Atriz e cantora comemora 81 anos de vida e 60 de carreira com uma trajetória que ajudou a abrir caminhos e a ampliar possibilidades de existência para mulheres negras nas artes do país
Por Ubiratan Brasil (publicada em 15 de abril de 2026)
Ao observar a trajetória da atriz e cantora Zezé Motta para a escrita de um musical, o roteirista e dramaturgo Toni Brandão constatou um detalhe importante: “O que aconteceu com essa grande artista brasileira é improvável demais para ser verdade, se olharmos apenas sob a perspectiva da realidade como a maioria das pessoas a entendem”, afirma.
Brandão a compara a Machado de Assis por não ficarem reféns do meio em que nasceram nem aprisionados à expectativa que suas famílias, o mundo, o machismo e a desigualdade social tinham para eles. “Ela ajudou a cunhar um termo que pauta a minha vida: rebeldia premiada.”

Fragmentos dessa história tão rica em altos e baixos são contados em Prazer, Zezé!, musical em cartaz no Sesc 14 Bis, em São Paulo. Aos 81 anos de vida e 60 de carreira, Zezé Motta teve grande atuação pública e criação artística. Da juventude em Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro, à formação no Teatro Escola Tablado. Do impacto de Roda Viva, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, à projeção nacional com Xica da Silva, filme de Cacá Diegues. Da consagração popular como cantora e atriz à construção de uma identidade que nunca se moldou ao olhar alheio.
“O ponto de partida foi pensar que a trajetória da Zezé não cabe em um retrato confortável. A história dela é a de uma artista que precisou disputar cada espaço em um país que sempre naturalizou a exclusão de corpos negros dos lugares de protagonismo. O musical nasce deste embate entre desejo, talento e estruturas que tentam limitar quem pode ocupar o centro da cena”, afirma a diretora artística Débora Dubois.
A história de Maria José Motta de Oliveira é narrada de uma forma não muito linear, apostando nos momentos decisivos para a construção de sua trajetória artística. O espetáculo propõe um olhar crítico sobre a trajetória de uma mulher negra que construiu relevância artística em um campo cultural atravessado por desigualdades estruturais.

No papel principal, Larissa Noel oferece um retrato perfeito da atriz e cantora, com gestos e vocais semelhantes às de Zezé e que se aproximam da sua própria carreira. “Ao mergulhar na trajetória profissional dela, revisitando cada escolha, cada resistência e cada conquista, eu inevitavelmente revisitei minha própria história”, afirma.
O espetáculo recupera momentos históricos, como estreia profissional na peça Roda Viva de Chico Buarque, no final da década de 1960. Sua primeira aparição na televisão também foi em um trabalho histórico: a telenovela Beto Rockfeller, da TV Tupi, em 1968, que mudou o rumo da teledramaturgia brasileira, tornando-a mais próxima do cotidiano nacional.
Sua entrada na novela, aliás, rende um dos melhores momentos do musical, quando Maria José ganha o nome artístico de Zezé graças à interferência da atriz Marília Pêra, interpretada de forma impagável por Luciana Carnieli.
“Zezé caminhou entre artistas em tempos de liberdade abafada: a cultura fervia, mas era silenciada. Fez do talento uma arma de transformação, abriu caminhos e protegeu, dentro de si, a menina artista que insistia em existir”, afirma a diretora.
Serviço
Prazer, Zezé!
Sesc 14 Bis – Teatro Raul Cortez. Rua Dr. Plínio Barreto, 285, 2º andar
Quinta, 15h e 20h. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. Dia 21/04, terça, 20h. R$ 70
Até 21 de abril (estreou 20 de março)