O melhor do teatro está aqui

TOPO_CANALTEATROMF_DEUS_att

João Paulo Lorenzon se equilibra no cavalo de Nietzsche para falar de um mundo despedaçado

Sinopse

Ator é dirigido por Denise Stoklos e Alessandra Maestrini em solo que chega ao Sesc Ipiranga depois de estrear no Festival de Avignon

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 16 de setembro de 2026)

Quando o ator João Paulo Lorenzon, de 47 anos, levou o espetáculo Nijinsky – Minha Loucura é o Amor da Humanidade ao Festival de Avignon em 2015, Valentina, sua filha, estava lá, pouco mais que recém-nascida, com seis meses de vida. De volta à mostra francesa, realizada em julho, o artista estreou o novo trabalho, Do Cavalo Nada Sabemos, no Théâtre LaScierie, e recebeu os aplausos de 200 espectadores por noite em 11 apresentações. Entre eles estava novamente Valentina, 11 anos, que viajou a Avignon na companhia dos avós paternos, Ralph e Sandra.

Do Cavalo Nada Sabemos, dramaturgia de Lorenzon e da psicanalista Renata Zambonelli, tem direção de Denise Stoklos e Alessandra Maestrini. Depois de Avignon, o intérprete fez uma apresentação no Teatro Municipal de Uberlândia, em Minas Gerais, para 550 pessoas, e, nesta sexta, 18, estreia no intimista Auditório do Sesc Ipiranga, em São Paulo, na proposta de um diálogo olho no olho com os 50 interlocutores. A seguir, em 28 de outubro, a montagem amplia plateias em sessões no Teatro Faap.

A peça parte de um fato ocorrido em 3 de janeiro de 1889, na Piazza Carlo Alberto, em Turim, na Itália. Ao ver um cocheiro espancando o animal, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) se atirou ao pescoço do cavalo para protegê-lo e entrou em colapso mental. A dramaturgia concebida por Lorenzon e Renata se inspira nesta cena para investigar violência, culpa, desejo de reparação e a falta de perspectiva diante da crise climática – e, neste ponto, entra uma reflexão sobre Valentina e uma geração que cresce diante da desestruturação do mundo tal como ele foi até agora. 

João Paulo Lorenzon em cena do monólogo Do Cavalo Nada Sabemos. Foto Maurizio Mancioli

“Desde que Valentina nasceu, tento fazê-la preservar a doçura e a capacidade de enxergar o outro, tanto que já visitamos a Amazônia, Olinda, lugares bonitos, sobras que revelam o que é o Brasil em meio a essa ruína toda”, diz o ator. “Que cavalo é esse da peça para cada um? Pode ser qualquer coisa, inclusive este pai em meio a um mundo devastado tentando mostrar a infância como um território de liberdade e sonho.”

Por mais que Lorenzon tenha se agarrado a esta leitura tão íntima, a ideia de reconstituir o episódio relacionado a Nietzsche não veio dele. Em 2024, o ator protagonizou o solo Quase Infinito, direção de Elcio Nogueira Seixas inspirada em obras do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Uma noite, Denise Stoklos e Alessandra Maestrini apareceram no Teatro Faap para assisti-lo, aplaudiram, lhe deram um abraço e foram embora. Na semana seguinte, para a surpresa de Lorenzon, Denise foi vista novamente na plateia, desta vez na companhia da filha, Thaís, e, passados dez dias, chegou uma mensagem da atriz e diretora comentando sobre Nietzsche e o cavalo.

Lorenzon não fazia ideia desta história, mergulhou nas pesquisas e o papo com Denise se intensificou. “Você quer me dirigir?”, propôs ele ao telefone, desafiando a coragem. A artista falou que só sabe dirigir a si mesma, mas, em dupla com o olhar de Alessandra Maestrini, a encenação poderia render. Os encontros atravessaram o ano de 2025 e, já pensando em Avignon, foi criada uma montagem totalmente essencial, com poucos recursos cênicos, fáceis de transportar para qualquer lugar. 

Enquanto a cena tomava forma com Denise e Alessandra, o texto ganhava camadas com as leituras e interpretações propostas por Renata, namorada de Lorenzon. “Renata começou nos abastecendo com livros, pesquisas, observações profundas até que veio dela o ponto de virada, a questão climática, e um episódio particular ganhou proporção mundial”, reconhece o ator. “Não é mais só Nietzsche e o cavalo, é o homem mergulhado em uma violência impossível de se defender.”  

Outra cena de João Paulo Lorenzon em Do Cavalo Nada Sabemos. Foto Maurizio Mancioli

Nos ensaios com as diretoras, Lorenzon se perdeu e se achou, se desequilibrou e retomou a firmeza. Voltou no tempo para lembrar do solo Desobediência Civil, concebido com base em textos do escritor e filósofo Henry David Thoreau (1817-1862), protagonizado por Denise no Tuca em 1998. Na época, ele era estudante de direito na PUC, um jovem temeroso em se assumir artista, pegar fama de vagabundo e desapontar o pai economista e a mãe psicanalista. 

Diante de Denise no palco, o rapaz se deslumbrou e, no debate, a seguir da apresentação, ficou decidido que a lábia do advogado seria usada para outros fins que não os relacionados às causas jurídicas. “Eu me lembro até hoje das palavras dela falando que teatro era ‘ganhatempo’ e não passatempo, não era para dispersar, mas para concentrar”, conta. “Decidi o que seria melhor para mim e posso ver as coisas se despedaçando, só que acredito em uma estrutura de sustentação da arte e minha filha me ajuda muito nisto.”   

Perto das três décadas de carreira, Lorenzon começa a enxergar sintomas de uma maturidade que luta para contornar o ego e descobriu o valor das concessões para firmar uma assinatura. Nos anos de 2010, o ator se autocentrou e assumiu a direção dos próprios espetáculos, a maioria monólogos. A solidão das empreitadas é vista por Lorenzon hoje como uma necessidade de determinar marcas, impor belezas que acreditava e não abrir mão em momento algum da própria identidade em formação. 

A retomada da parceria com Elcio Nogueira Seixas em Quase Infinito – os dois já tinham trabalhado juntos em Memória do Mundo (2008) e Eu Vi o Sol Brilhar em Toda a Sua Glória (2012) – lhe fez redescobrir jogadas, que, agora, parecia pronto para aproveitá-las. “Eu posso me perder, me lançar se tenho alguém em que confio para me socorrer”, reconhece. “Hoje, sei que não preciso ter tanto controle sobre as coisas e, como gosto do corpo no limite, Denise me levou a lugares que jamais chegaria sozinho.”

Serviço

Do Cavalo Nada Sabemos

Auditório do Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822

Sexta, 21h. Sábado e domingo, 18h30. Sessão extra em 1º/10, quinta, às 21h. R$ 50

Até 11 de outubro (estreia em 18 de setembro)

[acf_release]
[acf_link_para_comprar]

Ficha Técnica

[acf_ficha_tecnica]

Serviço

[acf_servico]