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Uma festa no palco para celebrar pertencimento e dignidade

Sinopse

A Festa de Coroação de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, celebração vibrante que acontece na Igreja do Rosário dos Homens Pretos, da Penha, em São Paulo, vira tema de peça infantil, em cartaz de graça até setembro nos CEUs paulistanos

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 7 de agosto de 2026)

A cultura afro-brasileira ainda é muito pouco valorizada e difundida no currículo das escolas. Quando aparece é de forma enviesada e limitada. As próprias crianças pretas têm dificuldade em conhecer sua ancestralidade fora do âmbito familiar e da memória dos avós. Por isso cada iniciativa no sentido de retratar as infâncias negras e periféricas tem de ser muito comemorada e aproveitada. É o caso do espetáculo Rei Menino, que fará em agosto e setembro uma série de apresentações gratuitas distribuídas pelos CEUs paulistanos. 

Esse encontro entre arte teatral, memória e educação é o escopo do trabalho do dramaturgo Rafael Cristiano, do diretor artístico Cleydson Catarina e do diretor musical Fernando Alabê. O trio escolheu um tema que era inédito nos palcos vespertinos: eles querem que o público conheça o valor e a riqueza de uma manifestação cultural muito específica do povo preto de São Paulo, um verdadeiro símbolo de pertencimento, resistência, dignidade e memória coletiva. Transformaram em peça de teatro a Festa de Coroação de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, uma celebração vibrante que acontece na Igreja do Rosário dos Homens Pretos da Penha. 

No enredo, vemos a história de Pepê, um menino morador da Zona Leste de São Paulo, que pede a seu pai, Jonas, para levá-lo à coroação do rei e da rainha do Rosário.  Mas o que será que há de teatral na cerimônia dessa festa, que fez o grupo levar à cena?

Cena do espetáculo infantil Rei Menino. Foto Duda Viana

“A festa é conduzida pelas congadas em louvor ao novo rei e à nova rainha coroados”, conta o diretor de Rei Menino. “Com seus cantos, danças e vestimentas, contam histórias que resistiram e chegaram até hoje. Acho que o principal elemento que temos na nossa peça, e que referencia a festa, é a escolha de fazer o espetáculo ser conduzido pela congada. Ela, a congada, é que narra essa aventura do menino com o pai pelas ruas da Zona Leste. As roupas trazem referências aos congadeiros, e o cenário aos elementos das histórias, como os santos São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, além de uma ilustração da Capela do Rosário da Penha. O espetáculo ganhou ainda muitas músicas originais, baseadas nas congadas, que montam a narrativa.  Além disso, para as áreas das visualidades, foi fundamental a presença de artistas que fazem parte da organização: Patrícia Freire, nossa figurinista, é integrante da comunidade do Rosário, e está à frente da produção da festa, e Guinho, cenógrafo e preparador corporal, foi coroado como rei na festa de 2023.”

Essa equipe tão entrosada e plena de lugar de fala enxergou no teatro a possibilidade radical de proporcionar às crianças a criação de um novo imaginário. “As crianças durante a festa ficam muito atentas à coroação”, conta Cleydson Catarina. “Porque esse é justamente um lugar muito comum nas histórias de infância, ou seja, as rainhas e os reis. Nesse momento, há a possibilidade de ver uma realeza que se parece com as pessoas que a cercam. Na peça, foi feita a escolha de trazer isso de forma visual. O menino vive cercado por um “rei colonial” que o persegue. Até que ele chega à festa e dá de cara com uma rainha pretinha que ‘trabalha desde pequena com calo na mão’, como diz o verso de uma das canções.” Segundo Cleydson, o interesse das crianças recai também sobre tudo o que envolve esse universo da festa, “como as brincadeiras, a musicalidade, a comunidade, a alegria, o afeto”.

Nas apresentações já realizadas de Rei Menino, a equipe percebeu o quanto o tema da paternidade bate forte na plateia. “Acho que uma das devolutivas mais comuns que temos é em relação às paternidades, que sempre foram um foco para esse trabalho”, diz Cleydson. “Queríamos representar uma relação de pai e filho que fosse afetuosa e possível. Mesmo com o cansaço do personagem do pai, ele se esforça para estar presente com o filho, nessa aventura de conhecer a festa tradicional. Durante a ida, eles se perdem, para depois se reencontrarem. O que percebemos é que as crianças se engajam para ajudar o Pepê a encontrar o pai e as pessoas adultas se emocionam com essa possibilidade. Há uma escassez na representação de pais negros e periféricos presentes, e que têm a sensibilidade de ouvir o filho e de se deixarem ser conduzidos pela curiosidade da criança. Percebo essa como a principal devolutiva.”

Justamente por retratar infâncias negras e periféricas, o espetáculo já sofreu preconceitos e dificuldades de conseguir espaço, como se pode imaginar. Cleydson Catarina confirma a discriminação. Ele diz: “É bastante comum essas produções serem vistas como um nicho. A gente escuta que ‘já teve uma programação assim no último mês’, ou buscam restringir as possibilidades ao mês de novembro (o Mês da Consciência Negra). O que é obviamente, além de todos os preconceitos, uma ignorância, porque o espetáculo é sobre a Festa de Coroação da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Penha, e não tem qualquer outro espetáculo já produzido sobre essa manifestação. Além de tudo, colocam todas as artes negras no mesmo balaio, como se fôssemos monotemáticos. Também houve recusas referentes à religiosidade presente na obra.”

Outro momento do espetáculo infantil Rei Menino. Foto Duda Viana

“Mas, apesar dessas dificuldades, é importante reconhecer que a estreia do espetáculo teve uma boa recepção e bastante interesse do público”, ressalva o diretor. Rei Menino, com seu elenco formado por Gabriel Coupe, Lucas Laureno, Rafael Cristiano (o autor) e Rafael Fazzion, seguirá sua aventura em busca de pertencimento e valorização de identidades. Que seja sempre uma festa contagiante e reveladora por onde passe. Escolha um CEU mais perto de você e não perca essa chance de sair do lugar comum no que se refere à cultura afro. Caia na congada com a família toda. 

Serviço

Rei Menino

CEU Heliópolis – Estrada das Lágrimas, 2.385 – São João Clímaco, São Paulo
07/08, às 14h e às 16h

Fábrica de Cultura Jardim São Luís – Rua Antônio Ramos Rosa, 651 – Jardim São Luís, São Paulo
14/08, às 10h30 e às 14h30

CEU Paraisópolis – Rua Dr. José Augusto de Souza e Silva, s/n – Paraisópolis, São Paulo
28/08, às 14h30 e às 16h30

CEU São Miguel– R. José Ferreira Crespo, 475 – Jardim São Vicente, São Paulo
11/09 às 10h e às 14h 

EMEI Nenê do Amanhã – R. Alvinópolis, 1360 – Vila Beatriz, São Paulo
04/09 às 10h e às 14h  

CEU Pq. Anhanguera – R. Pedro José de Lima, 1020 – Anhanguera, São Paulo
18/09 às 10h e às 14h 

Grátis – não é necessário retirar ingresso

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Ficha Técnica

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Serviço

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