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Peça “Aqui 1.000.000.000.000” provoca ao mostrar o risco da crescente produção de lixo

Sinopse

Em cena, 12 atores lotam o palco com objetos descartáveis, criando um verdadeiro lixão de forma original e impactante

Por Ubiratan Brasil

A primeira surpresa acontece logo no início, quando o elenco de 12 atores se alinha diante da plateia. Um deles anuncia que todos são da equipe técnica do espetáculo e que, durante 1h30, estarão preparando o cenário da peça. Em seguida, haverá um intervalo de quinze minutos para então começar o espetáculo, que vai durar 15 minutos. Essa é uma das várias novidades que marcam Aqui 1.000.000.000.000 (ou Aqui elevado a um trilhão), projeto criado e dirigido por Elisa Ohtake que estreia no Sesc 24 de Maio. Trata-se de um trabalho com o comprometimento de pensar a cena contemporânea às últimas consequências, sempre no cruzamento com a performance e as artes plásticas.

O resultado é instigante e provocador. Diretora de teatro e dança, Elisa trabalhou durante três anos na concepção desse projeto cênico que aponta a tragédia anunciada que ameaça a humanidade por não cuidar corretamente do lixo produzido em toneladas todos os dias. Em suas pesquisas, ela chegou a números alarmantes: anualmente, mais de 8 milhões de toneladas de plástico são jogadas no oceano e sete bilhões de seres humanos produzem 1,4 bilhão de toneladas de resíduos sólidos urbanos. E, segundo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em 2030, a quantidade de lixo produzido no mundo será 50% maior.

Assim, o ponto de partida da peça é a confirmação de que não se deve procurar outros planetas que permitam o desenvolvimento humano, mas permanecer aqui e enfrentar o problema. ““Ficar com o problema, como diz a filósofa e zoóloga estadunidense Donna Haraway, pois algo só a partir daqui pode acontecer”, reafirma Elisa.

Maria Manoella em cena da peça Aqui 1.000.000.000.000. Foto Ariela Bueno

Como se trata de teatro e não de uma palestra científica, a peça apresenta personagens que gostariam de estar em outro lugar mais agradável, mas que estão ali, no palco, enfrentando o “problema” de montar o cenário. “O que está em jogo na peça não são paisagens, não é a descrição de um visual. O lugar é entendido como uma possibilidade de transformação“, diz Elisa. “O que está em jogo é a sensação do corpo nos lugares, como o lugar afeta, o transforma. O teatro é radicalmente vivido a partir da complexidade dos lugares do mundo.”

A partir desse raciocínio, ela criou mini monólogos em que pessoas distintas revelam detalhes de seus problemas não solucionados. Detalhe: quando entram em cena, elas vão depositando lixo no palco para a construção do cenário. Assim, depois de 1h30, o ambiente está repleto de garrafas, latas, laptops, brinquedos, uma imensa quantidade de lixo reciclável doada por cooperativas especializadas no tratamento desses objetos.

Rodrigo Pandolfo em cena da peça Aqui 1.000.000.000.000. Foto João Caldas Fº

“Isso chama atenção para a crise ecológica vivida no nosso planeta, pois, mesmo conscientes da necessidade da reciclagem, somos obrigados pela forma de sobrevivência no cotidiano a produzir mais lixo”, comenta a atriz Maria Manoella, que abre a série de mini monólogos.

Em suas falas, além de revelar detalhes pessoais, os personagens trazem também informações surpreendentes sobre o tamanho do problema. “Em determinado momento, digo que há uma ilha formada por lixo que se move entre a Califórnia e o Havaí seguindo as correntes marítimas”, conta Rodrigo Pandolfo. “O absurdo é que essa ilha tem o tamanho do Estado do Amazonas.”

A peça não menciona apenas lixo físico. “A internet está repleta de material danoso, como informações falsas que levam as pessoas a cometerem atitudes erradas”, observa Aretha Sadick, que entra no palco jogando laptops inutilizáveis pelo chão. “Isso é muito verdadeiro. Observo, principalmente nos meus grupos de amigos, como as pessoas divulgam dados descartáveis”, completa Michel Joelsas, que tem as atitudes mais violentas em relação ao lixo do palco, fazendo latas voarem com seus chutes potentes.

Mario Bortolotto em cena de Aqui 1.000.000.000.000. Foto Ariela Bueno

No elenco, apenas um participante não é ator profissional. Alison Guega é um malabarista que trabalha nos semáforos de São Paulo e seu depoimento é verídico. “Já viajei para quinze estados do Brasil e sete países da América Latina, com pouquíssimo dinheiro, fazendo malabares para comer e seguir viajando”, conta ele, morador de Parelheiros e que revela grande habilidade com os três pinos, além de também usar o lixo espalhado pelo cenário.

O elenco é completado por interpretações vigorosas de Paula Picarelli, Vinicius Meloni, Tamara Stief, Roberto Alencar, Ricardo Oliveira e Mario Bortolotto, que vive um hilariante produtor de teatro infantil, cujas peças para crianças trazem a sua marca. Passado o intervalo, Georgette Fadel finalmente apresenta a peça, um monólogo que traz o resumo de tudo o que foi apresentado até então.

“Fico aqui nesse mundo estragado“, diz ela, em determinado momento. “Nesse país! Eu fico completamente aqui porque algo só pode acontecer a partir daqui.” E completa: “Vamos aprendendo meticulosamente a viver num mundo danificado. Lamentar me despotencializa. Só reclamar desestimula”.

Michel Joelsas em cena de Aqui 1.000.000.000.000 . Foto João Caldas Fº

Ela também explica o número monstruoso que está no título da peça, a partir de uma informação científica de que existem sóis pelo universo que chegam a ter um trilhão de vezes o brilho do nosso sol. “É possível algo ter um trilhão de vezes o brilho do nosso sol. É um brilho possível. Imaginem aqui brilhando um trilhão de vezes mais”, diz Georgette, rodeada de lixo.

Elisa escreveu o texto a partir de pesquisas científicas e das próprias experiências em diferentes regiões do mundo percorridas em caminhadas de longa duração na natureza. O resultado é uma bem vinda provocação, em que o bastidor de uma peça é transferido para a cena, borrando os limites entre atuação e cenotecnia. “Pensar o teatro fora do teatro. E o fora dentro do teatro, esgarçando as convenções”, instiga ela.

Serviço

Aqui 1.000.000.000.000

Sesc 24 de Maio. Rua 24 de Maio, 109, a 350 metros da estação República do metrô

Quinta a sábado, 20h. Domingos e feriados, 18h.  R$ 50

Até 14 de julho (estreia 13 de junho)

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Ficha Técnica

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Serviço

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