa-se um universo.”
“O espetáculo explora a possibilidade de colocar em cena a lógica dos sonhos – onde nada se explica, onde imagens, sons e personagens bailam numa história sem pé nem cabeça”, diz Cleber Laguna. “Com bonecos, máscaras e formas animadas, personagens e situações surgem e desaparecem numa narrativa que tanto pode lembrar uma dança, um desenho animado ou outra coisa. Em cena uma grande cabeça que sonha e dois pássaros que brincam nesse sonho. Um sonho que tem outro ritmo, outro tempo, outras cores… Um sonho que é poema.”

Mas quantos pássaros são necessários em cena para se fazer um poema? Foi a pergunta que eles se fizeram o tempo todo, durante a fase de criação. Cleber tem a resposta na ponta da língua: “O mesmo número de pássaros que habitarem o seu sonho… E quando a floresta adormece, os pássaros acordam os sonhos”.
Cleber Laguna faz uma observação que é crucial para a compreensão dessa proposta de espetáculo poético sem palavras. Ele diz: “A poesia não é só uma forma de arte literária, é um idioma anterior a todas as palavras. O poema é primitivo. Por isso ele é sonho, infância, floresta e bicho.”
Ao descrever seu espetáculo, Cleber gosta de usar o conceito de aproximação entre energia e matéria. “É a própria natureza do teatro de animação – criar a ilusão de vida para aquilo que é inanimado”, explica. “Buscamos o momento mágico em que artista, boneco e público, juntos, criam um ser de papel e tecido que respira, pensa, ri e chora. A ‘aparição’ desse mistério só se dá quando todos os participantes desse encontro afinam suas energias, combinam seus imaginários. Energia e matéria se misturam, se transformam e criam poesia.”

Outra linda forma de o grupo descrever seu espetáculo é: “um pequeno ritual para reencantar o mundo”. Por que ficou tão urgente reencantar o mundo? Cleber responde: “Nessa época tão carregada de fios, conexões, inteligências artificiais e aceleração, precisamos reencontrar o mistério perdido… e o teatro de animação é o espaço onde ele pode aparecer. Aos poucos fomos perdendo nossos espantos, nossas surpresas, nossos encantos. Tudo foi sendo explicado, tudo foi sendo desencantado. O excesso de conexões tecnológicas criou a desconexão do ser humano com ele mesmo, com a natureza e com ‘o mágico desconhecido’ – a capacidade de reconhecer encanto nas pequenas maravilhas cotidianas. Queremos que o nosso teatro de animação seja um pedacinho desse reencantamento.”
Serviço
Poema
Teatro Anchieta – Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245
Sábados, 11h. R$ 40. Grátis para crianças até 12 anos
Até 1º de agosto (estreou 13 de junho)
