Peça dirigida por Ricardo Waddington, em cartaz no Teatro Faap, aborda um assunto que historicamente foi cercado de silêncio
Por Ubiratan Brasil (publicada em 27 de abril de 2026)
Depois de 40 anos de trabalho na Globo, Ricardo Waddington decidiu voltar ao teatro, onde iniciou sua trajetória artística. Pesquisou vários textos, cogitou montar algo de Shakespeare ou Nélson Rodrigues, mas se interessou por uma peça do autor espanhol Nando López chamada #malditos16. “Sempre me interessei pelo universo juvenil, um público com que tive muito contato quando dirigi a novela Malhação“, conta ele, explicando a escolha pelo espetáculo agora em cartaz no Teatro Faap.
A história acompanha quatro jovens que se conheceram aos 15/16 anos em uma instituição psiquiátrica após tentativas de suicídio. Anos depois, já na casa dos vinte, eles são convocados pela psiquiatra Violeta (Helena Ranaldi) e seu assistente Sérgio (Matheus Sousa) para participar de um projeto de apoio a adolescentes que atravessam situações semelhantes. O reencontro faz emergir memórias, conflitos e reflexões sobre família, escola, relações afetivas e pertencimento.

“#malditos16 é um texto extremamente relevante para o nosso momento porque dá voz a uma questão universal, avassaladora e de um jeito não sensacionalista – é muito direta, clara, sem maquiagem. É um tema radicalmente comunitário, mas que ninguém comenta por medo, receio, graças ao tabu e ao estigma existentes. Ao não ser falada, a questão se potencializa”, comenta o encenador, que comandou um rigoroso processo de seleção de elenco. “Eu buscava artistas que se identificassem de alguma forma com os personagens.”
A escolha recaiu, portanto, em Pedro Waddington, Sara Vidal, Benjamín e Julia Maez, que vivem adolescentes sobreviventes da tentativa de suicídio, mas que ainda carregam muita dor do ocorrido. “Alê é um desafio porque tem muitas camadas diferentes que precisam ser tratadas com delicadeza e responsabilidade. Sua história provoca muita empatia porque é a personagem que retrata a questão do bullying na escola”, conta Julia Maez.
“Já Nádia é uma personagem muito forte, independente, mas seu interior é caótico, cheio de conflitos. E ela é negligenciada, silenciada tanto no meio profissional, familiar e ela consigo mesmo. Por isso vive muito na negação, de não querer enxergar, sustentando e escondendo a dor”, completa Sara Vidal.
Pedro Waddington, filho do diretor e de Helena Ranaldi, tem o desafio de viver um personagem cuja história é totalmente diferente da sua. “Roberto tem uma relação muito complicada com os pais, devido a um acontecimento ocorrido quando ele tinha seis anos e foi culpabilizado pela morte do irmão”, explica ele, lembrando que sempre manteve ótimas relações com seus pais.
E Benjamín talvez seja o que mais se aproxima dos sentimentos de seu personagem, Dylan. “É menino trans, o que reforça a importância de falar sobre saúde mental das pessoas trans, especialmente das masculinas”, conta o ator, também homem trans. “Pessoas trans geralmente têm a necessidade de incomodar o menos possível e agradar o máximo por sentir que não se encaixa, por viver o não pertencimento. Na minha adolescência, vivi isso e hoje percebo também o Dylan. É um personagem que vai trazer muita representatividade, tanto para adolescentes quanto para os pais.”

Trazer esperança para aqueles personagens é a função de Violeta e Sérgio. “Ela é uma personagem muito amorosa, que se envolve emocionalmente com todos os pacientes, tentando transformar essa realidade”, conta Helena Ranaldi. “Dentro de uma realidade tão dura e triste, Violeta tenta buscar uma solução, mesmo com todas as dificuldades, inclusive financeiras, porque não existe o apoio de uma verba para que o projeto seja realizado de uma forma real.”
Sérgio, por outro lado, é um homem menos otimista, especialmente diante das dificuldades financeiras da instituição para o qual trabalha. “Ele é mais contundente, direto. Embora conheça os pilares dos terapeutas e seu discurso do acolhimento, ele é mais pragmático. Prefere trabalhar com ordem e disciplina. Ele também provoca os pacientes para entender suas histórias, espremendo um pouco mais a ferida, em busca de caminhos para a solução. É um agente muito provocador”, explica Matheus Sousa.
O texto de Nando López, que foi traduzido por Flavio Marinho, nasceu de oficinas conduzidas pelo autor em hospitais psiquiátricos com jovens em sofrimento emocional. A partir dessas experiências, o dramaturgo construiu uma obra que busca romper o silêncio em torno da saúde mental e estimular o diálogo.
“Nossa montagem fala sobre saúde mental e sobre o caminho no qual, em um ato de absoluto sofrimento, sem glamour ou romantismo, o adolescente entende o suicídio como sua última esperança para acabar com aquilo. E 90% dos atos são evitáveis, basta dar escuta, acolhimento. Às vezes um telefonema é suficiente porque é um momento de impulso absoluto”, acredita Ricardo Waddington.
Serviço
#malditos16
Teatro Faap. Rua Alagoas, 903
Quartas e quintas, 20h. R$ 100
Sessões extras em 12/05 e 26/05. Não haverá espetáculo nos dias 13, 14, 20, 21 e 28/05.
Até 4 de junho (estreou 16 de abril)
