Solo dirigido por Alessandra Colasanti, que estreia no Sesc Santana, é a primeira versão da obra da escritora francesa no Brasil
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 26 de agosto de 2026)
A escritora francesa Annie Ernaux, de 85 anos, venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 2022, o mesmo ano em que dominou as atenções na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Se o conterrâneo Édouard Louis, de 33, é a voz LGBTQIAP+ aliada às questões das desigualdades no terreno da autoficção, Ernaux representa as batalhas femininas para se estabelecer em territórios machistas e pouco abertos ao trânsito social e intelectual.
Com relatos confessionais, a autora conquista milhares de leitores em obras como O Acontecimento, O Lugar, Os Anos e Vergonha, narradas em primeira pessoa e prontas para ganhar os palcos. Por isso, surpreende constatar que Paixão Simples, dramaturgia e direção de Alessandra Colasanti em cima do romance escrito em 1991, seja o primeiro livro de Ernaux adaptado para a cena no Brasil. Louis, por exemplo, inspirou três montagens, Eddy – Violência e Metamorfose, Papaizinho e Mulher em Fuga.

O monólogo, idealizado por Pablo Sanábio e protagonizado por Aline Fanju, estreia nesta sexta, 28, no Teatro do Sesc Santana, em São Paulo, depois de temporada no Rio de Janeiro no ano passado. Em Paixão Simples, a autora, como é uma característica de sua linguagem, parte de uma experiência real para dividir com o leitor – e, agora, com o espectador – uma reflexão que ultrapassa o intimismo e estabelece contornos sociais, filosóficos e políticos.
Nesta história, Ernaux recupera as memórias de um caso de amor vivido por três anos no final da década de 1980 com um homem casado e estrangeiro que a visitava com uma constância aquém da sua vontade. Na época, a escritora, separada do primeiro marido e mãe de dois filhos crescidos, se entregou a um sentimento unilateral. “Paixão Simples é muito mais sobre a espera, a angústia que sobre uma relação romântica”, explica Aline Fanju, de 47 anos. “Sendo casado, este homem impunha restrições, como não telefonar, mandar cartas ou dar presentes que fossem difíceis de justificar, e ela ficava aprisionado às manifestações dele.”
Paixão Simples é o primeiro monólogo nas quase três décadas de carreira de Aline. Ausente dos palcos paulistanos desde Razões para Ser Bonita, texto de Neil LaButte protagonizado por Ingrid Guimarães em 2013, a atriz foi vista recentemente na novela Três Graças, da Rede Globo, na pele da corrupta delegada Marise. “É preciso experiência para fazer um monólogo porque é uma demanda emocional e artística muito maior do que quando se divide a cena com outros colegas”, compara.

A preparação, nos últimos anos, se deu de uma forma quase inconsciente conectadas às vivências de um período bastante turbulento. No fim de 2018, Aline se tornou a mãe de Teresa, do seu casamento com o ator Marcelo Cavalcanti e, quando se preparava para voltar ao trabalho, veio a pandemia que rendeu um hiato além do previsto na sua carreira.
A retomada das atividades veio cercada de transformações do mercado, como a supervalorização da internet e o investimento em influenciadores, e a artistas se sentiu deslocada em um terreno que acumulou bagagem desde o começo da década de 2000. Surgiu de Pablo Sanábio a ideia do projeto de um solo para marcar a sua volta aos palcos e, mergulhado nos livros em busca de inspiração, o amigo apresentou à atriz a obra de Ernaux, isso lá em 2023. “Ao ler, fiquei impressionada porque ela não julga, não emite juízo de valor e sua escrita é direta, sem adjetivos”, comenta. “É como se Annie tivesse coragem de revelar coisas íntimas que já vivemos e nunca compartilhamos com ninguém.”
Quando Alessandra Colasanti, de 53 anos, entrou no projeto veio junto o desafio de atender às rígidas exigências dos agentes de Ernaux, que não permitem sequer alterações de palavras quanto mais de contextos. Como diretora, ela montou uma encenação que transita entre o melodrama e o teatro contemporâneo, colocando em cena Aline em três versões diferentes: a própria atriz, logo depois a escritora e, por fim, a personagem criada por Ernaux, que, por mais que seja ela mesma, transmite uma outra visão dos fatos.
“A literatura de Annie é distanciada porque ela fala de eventos do passado e, diante disto, as situações não aparecem do drama”, afirma Alessandra. “Mas, ao mesmo tempo, ela fala de buracos existenciais comuns a muito gente e, no teatro, é preciso trazer essa intensidade dramática.”
O cenário, criado por Aurora dos Campos, mostra o quarto da escritora, com sua mesa de trabalho, a máquina de escrever e uma televisão permanentemente ligada, uma espécie de simbologia da interioridade da personagem. O amante é apenas citado e, por mais que Ernaux já tenha conquistado um séquito no país, a dramaturga e diretora tomou cuidado para que expressões e comportamentos típicos dos franceses não atrapalhassem a compreensão dos brasileiros. “Sempre me incomoda nas adaptações o excesso de referências ao país de origem, o que acaba estabelecendo uma barreira com o público”, diz. “Estamos no Brasil e não é necessário reforçar o tempo inteiro que esta história se passa na França.”
O sofrimento da paixão unilateral já garante a força da identificação. Alessandra, porém, investiu em códigos conhecidos para cutucar ainda mais as memórias de cada um, como citações musicais típicas da década de 1980. Gal Costa (1945-2022) aparece com Meu Bem, Meu Mal, a voz de Alcione é ouvida em Sufoco e até a lambada do grupo Kaoma entrou na trilha sonora. Entre os franceses, aparece a cantora Mireille Mathieu.
Os elementos presentes na adaptação brasileira servem para reforçar a dramaticidade de uma história que é genuinamente literária e, em momento algum, quer se afastar da origem. “Paixão Simples é uma peça sobre uma escritora e uma história de amor vivida por ela”, define Alessandra. “O prazer, tanto nosso quanto do público, é conversar junto de Annie Ernaux”, completa Alessandra.
Serviço
Paixão Simples
Sesc Santana – Teatro. Avenida Luiz Dumont Villares, 579
Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. Sessões extras dias 7/9, às 18h. 25/9, às 15h, e 2/10, às 15h. R$ 60
Até 3 de outubro (estreia dia 28 de agosto)
