A artista, expoente do teatro-dança, celebra cinco décadas de carreira com o objetivo de trabalhar com a mesma energia de quando começou
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 2 de setembro de 2026)
Às vésperas de completar 69 anos, no próximo dia 10, a atriz e bailarina Mariana Muniz minimiza a efeméride de celebrar cinco décadas de uma trajetória dedicada à dança e ao teatro em 2026. “Não vejo nada de tão memorável em ter 30, 40 ou 50 anos de carreira porque a nossa vida é trabalhar e vamos continuar trabalhando”, justifica.
Tudo começou em 1976 com o espetáculo O Domínio do Movimento, assinado pelo coreógrafo argentino Oscar Arrais, no Rio de Janeiro, e teve sequência com Re-Vide, exibido no Festival de Dança Contemporânea da UFBA (Universidade Federal da Bahia). É uma história que poderia jamais ter acontecido ou, pelo menos, ter gerado um trauma. Aos 3 anos, a pequena Mariana descobriu que tinha o pé pronado, uma variação do chamado “pé chato”, engessou as duas pernas, usou bota ortopédica e ouviu de um especialista o seguinte: “Com este pé, esta menina jamais vai dar para a dança”.
Mariana é pernambucana de Caruaru, cresceu no Recife e, aos 11 anos, foi morar no Rio de Janeiro. O pai, funcionário do Banco do Brasil, tinha ambições de equilibrar a rotina da repartição com as artes plásticas. Mariana, então, com seu pé pronado, fez o teste para a escola de dança clássica do Theatro Municipal carioca e passou. “Dei um truque, encontrei uma brecha e fiz alguma coisa, algum passo que mostrei que seria possível dançar”, relembra.

É sobre isso, sobre as lembranças, sobre a celebração de uma trajetória, sobre memórias em curso o solo Brecha, dirigido por Murillo Basso, que estreia nesta quinta, 3, no Galpão do Folias, em Santa Cecília. A bailarina e atriz garante que não queria uma retrospectiva. Gostaria apenas visitar esse espaço em que fica livre para o que der vier, o palco, como se fosse para se jogar no abismo, mas desta vez com um roteiro.
Então, Mariana cria e recria movimentos, recupera textos do dramaturgo estadunidense Tennessee Williams (1911-1983), do poeta brasileiro Ferreira Gullar (1930-2016) e da portuguesa Florbela Espanca (1894-1930) e evoca lições de dois dos seus mestres maiores, os coreógrafos Angel Vianna (1928-2024) e Klauss Vianna (1928-1992). “Foi Klaus quem me trouxe para São Paulo para trabalhar no Balé da Cidade em 1982 e me incentivou muito nesta transição da dança para o teatro”, comenta. “Ele dizia: ‘Mariana, você só falta falar’”.
Não necessariamente todas as cenas serão apresentadas em Brecha todas as noites. Está tudo ensaiado, mas a artista vai moldar cada espetáculo de acordo com a sua energia e recepção da plateia. É por causa dessa energia arrebatadora e de uma abertura para as novas possibilidades que o diretor Murillo Basso, de 35 anos, se diz apaixonado por Mariana.
A primeira vez que ele a viu no palco foi no espetáculo Fados e Outros Afins, dirigido por Maria Thaís, em 2017, e as imagens dos movimentos ainda rondam a sua cabeça. “Depois da apresentação, ela voltou ainda aquecida para um papo com o púbico e foi um espetáculo à parte”, diz Basso. “Mariana tem uma entrada pelas palavras que o corpo vai acompanhado e isso é Brecha, o texto é a âncora para inspirar os movimentos.”
Como o mundo dá voltas rapidamente, se Basso viu Mariana em cena pela primeira vez em 2017, em 2023, seis anos depois, ela já a dirigiu no extinto Teatro Aliança Francesa. A peça era Agnes de Deus, que tinha um elenco completado por Clara Carvalho e Gabriela Westphal. Em uma das cenas, a psiquiatra Martha (vivida por Clara) pergunta à Irmã Miriam Ruth (papel de Mariana) “por que a voz de Agnes é tão importante para você?”. A resposta dispensa o texto e assume a forma de um solo coreográfico. É o chamado teatro-dança, a base da arte de Mariana e a essência de Brecha.

Basso ainda se lembra comovido da escuta de Mariana diante de um artista tão mais jovem naquele trabalho. “Os encontros de gerações são fundamentais porque me trazem frescor”, garante ela. Segundo o diretor, a atriz e bailarina foi muito aberta para suas sugestões, ainda mais em cima de uma dramaturgia tão pesada como Agnes de Deus, e, por isso, agora, em Brecha, ele entendeu que basta ancorá-la nos textos para que os movimentos brotem naturalmente neste encontro entre a técnica e a memória. “E não é aquela memória empoeirada, é a memória que Mariana carrega das vivências, da sua técnica que dá espaço para que a arte aconteça renovada”, explica.
Lá em meados da década de 1980, época do Balé da Cidade de São Paulo, Mariana começou a se enturmar com o pessoal do teatro, como o ator e diretor Antônio Abujamra (1932-2015), a atriz e bailarina Clarisse Abujamra e o diretor, dramaturgo, cenógrafo e figurinista Naum Alves de Souza (1942-2016), e viu que os limites entre as artes eram muito tênues, todo mundo podia fazer de tudo.
Voltou a voz de Klaus Vianna em seus ouvidos dizendo que para ela só faltava falar. Em Nijinsky, espetáculo escrito e dirigido por Alves de Souza em 1987, Mariana interpretou a mulher do bailarino russo, Romola – e falou em cena. “Foi a minha primeira personagem que carregava um arco dramatúrgico”, diz.
No ano seguinte, sob a direção de Jorge Takla, contracenou com Walderez de Barros e Elias Andreato em Lago 21, uma fusão do Hamlet de Shakespeare com A Gaivota de Tchekhov, e, depois disso, movimento e palavra viraram uma coisa só. Paidiá, em 1989, solo coreográfico com textos de Paulo Leminski (1944-1989), Machado de Assis (1839-1908) e Mário de Andrade (1893-1945), inaugurou uma linguagem trabalhada até hoje pela artista. Basso, se deslumbra só de ouvir parte desta trajetória e compreende que Mariana é capaz de extrair do texto qualquer movimento permitido por sua sensibilidade. “É só deixá-la livre e, se eu não atrapalhar, está ótimo”, brinca.
Murillo Basso tem se dividido entre o Brasil e a Alemanha há três anos. Ele mora em Giessen, cidade perto de Frankfurt, faz mestrado em coreografia e performance e é assistente de direção de Carolina Bianchi, encenadora brasileira celebrada na Europa, como no espetáculo Uma Luz Cordial, recém-lançado no Festival de Avignon. “Fico com um pé lá e outro cá sempre pensando em ficar de vez por aqui, mas dando um tempo para as coisas melhorarem”, confessa.
Mariana conhece bem esse perrengue de viver de arte no Brasil e, por isso, não romantiza os 50 anos de carreira. Entre as cenas incluídas no roteiro de Brecha está uma memória não realizada, um fragmento do espetáculo Quando Somos Quando, texto de João Mostazo dirigido por Ines Bushatsky, que Mariana ensaiou no ano passado com o ator e bailarino Maurício de Oliveira e, por conta de adiamentos e choques de agenda, não conseguiu estrear.
“As datas coincidiram com a temporada de Projeto Clarice, espetáculo do Cesar Ribeiro que eu estava comprometida anteriormente e todos tinham conhecimento”, justifica. “É isso, em meio às burocracias e às políticas públicas, estamos sempre na lida, trabalhando, trabalhando e, às vezes, passamos o bastão para outra colega.”
Serviço
Brecha
Galpão do Folias. Rua Ana Cintra, 213, Santa Cecília
Quinta a domingo, 19h30. R$ 40. Sessão extra da segunda, 7/9, 19h30
Até o dia 13 de setembro (estreia 3 de setembro)
