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Uma aviadora pioneira mostra como sonhar é valoroso

Sinopse

“E Se Fosse Uma Bomba?”, infanto-juvenil que estreia neste domingo, retomando a programação para crianças no teatro do Sesc Santana, conta a trajetória de Anésia, primeira mulher a realizar um voo solo no País

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 14 de agosto de 2026)

Quanto mais se mostrar para as crianças o quanto o mundo já teve mulheres vencedoras, empreendedoras e, para usar uma palavra mais em curso, empoderadas, menos chances teremos de virarem adultos machistas e misóginos. O teatro, então, entra em cena com força total, fazendo o que é sua essência: contar histórias, como forma de ilustrar mais com ações do que com lições.

É o caso de E Se Fosse Uma Bomba?, infanto-juvenil que estreia neste domingo em São Paulo, retomando a programação para crianças no teatro do Sesc Santana. A peça conta a trajetória da aviadora Anésia Pinheiro Machado, primeira mulher a realizar um voo solo no País e a segunda a conquistar uma licença de piloto. 

Para entender todas as boas intenções do espetáculo e suas ousadias temáticas e de linguagem cênica, fomos conversar com as três mulheres que estão mais à frente da montagem, Luíza Moreira Salles, idealizadora, produtora e atriz, Rhena de Faria, a diretora artística, e Sofia Fransolin, a dramaturga. As mesmas três perguntas para três artistas poderosas, debruçadas em uma encantadora história real. Confiram.

Cena do espetáculo E se fosse uma bomba? Foto Fabio M. Salles

⁠O que há na vida da aviadora, em sua opinião, que mais vai cativar o público da peça?
Luíza Moreira Salles – Acredito que a determinação da Anésia em perseguir um sonho em uma época na qual as mulheres tinham poucas alternativas e perspectivas. Ela conseguiu romper barreiras para se tornar a primeira aviadora brasileira. Em uma profissão que até hoje é mais ocupada pelos homens.

Rhena de Faria – A impetuosidade de Anésia Pinheiro Machado, o seu atrevimento e sobretudo sua coragem podem ser bastante inspiradores para o público juvenil. Anésia foi uma garota que se atreveu a realizar sonhos que não eram vistos como possibilidade para uma garota no início do século passado. Quando Anésia tinha apenas 2 anos de idade e vivia no interior de São Paulo, Alberto Santos Dumont testava o seu 14 Bis na França. Anésia começou a pilotar aos 17 anos de idade e conseguiu o seu brevê em 1922, aos 18. Os aviões ainda eram um advento tecnológico completamente novo, um feito revolucionário. Acho que conseguimos transmitir na obra esse encantamento, esse “olhar de primeira vez” para algo que hoje nos é corriqueiro.

Sofia Fransolin – Ao meu ver, a coragem e a obstinação da Anésia em perseguir o seu sonho são suas características mais cativantes. Anésia é uma menina nascida em 1904, o mesmo ano em que Santos Dumont voou pela primeira vez…Em um tempo em que os aviões não cruzavam os ares a torto e a direito, Anésia sonhava em ser passarinho e extrapolar as fronteiras de sua pequena cidade, mas só foi conhecer o avião com 16 anos. O encontro com a máquina foi como paixão à primeira vista, um clique que a fez perceber que o seu sonho de criança era possível. A partir desse momento, Anésia não mediu esforços para seguir a carreira como aviadora. Se essas características já impressionam por si só, quando olhamos pelo viés histórico e nos damos conta de que tudo isso foi realizado no início da aviação, a coragem da garota nos deslumbra. Em um tempo em que uma viagem curta como Rio-São Paulo tomava dias e interpunha desafios e perigos aos aviadores, Anésia foi a primeira a quebrar diversos recordes nacionais: de altura, de distâncias, de acrobacias… Acho que toda a sua trajetória é inspiradora. A peça trata da jornada de uma menina que desafiou a resistência da sociedade de seu tempo e se permitiu voar cada vez mais longe sem, no entanto, abandonar suas convicções, entre elas, a principal: o uso pacífico do avião. No início do século, os avanços da aeronáutica caminhavam lado a lado com os militares, ainda assim Anésia parece ter conseguido ser fiel ao que acreditava. Encarou as consequências disso, viveu altos e baixos em sua carreira por conta de ser coerente com suas convicções. Difícil selecionar um só momento cativante, pois acredito que a conduta de Anésia diante de seu sonho e das consequências (boas e ruins) geradas por conta dele são o aspecto mais cativante de sua figura. 

E o que há na forma de montagem desse espetáculo, em sua opinião, que mais vai atrair o público?
Luíza – Os pontos de conexão que fazemos com as questões e problemas comuns de toda criança e adolescentes, a escola, o sentimento de inadequação, o bullying e a curiosidade. 

Rhena – O espetáculo oferece em alguns momentos pontuais a magia do teatro de sombras, além de contar com um cenário inteiro composto por escadas de alumínio, que vão se ressignificando à medida que os diferentes ambientes vão sendo retratados. Isso a meu ver fomenta a imaginação do público, dando espaço para a plateia completar o que vê.

Sofia – O espetáculo em si une elementos diversos que só fazem a história de Anésia ser potencializada. As visualidades, no geral, chamam muita atenção, pela riqueza de detalhes e pela versatilidade no uso dos recursos que estão em cena. A cenografia junto com o uso das sombras e das retroprojeções, um recurso que já se fez presente na peça Do Que São Feitas As Estrelas? aparecem novamente aqui trazendo uma assinatura bonita para o projeto, cativando o público por sua artesania. O espetáculo como um todo foge da estética mais tradicional das peças infantis; é sóbrio, com figurinos de couro e uma cenografia inteiramente feita de escadas metálicas; acho que essa contraposição é interessante e foge do óbvio. Com ‘E Se Fosse Uma Bomba?’, a gente investe muito na ideia de fazer teatro para crianças sem “menosprezar”ou diminuir a capacidade delas de entenderem assuntos difíceis e de serem apresentadas a uma linguagem e estética não convencionais, e isso é o trunfo do projeto, não subestimar o seu público.

Outra cena da peça E se fosse uma bomba? Foto Fabio M. Salles

⁠Quais foram os desafios para aproximar do universo infantil atual essa história real do século passado?
Luíza – Abordar o tema da guerra, violência e história do Brasil de uma forma que as crianças ainda encontrem entendimento e encantamento, mesmo nessas questões mais duras, mantendo os questionamentos, mas os abordando de uma forma divertida, para ainda assim se conectarem com o público infantil.

Rhena – Traduzir uma vida inteira, cheia de desafios, desejos e percalços para 65 minutos de peça é sempre a parte mais desafiadora, seja qual for a época em que se passa a história. Junto com esse desafio está o olhar seletivo para os aspectos da vida de Anésia que podem ser interessantes para o espectador e o cuidado de torná-los comunicáveis para TODAS as faixas etárias. Mas não acho que o fato de ser uma história que se passa no século passado seja um desafio maior do ponto de vista da transmissão de uma ideia. Família, escola e exército são instituições que atravessam gerações e são identificáveis em qualquer contexto. É interessante e prazeroso mostrar, sobretudo para as meninas, quantas coisas tivemos de conquistar até os dias de hoje, oferecendo uma perspectiva diferente de hábitos e comportamentos da nossa sociedade. Acho que o desafio foi manter uma certa dose de compromisso com os hábitos e comportamentos da época, no texto e na concepção visual.

Sofia – Em termos dramatúrgicos, foram dois os maiores desafios. O primeiro foi trazer a dimensão de novidade e de espanto que o avião gerou nas pessoas no início do século. Hoje, ainda que exista a dimensão econômica que dificulta o amplo acesso a esse meio de transporte, o objeto e a sua tecnologia são bastante difundidos. É raro encontrar uma criança no Brasil que nunca tenha visto um avião cruzando os céus de sua cidade, ainda mais em uma metrópole como São Paulo… Hoje, a ideia de que nós podemos voar é difundida; é um fato dado. Na época de Anésia, era uma novidade que causava espanto, assombro e curiosidade. Transpor essa sensação de surpresa ao ver um avião pela primeira vez foi um desafio que, ao mesmo tempo, gerou uma das cenas mais bonitas do espetáculo. O segundo desafio foi temático, e tratou de abordar a Guerra como um dos temas centrais do conflito de Anésia com a aviação. Vivemos um momento político mundial bastante delicado, e ainda que o conflito armado esteja presente em nossas televisões e redes sociais diariamente, abordar o tema da guerra para crianças não é fácil, pois ele tange conceitos complexos como: a luta pelo poder, o domínio, a territorialidade e a morte. No entanto, a guerra é o motor dos avanços na aviação e seria ingênuo querer ignorar a complexidade desse fato. Assuntos complexos exigem abordagens multifacetadas, e nesse sentido buscamos quebrar com a dicotomia de “o avião é bom ou ruim?”, colocando como principal questionamento os usos que nós, como seres humanos, fazemos das tecnologias que nós mesmos criamos.

Serviço

E se fosse uma bomba?

Sesc Santana. Av. Luiz Dumont Villares, 579

Domingos, 12h (sessão extra 17 de setembro, 15h). R$ 40

Até 27 de setembro (estreia 16 de agosto)

Atividades

Oficina Teatro de Sombras
Com Luiza Moreira Salles e Diego Chilio
Datas: 16 de agosto a 20 de setembro, aos domingos
Horário: 15h às 17h
Local: Sala de Múltiplo Uso – Sesc Santana
Duração: 2 horas por encontro, 6 sessões. 12 h
Gratuito – Classificação: 6 anos

Bate-papo “Quando a história vira teatro”
Com Ludmila Ferolla, Rhena de Faria, Sofia Fransolin e Luiza Moreira Salles
Data: 27 de setembro, das 13h30 às 14h30
Local: Convivência – Sesc Santana
Gratuito 

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Ficha Técnica

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Serviço

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