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Questões de gênero encontram seu espaço no teatro para crianças

Sinopse

O fim de semana ficará marcado em São Paulo pela estreia da corajosa Vestido de Menino – O Dia V”, peça de Ronaldo Serruya, no Centro Cultural do iBT – Instituto Brasileiro de Teatro, que fala sobre aprender, desde cedo, a ser o que se é

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 5 de junho de 2026)

A pluralidade dos modos de existir a partir do ponto de vista das crianças. Olha só que desafio enorme para uma peça infantil, você não acha? É um tema que muitas vezes nem no teatro dito adulto se consegue abordar com todas as suas delicadezas e abrangências. E mais: a peça fala disso a partir de uma premissa em forma de pergunta. O que pode acontecer quando uma criança decide, simplesmente, vestir aquilo que deseja?

Assim é Vestido de Menino – O Dia V, voltada ao público de 8 a 12 anos e suas famílias, com estreia neste sábado, 6 de junho, e temporada gratuita até 26 de julho, na Sala Cênica do Centro Cultural do iBT – Instituto Brasileiro de Teatro, em São Paulo. Expectativas familiares, normas escolares e convenções culturais surgem na vida de quatro personagens, colegas de escola, mas ninguém supõe a capacidade que essas crianças têm de criar linguagens próprias e reinventar os limites impostos. O espetáculo, escrito por Ronaldo Serruya e dirigido por Pedro Stempniewski, nasce para debater a performatividade de gênero e as masculinidades, mas quer – felizmente – fugir do didatismo e também do panfletarismo. 

Cena do infantil Vestido de Menino – O Dia V. Foto Cacá Bernardes

O desafio vai ser “falar disso sem falar”, afirma o dramaturgo Ronaldo Serruya. “Nós sempre soubemos que tínhamos como ponto de partida um tema espinhoso, ou melhor, um desses temas que está no rol de ‘assuntos que não devem se falar para as crianças’, como por exemplo: morte, suicídio, violência, e, no caso aqui, performance de gênero. Eu sempre duvidei dessa categorização. Para mim, a solução nunca é a interdição do assunto em si. E sim, como falar do assunto? De que maneira abordar essas questões que estão todas relacionados com a vida? Até onde podemos ir ao falar dessas coisas com os pequenos? Como instigar o imaginário deles sem desconsiderar as ferramentas de quem está em formação? Que metáforas podemos produzir?”

As perguntas não pararam por aí, conforme relata o autor. Muita coisa precisava ser respondida antes até de começarem os ensaios. Ele diz: “Como queríamos falar sobre identidade, tínhamos muitas perguntas. Como as crianças podem expressar suas identidades ainda em formação? Como os olhares múltiplos para o mundo dessas crianças, que muitas vezes saem da lógica binária construída para pensar meninos e meninas, podem ser acolhidas? E como organizar tudo isso e criar uma narrativa dentro da lógica do olhar da criança para o mundo? Tudo isso é o desafio de falar sem falar”.

O jeito tão variado como as crianças enxergam o mundo é sempre motivo de emoção para Serruya, que quis trazer isso para o palco. “Criamos um grupo de crianças amigas que se conectam exatamente pelo olhar inusitado que têm sobre as coisas do mundo”, relata. “O que eu quis nessa dramaturgia foi chamar a atenção para a beleza disso. Para a beleza que existe em olhar para o mundo por meio de múltiplos ângulos, de ter gostos e desejos simples que fogem da prisão do ‘isso é coisa de menino ou coisa de menina’. Essa é uma fábula sobre a beleza da diferença. A ideia de que a diferença deve ser cultivada como riqueza. E não como ameaça.”

Outro momento do infantil Vestido de Menino – O Dia V. Foto Cacá Bernardes

Na peça, as quatro crianças, que se reconhecem na diferença, usam o espaço de uma banca de revistas como ponto de encontro. Pode parecer estranha essa escolha, um pouco anacrônica, mas Serruya explica: “Eu sei que essas bancas foram virando outra coisa com o passar do tempo. E tudo bem, sem nostalgias, as coisas se transformam no tempo, faz parte do movimento da vida. Mas elas, como arquitetura, ainda estão aí em vários pontos da cidade. De fato, deixaram de ser, em alguma medida, esse espaço de formação, de construção de imaginário que tinham na minha infância. Mas ainda é nelas que você corre para comprar o álbum de figurinhas da Copa, por exemplo.  A ideia de trazer a banca como um lugar de encontro dessas crianças veio um pouco do desejo também de resgatar esse imaginário, que deve de alguma forma ser muito mais forte para os adultos que acompanharão essas crianças no espetáculo. O que por si só acho bem interessante: ter uma espacialidade que une os imaginários de adultos e crianças e que de alguma forma vai ser um ponto de conexão para que eles conversem entre si após o espetáculo.” E ele arremata esse raciocínio de forma brilhante: “Eu sempre acho que a maior contribuição que uma dramaturgia pensada para as infâncias e juventude pode dar é que ela consiga suscitar um desejo de conversa genuína entre os adultos e as crianças e jovens.”

Um aspecto bem inusitado dessa montagem é que o voguing e a cultura ballroom foram usados como fortes referências na composição dos movimentos e da música. “Acho que a a cultura ballroom e o voguing entram no espetáculo menos como mera reprodução de uma linguagem de dança, e mais como inspiração para pensar os temas que estão desenvolvidos ali: identidade, performance, pertencimento”, comenta Ronaldo Serruya. “Durante o processo, os atores tiveram um treinamento bem bacana de voguing com Jessy Velvet Zion. Mas é claro que isso apenas seria insuficiente para se apropriar dessa cultura que historicamente é uma referência político-estética de acolhimento.  Então elas entram na peça como um paralelo para as questões que a dramaturgia apresenta sobre os modos de ocupar o mundo e construir identidades. As referências são reelaboradas poeticamente na cena, para criar um diálogo com a linguagem da própria dramaturgia.”

Temáticas que quebram tabus costumam receber muitos tipos de reação das plateias, inclusive rejeições e preconceitos. Como será que essa trupe se preparou para o que pode vir por aí? Serruya responde: “Olha, é inegável que a gente vive um retrocesso em termos das questões sobre identidade e performance de gênero. Tudo isso parece ser tratado como se fosse uma grande ameaça. O medo é real. Acho que tocar na maneira como as crianças se expressam, e que às vezes pode ser diferente da expectativa estabelecida pela norma, pode suscitar dúvidas, desconfortos ou discordâncias de alguns pais e mães. Acho que a forma como a gente se preparou para isso está na própria forma como a gente construiu o trabalho. Na forma de como a dramaturgia aborda a questão da diferença de maneira poética, abrindo espaço para que a imaginação da criança apareça. Outro cuidado que tivemos foi de não impor nada, não cair na armadilha de uma escrita panfletária, que vocifera respostas e verdades, mas sim abrir espaços de reflexão, de diálogo e de empatia. A dramaturgia se concentra em apresentar essas crianças e suas lógicas encantadas de mundo, foca na força da amizade e do encontro e de como os nossos sonhos podem ser simples se acolhidos de verdade pelos que nos rodeiam. Acho que esse é o nosso preparo. Que as pessoas se encantem com essas personagens e seus mundos.”

Serviço

Vestido de Menino – O Dia V

Centro Cultural do iBT – Instituto Brasileiro de Teatro – Sala Cênica – 10º andar. Av. Brigadeiro Luís Antônio, 277

Sexta a domingo, 16h. Não haverá apresentação nos dias 10, 11 e 12 de julho. Grátis (ingressos distribuídos 1h antes na bilheteria do teatro)

Até 26 de julho (estreia em 6 de junho)


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Ficha Técnica

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Serviço

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