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Daphne Bozaski e Gabriela Medvedovsky discutem a dependência digital na comédia “Pergunte Alguma Coisa”

Sinopse

As atrizes, popularizadas na TV por Malhação e Três Graças, protagonizam texto de Gustavo Pinheiro, autor de “A Lista” e “Dois de Nós”

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 6 de agosto de 2026)

Nos bastidores da novela Três Graças, exibida pela Rede Globo até maio, o ator Miguel Falabella, de 69 anos, distribuía conselhos aos colegas mais jovens enquanto esperava as gravações das próximas cenas. “Façam teatro!”, pregava ele. “É o único jeito de vocês não dependerem dos outros para trabalhar.”

Atentas ao mestre, as atrizes Daphne Bozaski, intérprete da maquiavélica Lucélia, e Gabriela Medvedovsky, a policial Juquinha, já tinham um projeto em vista desde novembro e esperavam o fim do trabalho na televisão para colocá-lo em prática. Era a comédia Pergunte Alguma Coisa, texto escrito por Gustavo Pinheiro e dirigido por Guilherme Gobbi, que estreia nesta quinta, 6, no Tucarena, em São Paulo. 

Em cena, um embate cada vez mais comum nos dias atuais, a de uma mulher assoberbada diante das infinitas tarefas com a voz de uma inteligência artificial – a I.A. – que lhe dá sugestões para administrar o dia a dia. 

Bem, mas isto não é um spoiler? As atrizes até gostariam que, durante um tempo, o espectador ficasse na dúvida de quem seriam aquelas mulheres para, com o desenrolar da peça, descobrir que uma é humana, a Tal (representada por Gabriela) e a outra é máquina, a Qual (papel de Daphne). 

A grande sacada de Gustavo Pinheiro para a dramaturgia, entretanto, virou o maior atrativo do espetáculo e fica difícil não a divulgar em uma sinopse. “A ideia seria gerar um estranhamento e, quem sabe, nem que seja por um tempo breve, as pessoas pensarem que elas poderiam ser irmãs, primas ou mãe e filha”, diz Daphne.

Talvez até possam ter mesmo algum grau de parentesco, afinal, diante da dependência das máquinas, muita gente desaprendeu a pensar por conta própria e, automatizada, corre atrás da internet para receber uma ajuda diante de qualquer embaraço da vida. “Para além de falar das relações com a tecnologia, a peça pretende mostrar esse futuro que já é presente cada vez mais maluco e sem maniqueísmos”, observa Gabriela. Daphne complementa a colega: “É uma questão complexa por que até que ponto hoje em dia a gente ainda se dá ao trabalho de pensar ou delega tudo para uma I.A. e, mais grave, o que a gente sabe, afinal?”.

Gabriela Medvedovsky e Daphne Bozaski em Pergunte Alguma Coisa. Foto Brunno Rangel

Em Pergunte Alguma Coisa, tudo isto é levado ao teatro com a habilidade para retratar o cotidiano que Pinheiro tem de sobra. O dramaturgo é responsável por peças de sucesso, como A Tropa, liderada pelo ator Otávio Augusto, A Lista, protagonizada por Lilia Cabral e Giulia Bertolli, e Dois de Nós, estrelada por Antonio Fagundes e Christiane Torloni. Suas tiradas rápidas e irônicas prometem ser o veículo certeiro para confirmar que os talentos de Daphne e Gabriela vão muito além da televisão – até porque tudo começou pelo palco.

Gabriela e Daphne têm muito em comum, além dos sobrenomes de pronúncia difícil e de terem nascido em 1992. A primeira fez 34 anos em janeiro, e a segunda entra na mesma idade no dia 14, sexta que vem. Nascidas em São Paulo, elas foram criadas e deram os primeiros passos na carreira artística no Sul do país. 

Gabriela se mudou para Porto Alegre com 2 anos, se formou como bailarina clássica aos 14 e, durante a faculdade de publicidade e propaganda, já dançando profissionalmente, entendeu que o seu barato era o teatro musical. Voltou para a capital paulista aos 23, e integrou o elenco de Godspell, O Musical, protagonizado por Leonardo Miggiorin em 2016.

Daphne foi viver em Curitiba aos 5 anos, começou a estudar teatro e dança aos 11 e, em 2011, de volta a São Paulo integrou o elenco da peça Depois Daquela Viagem, adaptada do livro de Valéria Polizzi, sobre uma jovem que aprendeu a conviver com o HIV aos 16 anos. 

Entre 2012 e 2014, fez parte do CPT (Centro de Pesquisa Teatro), coordenado por Antunes Filho (1929-2019), e participou do coro do espetáculo Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues. “Eu não tinha uma fala e foi a vez que pisei no palco mais nervosa em uma estreia”, confessa Daphne, que foi assistente de direção de Antunes no começo do processo seguinte, a peça Nossa Cidade. “Chegou uma hora em que achei que meu tempo tinha se esgotado e, quando falei para o Antunes, ele me disse ‘vá com Deus!’”  

Em 2017, as duas foram escaladas para o quinteto protagonista de Malhação – Viva a Diferença, a novela adolescente da Globo, que, escrita por Cao Hamburger, foi ambientada pela primeira vez em São Paulo. Gabriela representou Keila, que se torna mãe na adolescência, e Daphne era a tímida Benê, filha da zeladora da escola. Ali, começou a amizade, veio a mudança para o Rio de Janeiro, a convivência no mesmo flat e, dois anos depois, um novo trabalho, a série As Five, espécie de continuação da mesma trama, novamente da autoria de Hamburger. 

Desta vez, uma experiência pessoal de Daphne serviu para fortalecer a cumplicidade entre as atrizes. Pouco antes do começo das gravações, Daphne tinha dado à luz Caetano, que hoje tem 7 anos, e a amiga permaneceu sempre ao lado dos dois. “Eu acompanhei tudo de perto, os horários das mamadas, o desmamar, as viagens para o Rio sempre com o Caetano junto, foi muito intenso”, lembra Gabriela.

A vida seguiu, as duas contracenaram novamente na novela Nos Tempos do Imperador (2021) e, enfim, aparecem a Juquinha e a Lucélia de Três Graças, personagens de núcleos diferentes que acabaram tendo histórias cruzadas. “Eu sempre perguntava quando a Juquinha iria me prender”, comenta Daphne. Gabriela se aproveita do desfecho trágico da vilã, que morreu atropela, e brinca: “Eu não te prendi porque não deu tempo”.  

Como a internet é rápida, e os seguidores das duas somam mais de dois milhões, uma “fake news”, segundo elas, já andou se espalhando: a de que Daphne e Gabriela se revezariam a cada noite nos papéis de Tal e Qual na peça Pergunte Alguma Coisa. Calma é o que elas pedem. “Foi uma ideia que o Guilherme, nosso diretor, gostou muito, mas não é tão simples assim”, alerta Daphne. “Quem sabe esse, daqui um tempo, não vai ser o nosso fator surpresa”, provoca Gabriela.

Serviço

Pergunte Alguma Coisa

Tucarena. Rua Bartira, 347

Quinta a sábado, 20h. Domingo, 17h. R$ 140

Até 11 de outubro (estreia 6 de agosto)

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Ficha Técnica

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Serviço

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