Com Larissa da Matta, monólogo revela como mulher de F. Scott Fitzgerald foi uma heroína anterior ao próprio feminismo, uma das mulheres perdidas pela história
Por Ubiratan Brasil (publicada em 21 de abril de 2026)
Um dos grandes escritores norte-americanos, F. Scott Fitzgerald (1896-1940) tornou-se uma celebridade repentina com o sucesso de seu primeiro livro, Este Lado do Paraíso, publicado quando ele tinha 23 anos. Antes de morrer jovem (com apenas 44 anos), ele produziu um clássico americano que perdura, O Grande Gatsby. Com a mulher Zelda (1900-1948), desenvolveu uma relação tumultuada, marcada por amor incontrolável ao mesmo tempo destrutivo.
Com o passar dos anos, descobriu-se que a presença de Zelda na literatura de Scott era mais que importante: era decisiva. Hoje é sabido que ele tirou passagens das cartas e diários dela para sua ficção. É sobre a descoberta da relevância de Zelda que se baseia o solo A Última Valsa de Zelda Fitzgerald, em cartaz no espaço ºAndar.
Com atuação e concepção de Larissa da Matta, o monólogo lança luz sobre o silenciamento de Zelda pela fama e pelo plágio artístico cometido pelo marido. A dramaturgia, escrita em parceria com Pedro Amaral, traz perspectivas mais recentes sobre Zelda, que a escalam como uma heroína anterior ao próprio feminismo, uma das mulheres perdidas pela história.
Associada ao brilho da Era do Jazz, à imagem da mulher excessiva e à fama de seu marido, sua trajetória foi frequentemente reduzida a estereótipos que a colocavam no lugar da musa, da esposa difícil e da figura instável.
A peça – projeto pessoal de Larissa da Matta – acompanha Zelda desde seu início no sul dos Estados Unidos à consagração social nos anos 1920, passando pelos embates de seu casamento com Scott Fitzgerald, pelas tensões entre vida íntima e produção artística, pela vontade de existir para além da figura de esposa célebre e pelo agravamento de sua saúde mental.

Baseado principalmente na correspondência escrita por ela, o texto revela uma observadora divertida e intransigente sobre sua própria vida cujas cartas pareciam ser curtas sequências de stand-up.“Você sabe tudo sobre mim, e principalmente o que eu penso. Eu pareço estar sempre curiosamente interessada em mim mesma, e é muito divertido afastar-me e olhar para mim”, escreveu para Scott.
Ao colocar Zelda em foco, a montagem propõe uma reflexão sobre quantas artistas foram reduzidas a notas de rodapé, quantas tiveram sua criação absorvida pela fama de homens ao redor, e quantas ainda precisam lutar para existir com voz própria.
O lado obscuro também não foi esquecido. A relação foi marcada por cenas terríveis nos aeroportos, hospitalizações, tentativas de suicídio. A filha do casal, Frances, foi levada para morar com o agente literário de Scott. Os amigos temiam dar seus endereços ao casal.
Em 1930, Zelda foi internada pela primeira vez após um colapso (o diagnóstico foi esquizofrenia, mas agora a ideia é de que ela sofria de transtorno bipolar) e permaneceria em uma instituição por grande parte de sua vida, morrendo em 1948, em um incêndio hospitalar.
Com linguagem intimista e força narrativa, o solo se apresenta como uma experiência capaz de dialogar tanto com o público interessado em literatura, história da arte e artes da cena quanto com espectadores atraídos por histórias de mulheres intensas e profundamente contemporâneas em suas contradições.
A montagem marca ainda a primeira produção assinada pelo Foyer, plataforma de comunicação, cultura e criação de projetos autorais, ampliando sua atuação para o campo da produção teatral e reforçando seu compromisso com obras que articulam arte, pensamento e relevância contemporânea.
Serviço
A Última Valsa de Zelda Fitzgerald
⁰Andar. Rua Dr. Gabriel dos Santos, 88
Quintas e sextas, 20h. R$ 60 (via Sympla ou na bilheteria do espaço)
Até 24 de abril (estreou em 9 de abril)