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Sidney Santiago Kuanza retrata Lima Barreto como um homem insubmisso

Sinopse

Ator estreia o monólogo “A Solidão do Feio”, que mostra como o escritor preto pensou o Brasil com profundidade, apesar das adversidades

Por Ubiratan Brasil

O escritor Lima Barreto (1881-1922) é lembrado como um dos grandes nomes da literatura brasileira, mas sua trajetória é habitualmente resumida em uma série de fracassos: filho de pais humildes, não conseguiu ser reconhecido devidamente pelos pares, especialmente os modernistas – sua obra, aliás, foi classificada durante anos como pré-modernista. Também o vício da bebida o levou a ser internado em sanatórios.

“Quando penso em Lima Barreto, penso em recontar a história de um homem insubmisso, que pensou o seu tempo e o seu país em profundidade”, conta Sidney Santiago Kuanza, ator e encenador que criou o monólogo perfomático A Solidão do Feio, que chega ao auditório do Sesc Pinheiros a partir do dia 11.

Cena de A Solidão do Feio, com Sidney Santiago Kuanza. Foto Pedro Jackson

O espetáculo mostra um ator em um estúdio improvisado, onde, ao lado de sua equipe, ele faz o exercício ficcional de recriar fragmentos da trajetória da vida e intimidade de Lima Barreto. Isso acontece a partir da apresentação de diferentes gêneros teatrais, sob a perspectiva performática do teatro panfletário. O trabalho é fruto da pesquisa continuada do coletivo Homens de Cor, no qual Lima Barreto ganha, segundo Santiago, a faceta de herói nacional, a partir de seu íntimo.

“Em 42 anos de vida, Lima fez muito. É possível dizer que sua vida foi épica“, conta o ator. “No espetáculo, fazemos um recorte celebrativo, mostrando o escritor como um herói nacional com suas virtudes e defeitos. Ele testemunhou grandes transformações acontecidas no Brasil e no mundo, e dali tirou inspiração para construir sua obra.”

O ator, que compartilha a direção com Gabi Costa, estuda a vida e a obra de Lima Barreto desde 2009. Tal conhecimento o convenceu a ampliar a representação do autor carioca, ao sair da biografia comum. O ponto de partida foi a leitura do conto Apologética do Feio, descoberto em 2010 e incluído no livro Contos Completos de Lima Barreto (Companhia das Letras), com organização e apresentação de Lilia Moritz Schwarcz.

Performance antes do espetáculo A Solidão do Feio, com o velório de Lima Barreto. Foto Pedro Jackson

Com o subtítulo “Bilhete à Baronesa de Melrosado”, o conto é uma agridoce reflexão sobre a recusa daquela senhora em conceder a dança de uma valsa ao narrador. “São três páginas em que ele distingue o feio do belo: enquanto o belo agrada universalmente e sem conceito, o feio é indefinível“, conta Santiago, lembrando que o texto termina mostrando que é possível ser feio, sendo-se homem de espírito, de ação e entendimento. “Lima traduz ali muito das incorreções que sofreu ao longo da vida, e não apenas no aspecto físico.”

Os caminhos do ator e do escritor se cruzaram diversas vezes, antes desse monólogo. Em 2010, por exemplo, Santiago participou da montagem de A Travessia da Calunda Grande, peça da Companhia Livre em que foi escalado para viver o autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. E, no filme Lima Barreto, ao Terceiro Dia (2018), de Luís Antônio Pilar, ele vive o autor na fase jovem, enquanto Luís Miranda representa Lima em seus últimos anos.

“Em todos trabalhos, o que se sobressai é uma voz que continua incômoda, porque decidiu olhar para o mundo do ponto de vista do subúrbio, motivo de muitas críticas. O mais grave é que, em pleno século 21, a humanidade do homem negro ainda não é reconhecida. Basta ver os índices de mortes, sejam violentas, sejam por doenças: os pretos são maioria nas estatísticas”, observa o ator.

Cena de A Solidão do Feio, com Sidney Santiago Kuanza. Foto Frederico Peixoto

No espetáculo, Santiago optou por não tratar do vício da bebida e da loucura de Lima. Mais: a apresentação começa fora do teatro, em um espaço público, onde a figura do escritor jaz em um caixão. “Começamos pelo velório do Lima, para então levar o espectador para o teatro onde a história daquela figura será contada.”

A Solidão do Feio faz parte de um projeto acerca da masculinidade e negritude que, desde 2014, pesquisa os impactos do racismo na psique, afetividade e subjetividade de homens negros. O monólogo integra uma trilogia que leva o legado de homens negros aos palcos. Assim como Lima Barreto, estão presentes na lista João Francisco dos Santos (1900-1976), conhecido como Madame Satã, figura emblemática e um dos personagens mais representativos da vida noturna e marginal da Lapa carioca na primeira metade do século XX. Ele foi lembrado em Cartas à Madame Satã ou Me Desespero Sem Notícias Suas, monólogo montado por Santiago em 2015.

E o próximo projeto, já em gestação, vai contar a trajetória de Benjamim de Oliveira (1870-1954), artista, compositor, cantor, ator e primeiro palhaço negro brasileiro. “É provável que tenha sido o primeiro no mundo. Ele abriu um caminho de protagonismo para os negros na dramaturgia e foi ainda o idealizador e criador do primeiro circo-teatro“, diz Santiago, que deverá cuidar apenas da direção – o protagonismo será dividido entre quatro atores, com destaque para o historiador, ator e músico Maurício Tizumba.

Serviço

A Solidão do Feio

Sesc Pinheiros, Auditório. Rua Paes Leme, 195, 3º andar.

Quinta a sábado, 20h. Performance de abertura às 19h30. R$ 40

Realização Sesc São Paulo

Até 9 de fevereiro

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Ficha Técnica

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Serviço

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