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“Órfãos” trata com delicadeza da procura pelo afeto

Sinopse

Peça em cartaz na Faap traz Lucas Drummond, Ernani Moraes e Rafael Queiroz como os personagens que lutam contra a solidão

Por Ubiratan Brasil

Em 2018, quando fez um conservatório de atuação em Nova York, o ator Lucas Drummond descobriu uma peça pela qual logo se apaixonou. Escrita pelo americano Lyle Kessler, Órfãos foi montada originalmente em 1983 e vem ganhando seguidas versões pelo mundo. “É uma fábula e o que me tocou é a história de dois irmãos órfãos que sequestram um homem misterioso e acabam descobrindo o afeto”, conta Drummond, que está em cartaz no Teatro Faap.

Ele vive Phillip, jovem que é criado pelo irmão mais velho, Treat (Rafael Queiroz) que, alegando que o rapaz tem uma misteriosa doença, o impede de sair de casa. Assim, enquanto Phillip passa o tempo assistindo televisão e criando sonhos, Treat ganha o sustento promovendo diversos furtos pela cidade de Filadélfia, onde vivem. Até o dia em que ele conhece Harold (Ernani Moraes), um misterioso homem de negócios que, embriagado, é levado para a residência dos dois irmãos. O objetivo de Treat é simular um sequestro e faturar um resgate. O que os irmãos não esperam é a forma como Harold vai transformar suas vidas.

Ernani Moraes, Rafael Queiroz e Lucas Drummond em Órfãos. Foto Roberto Carneiro

“É uma peça sobre afeto. Na verdade, sobre a falta de afeto“, comenta Drummond, também produtor. Para a direção, ele convidou Fernando Philbert, especialista em transformar textos sensíveis em grandes espetáculos. Assim, ele optou por uma montagem que une carinho e ferocidade, cenas comoventes com outras de muita ação. “É a solidão de feras que acompanhamos. Uma relação dura se estabelece entre eles, algo selvagem, mas sempre aberto para o afeto”, comenta o encenador.

Como a ação de Órfãos é limitada a um único local e conta com um elenco de três atores, grande parte do peso emocional recai sobre os ombros dos intérpretes, que devem chamar a atenção a cada momento. Philbert elogia seu elenco e diz que trabalhar com Drummond, Queiroz e Moraes na criação das complicadas histórias dos personagens ajudou a moldar o produto final.

De fato, Órfãos é um estudo investigativo sobre almas rebeldes e homens destroçados, e trata de questões de abandono, morte, engano, masculinidade e violência, mas sem perder o humor. “A orfandade é uma espécie de falta de carinho. Assim, a chegada de Harold modifica a rotina dos irmãos que projetam nele a imagem de um pai”, comenta Rafael Queiroz. “A carência é grande, o que justifica o fato de Phillip passar muito tempo dentro do guarda-roupa, ao lado das roupas de sua mãe que morreu. É uma forma de amenizar a saudade.”

Lucas Drummond, Rafael Queiroz e Ernani Moraes em cena de Órfãos. Foto Roberto Carneiro

A temporada marca o retorno de Ernani Moraes aos palcos paulistanos depois de 15 anos. Aos 27 anos, o ator veio para São Paulo onde integrou o grupo Tapa em montagens como A Megera Domada, A Mandrágora e Viúva Porém Honesta, em um período de 12 anos. Sobre o papel de Harold, o homem mais velho que transforma a vida dos dois jovens, Moraes confessa uma teoria particular. “No meu entender, Harold é o pai daqueles rapazes e, depois de viver como mafioso em Chicago, retorna para reencontrá-los”, diz ele.

Aos 67 anos, Moraes sente-se desafiado pela proposta cênica lançada pelo diretor para a composição de seu personagem. “Pela primeira vez no teatro, me deram um adjetivo para eu pesquisar, que é ‘elegante’. Normalmente, estou no universo dos ogros, dos malucos, dos torturadores, e o Phil está puxando isso de mim, que é fazer um personagem elegante, sem esforço, calmo, falando com a voz normal. Para quem me conhece como ator, sabe que eu transito muito no outro lado. Está sendo muito desafiador.”

Philbert optou por uma composição que fugisse da caracterização – isso porque Phillip é, muitas vezes, mostrado como garoto infantilizado e fechado demais. Na versão brasileira, o rapaz revela sua fragilidade e ingenuidade, motivadas pela obrigação de viver só em casa. Mas é também um homem inteligente e disposto a enfrentar novos caminhos. “O autor veio assistir à nossa montagem no Rio de Janeiro e ficou encantado com isso”, conta Philbert. “Ele nunca aprovou a forma caricata como o personagem é mostrado em muitas versões.”

Rafael Queiroz, Lucas Drummond e Ernani Moraes em Órfãos. Foto Ricardo Brajterman

Ciente do histórico de Drummond no teatro musical brasileiro, o diretor também criou duas belas cenas em que o ator demonstra sua habilidade na dança, o que também foi aprovado pelo autor. Curiosamente, Lyle Kessler reescreveu o texto 25 vezes e ainda acompanhou duas montagens até encontrar o final certo, um dos momentos mais tocantes da peça.

Órfãos já foi montada em diversos países e por nomes ilustres. Em 1985, foi dirigida pelo também ator Gary Sinise e, em 1986, a versão inglesa rendeu a Albert Finney o Olivier Award de Melhor Ator. A montagem norte-americana mais recente, produzida na Broadway, em 2013, foi estrelada por Alec Baldwin e indicada ao Tony Awards na categoria Melhor Peça. A história ganhou as telas de cinema em 1987, no longa dirigido por Alan J. Pakula e protagonizado por Albert Finney, Matthew Modine e Kevin Anderson.

Serviço

Órfãos

Teatro Faap. Rua Alagoas, 903.

Quartas e quintas, 20h. R$ 80

Até 1º de agosto

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Ficha Técnica

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Serviço

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