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Uma jornada poética e musical sobre o poder da palavra

Sinopse

Baseada em livro do angolano Ondjaki, a peça infantil “A Bicicleta que Tinha Bigodes”, em cartaz aos domingos no Sesc Bom Retiro, procura mostrar para as novas gerações o valor da memória ancestral, que precisa ser resgatada pelo hábito de contar mais e mais histórias

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 4 de setembro de 2026)

O tema da ancestralidade felizmente está com tudo e não está prosa. Nas dramaturgias de hoje em dia, esse assunto pipoca de palco em palco, como nunca. É o teatro para todas as idades contribuindo firmemente para os resgates, as reparações, os recontos tão necessários para reativar memórias quase esquecidas, que nunca deveriam ter sido relegadas e virado alvos de preconceitos e injustiças.

Em cartaz no Sesc Bom Retiro está A Bicicleta que Tinha Bigodes, mais uma peça que agrega novas vertentes e camadas a um assunto já tão amplamente abordado. Com direção artística de Suzana Aragão, dramaturgia de Kiusam Oliveira e direção musical e canções originais de Renato Gama, a peça é uma jornada sobre o poder da palavra, a memória ancestral e a magia do sonhar. O ponto de partida foi o livro homônimo do escritor angolano Ondjaki

Kiusam Oliveira, a dramaturga, nos conta como é para ela encarar a ancestralidade no teatro: “Há quase 30 anos, recebi de um senhor quilombola, que conheci em uma unidade do Sesc no Rio de Janeiro, a incumbência de transmitir para as novas gerações a brincadeira Guerreiros Nagô. Tudo fez tanto sentido para mim que, desde então, por onde quer que eu vá, levo essa história. Para mim, foi uma oportunidade mais que natural disponibilizá-la em um roteiro. A ancestralidade, a meu ver, é assim natural e acontece no aqui e agora, em como sentimos os elementos da natureza como partes de nossas vidas cotidianas. Tenho vivido e levado tais fundamentos como Pedagogia Ecoancestral para os campos da educação e da literatura”.

Cena do infantil A Bicicleta que Tinha Bigodes. Foto Ariane Artioli

A diretora Suzana Aragão, por sua vez, nos relata o que ela descobriu no livro de Ondjaki que os atraiu a realizar o espetáculo. Ela diz: “Buscávamos uma história que traduzisse o sublime, o delicado e o olhar mais sincero da infância. Foi quando o ator João Invenção (no elenco) nos apresentou esse livro de Ondjaki. No processo de adaptação, deslocamos o protagonismo – que na obra original pertence a apenas um menino – para uma dupla: a menina Isaura e o menino Ondjaki. Na narrativa, eles tentam descobrir como começar uma história para vencer um concurso de redação promovido por uma emissora de rádio. Diante das dificuldades iniciais, os dois buscam atalhos e saídas fáceis, enquanto a avó e o tio Rui (o escritor) oferecem pistas pautadas na ancestralidade, mostrando que todas as histórias já habitam a memória do próprio corpo. Escolhemos essa obra porque ela nos permite acessar outros saberes e formas de inteligência, por meio de cosmovisões historicamente silenciadas. O mundo contemporâneo exige essa abertura e a busca por caminhos ainda não percorridos. Trata-se também de um resgate urgente, pois estamos perdendo a nossa tradição de contar histórias.”

Como se vê, juntamente com a disposição em falar de ancestralidade surge também, harmonizado no enredo, o tributo à arte de contar histórias. Assim, como as crianças da peça precisam escrever uma Redação, para concorrer a uma bicicleta, uma pergunta paira sobre todo o espetáculo: Como se começa uma história? Não é uma resposta fácil. Kiusam Oliveira comenta: “Parto do princípio de que todas as histórias já estão dentro de nós e isso é fruto de uma visão que minha mãe me transmitiu desde que eu era pequenina e ia para a Escolinha da Dona Marta. Minha mãe dizia: ‘escreve tudo o que viver’. E para que isso ocorra é necessário transformar nossas experiências em reflexões e essas em textos. Nessa adaptação não foi diferente. Fiz uma ponte entre Angola e Brasil e pensei em o que eu poderia trazer de contribuição lúdica logo na abertura do espetáculo”. 

Outro momento do espetáculo A Bicicleta que Tinha Bigodes. Foto Ariane Artioli

A diretora Suzana Aragão também arrisca uma resposta para a questão fundamental da peça. “Respondo a isso sem qualquer pretensão de ensinar uma fórmula, até porque ela simplesmente não existe”, diz. “Aprendi em uma oficina, com o dramaturgo argentino Mauricio Kartun, que toda criação nasce de uma imagem originária – aquela ideia que precede a escrita, que o persegue e com a qual você acorda. Sinto isso com frequência, inclusive na direção teatral. Outro recurso que utilizo é a escrita automática: coloco o fluxo no papel sem interrupções. Só num segundo momento passo a organizar o material, eleger o que é fundamental e, finalmente, dar corpo e desenvolvimento à história.” Será que é assim que as crianças da peça vão começar suas histórias? Temos de ir lá conferir.”

Outra curiosidade do espetáculo é o efeito de um bigodão flutuando pela plateia. A diretora conta o que isso simboliza. “O tio Rui é um escritor marcante na história, e as crianças fantasiam que de seus bigodes caem letras, palavras e poemas”, adianta ela. “Diante dessa imagem, decidi transformá-lo, na encenação, em uma alegoria cênica representada por esse grande bigode flutuante. No espetáculo, ele simboliza a fonte da criação e do fascínio – a figura de onde os protagonistas esperam que venham todas as respostas e a solução para vencerem o concurso e ganharem a bicicleta.” Vamos lá aplaudir? 

Serviço

A Bicicleta que Tinha Bigodes

Sesc Bom Retiro. Alameda Nothmann, 185

Domingos, 12h. Sessões extras dias 7/9, 12h; e 16/9, 10h e 14h. R$ 40. Grátis para crianças até 12 anos

Até 16 de setembro (estreou 30 de agosto)

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Ficha Técnica

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Serviço

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