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Marion Aubert vê o teatro como arte de virar a realidade ao contrário

Sinopse

Dramaturga francesa, que esteve na Flip, fala ao Canal MF sobre sua escrita mordaz e tragicômica, como se observa na peça “Homens que Caem”, lançada em livro no Brasil pela editora Cobogó

Por Ubiratan Brasil

A dramaturga francesa Marion Aubert venceu o Prêmio Novo Talento pela Societé des Auteurs et Compositeurs Dramatiques em 2013, consagração que reafirmou a importância de seu trabalho iniciado há 25 anos em uma companhia de teatro que, na maioria das vezes, trabalha sob encomenda, a pedido de outras companhias, diretores e atores e atrizes. Aí está o cerne de seu entendimento teatral: o trabalho coletivo.

“Gosto quando sou convidada a escrever porque permite me deslocar, sair da minha realidade. É uma forma de descobrir novos territórios e as fontes de inspiração são extremamente diversificadas”, disse ela durante a Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, ocorrida no final de novembro.

Ela é autora da peça Homens que Caem, lançada em livro no Brasil pela editora Cobogó e na qual entrelaça o romance Nossa Senhora das Flores, obra-prima de 1943 do escritor maldito Jean Genet, com integrantes de uma companhia de teatro contemporâneo que vivem na carne as angústias, os desejos e a marginalização de uma sexualidade que Genet soube explorar.

A francesa Marion Aubert durante a Flip, em Paraty. Foto Ubiratan Brasil

“A escrita de Genet é eminentemente subversiva. Os corpos negros e ciganos são excessivamente erotizados. Além disso, questionar esses personagens, essas relações, permitiu-me questionar o nosso tempo, dialogar com os impensados ​​do tempo de Genet, como, espero, outros, daqui a cinquenta anos, dialogarão com os impensados ​​do nosso”, diz ela na seguinte entrevista ao Canal MF.

O texto se constrói em diálogo com a obra de Genet. O que a homossexualidade representa hoje?

Escrevi a peça em 2016, logo após os ataques terroristas na França. Em 2015, imagens do ISIS (Estado Islâmico) atirando em gays dos telhados circularam online. Essas imagens persistentes deram título ao texto. Eu estava escrevendo quando o tiroteio em Orlando deixou 45 mortos na Flórida, nos Estados Unidos. Recentemente fui ao show de um amigo. Ele atuava com o braço engessado – acabara de sofrer um ataque homofóbico nas ruas de Paris. Não sei se é isso que a homossexualidade representa hoje. Mas é com isso que muitos homossexuais convivem. A consciência de poder ser atacado. É uma consciência compartilhada com as mulheres. Sabemos, intimamente, em nossos corpos, que possivelmente somos uma presa. No entanto, a paisagem não é a mesma da época em que Genet escreveu o romance, ou mesmo da minha infância. A homossexualidade foi considerada uma doença psiquiátrica até 1992 na França! Em 2013, a França tornou-se o 14º país do mundo a permitir o casamento gay. As manifestações da homossexualidade, se ainda suscitam, em certos lugares, em certos momentos, ódio e tensões, tornaram-se possíveis (na França, em certos lugares, em certos momentos). Na peça – e no romance de Genet, a homossexualidade não é de forma alguma vivenciada como uma maldição. Pelo contrário, é vivida como uma libertação, uma forma de sermos plenamente nós mesmos e de nos descobrirmos maiores, maiores do que a sociedade parece ter nos tornado.

Como foi questionar os personagens do romance com um novo texto para decifrar a homossexualidade?

A escrita de Genet é eminentemente subversiva. O romance original, Nossa Senhora das Flores, é uma longa masturbação de um homem em sua cela. Pela força do impulso sexual, ele revive quando era criança, revive a vida aos trinta anos, e traz de volta, em sua cela, a presença de suas amantes. Esses amores nunca são adequados: Nossa Senhora das Flores é uma jovem assassina, matou um velho. O primeiro amor de Genet, Alberto, um “cigano”, estuprou Divine quando seu nome era Lou, e ela era criança. Alberto é um covarde. Lou ama Alberto por sua covardia. A escrita de Genet, neste romance, exala, no cerne do (sublime) poema, o colonialismo. Os corpos negros e ciganos são excessivamente erotizados. Além disso, questionar esses personagens, essas relações, permitiu-me questionar o nosso tempo, dialogar com os impensados ​​do tempo de Genet, como, espero, outros, daqui a cinquenta anos, dialogarão com os impensados ​​do nosso.

Qual é a sensação de usar palavras para falar de universalidade, para alertar contra as loucuras dos homens, para despertar a consciência das mulheres?

Não sei se estou usando palavras para falar de universalidade. Escrevo de um lugar único. Desde o romance de Genet, desde uma época, um contexto, o meu, com os seus limites, as suas antolhos. Na peça, um dos personagens questiona o efeito político do espetáculo. Seu camarada responde que nunca podemos prever o uso que as pessoas farão das obras. Minhas peças não são instruções de uso, nem manuais de boa conduta, nem guias de desenvolvimento pessoal. Dito isto, fico feliz quando eles conseguem lançar luz, modificar o nosso comportamento, levar-nos a pensar, a trabalhar, perturbar os nossos modos de ser e as nossas práticas e, ao fazê-lo, colocar-nos em movimento.

Como você transforma sua escrita colorida e profundamente contemporânea em algo que abre caminhos para pensamentos perturbadores e desestabilizadores?

Escrever é uma ferramenta. Muitas vezes tenho a sensação de trabalhar como uma cirurgiã – com bisturi – ou um lenhador – com machado. Daí, sem dúvida, a sensação de cor e material. Fatia, corta, pica, esguincha, perturba. A ferramenta colide com a realidade, reconsidera-a, dá-lhe uma nova forma – qualquer alteração feita a uma forma existente é desestabilizadora, este mesmo gesto de vir procurar, virar a realidade ao contrário, ará-la, não é um gesto neutro. Permite, no melhor dos casos, abrir novos caminhos; se não abri-los, vislumbrá-los – de repente, começamos a pensar como nunca pensávamos antes, a vislumbrar o que não conseguíamos ver, a sentir tonturas. E, às vezes, também, desconforto.

Você acredita que os escritores têm uma obrigação moral para com seus personagens e leitores?

Sim. Não. Sim. Claro. Obviamente. Estou muito envergonhada com esta pergunta. Sim, sem que isso retire a complexidade, sem que nos impeça de olhar os seres, as relações entre os seres nos seus aspectos obscuros e ambivalentes, sem retirar dos personagens a sua quota de negatividade. Tenho uma obrigação moral muito relativa (e questionável) para com meus personagens. Posso matá-los, intimidá-los, fazê-los desaparecer. Eu cortei seus membros. São personagens fictícios. Eles não são pessoas reais. Eles próprios não são totalmente estáveis. Às vezes são perigosos, bêbados, inconsistente. Eles se voltam contra mim. Meus personagens não são exemplos a seguir. Isto não significa que eu não seja afetada por uma obrigação moral para com leitores e espectadores (e para comigo mesmo). Parece-me muito importante apostar na nossa inteligência. Importante representar a nossa parte de monstruosidade, ou idiotice, para dissecá-la, apreendê-la. Negar o lugar do mal, da estupidez, do obscuro, do informe em nossas vidas, nos tempos, não me parece eficaz. Ao mesmo tempo, há certamente representações das quais estamos exaustos, esgotados coletivamente, e quando trabalho questões de violência, de dominação, reflito, tanto quanto possível, sobre o que (re)produzo.

Capa do livro Homens que Caem, de Marion Aubert. Foto Editora Cobogó

Você se considera uma escritora política ou acredita que autores são inevitavelmente criaturas políticas?

Sim. Não. Sem chance. Somos todos criaturas políticas. Escritor ou não. Estamos presos em um campo de forças contraditórias, ninguém escapa dele. Parte do meu trabalho (como o de tantos dos meus colegas) é obviamente influenciada por questões políticas (feministas, pós-coloniais) ou difusas (a questão ecológica). É fácil identificar determinadas posições. Contudo, as minhas peças nunca são teses, não dito formas de ser ou de agir. Eles trabalham com minhas próprias questões de cidadã, que não param de se mover, tornando-se mais claras, ao longo do tempo, através de encontros, experiências, acontecimentos.

Poderia o mal ser um aliado da escrita ficcional?

Sim. Não. Talvez. Eu acredito. Um pesquisador afirmou que eu estava trabalhando com o diabo ao meu lado. Ou seja, procuro não descuidar de nada, nem do diabo, nem dos santos. O diabo muitas vezes se convida para entrar em nossas vidas, em nossas ações, em nossos pensamentos. Além disso, para lutar contra o mal (dentro de si, fora de si), é preciso reconhecê-lo. Não sei se é um aliado, muitas vezes é um adversário, ou é um aliado no sentido de que serve de ponto de apoio, permite-nos pensar, é em todo o caso um parceiro (pode ser).

Não te parece impressionante o poder que a ficção tem de interferir na realidade e até criar novas realidades?

Sim. É bastante vertiginoso. O poder de uma história atua diretamente no nosso sistema nervoso. As histórias impactam nossas vidas, nosso modo de ser e de agir. Até as histórias nauseantes podem provocar impactos nauseantes. É por isso que todos somos responsáveis ​​pelas ficções que criamos, pelas histórias que transmitimos. E sem dúvida cabe particularmente ao escritor tentar não se deixar enganar pelas representações que transmite.

A amargura e o tédio são os grandes males contemporâneos? Por que estamos vivendo em tempos tão dolorosos?

O que torna a nossa era tão dolorosa (mesmo que nenhuma época tenha sido poupada pelo desastre) é, talvez, a consciência aguda das emergências (climáticas, humanitárias) em que nos encontramos, e o peso do nosso desamparo, a força da inércia de autoridades públicas, e da espécie humana para inverter a maré. Consciência do desastre em curso e nosso espanto. O que torna isto ainda mais surpreendente (especialmente nas nossas sociedades e em certas classes – embora por vezes a necessidade de sobrevivência não deixe espaço para o tédio) é que este espanto está associado a este sentimento de fadiga, de vaidade e de tédio. Como se estivéssemos muito cansados ​​de nós mesmos, da nossa espécie. Como se esse fim, possível, por vir, fosse afinal desejável, necessário. Algo tem que acabar, e talvez sejamos nós. Como se nunca tivéssemos considerado isso tão claramente. Isto é, vemos o fim (e as perspectivas são verdadeiramente angustiantes), embora há muito nos percebamos como imortais. Acredito que é esta paisagem, mais ou menos nítida, de fundo, que vem minar o nosso tempo, a nossa vida (ocidental?). Dito isto, a literatura (mas não só, as lutas, os encontros, as festas, as amizades… há mil maneiras de contrariar a época) pode vir a romper este cenário, abrir perspectivas de lacunas, deixar espaço para desabafos, esperanças, novas forças – nesta crise, algo contra todas as probabilidades, alegremente, tragicamente, pode nos devolver a força, e a fé, e o desejo, louco, aberrante, de persistir novamente, de pensar que nada, absolutamente nada está arruinado.

Você acredita que a literatura se adapta à realidade atual, tão complexa e tão rápida?

Não sei se a vocação da literatura é adaptar-se à realidade. É claro que a literatura está ancorada em uma época, em um contexto. Meus alunos escrevem textos que eu nunca poderia ter escrito. A literatura se renova constantemente, utilizando novas ferramentas e modificando formas. Mas me parece que a literatura também pode resistir aos tempos, contradizer a “realidade”, distorcê-la, distanciá-la. Hoje, criar o tempo, trabalhar com o silêncio, com a desaceleração, com o vazio, pode ser bastante subversivo. Sem necessariamente assumir a visão oposta da época, podemos também enganá-la, propor, aparentemente do nada, o nosso próprio caminho, o nosso próprio ritmo. E sem dúvida é muito difícil dar conta da complexidade do mundo. Impossível (ilusório) abraçar o mundo inteiro! É como olhar de frente para a Medusa… você corre o risco de ficar petrificado (e daí?!!). Gosto de imaginar escritores de todo o mundo, empenhados na sua tarefa, à sua maneira, tentando refletir uma parte do mundo, a sua visão. E a literatura como uma imensa colcha de retalhos, tecida a partir de todos esses pontos de vista. Assim, juntos, talvez possamos tentar apreender algo dos mundos.

Como, observando o passado, podemos compreender o presente? O teatro pode nos ajudar a entender?

Em muitos dos meus artigos, baseei-me no passado – escrevi sobre a indústria têxtil nos Vosgos (cadeia de montanhas )no século XIX, sobre a Frente Popular dos anos 302, o desastre de 1940, os anos pós-68 em França. Hoje estou imersa entre os anos 500 a.C e 50 d.C., entre os gauleses, e os menires (que datam de 3000 a.C.). Em Os Homens que Caem, trabalhei com a época de Genet, a França da sua infância, o momento em que, na prisão, escreveu o seu primeiro romance, as ideias que impregnaram a época sem que Genet ainda percebesse. Trabalhar com o passado (que é sempre um passado reconstruído, fragmentado, muitas vezes só temos restos, vestígios, pistas) permite-nos criar precisamente esta famosa distância que procuro com o presente. Medimos, de forma muito palpável, o que mudou, o que não dá mais para pensar. O passado serve-nos assim de ponto de referência, de fulcro, de trampolim. Isso nos permite criar brincadeiras com o presente. É neste jogo que o teatro opera. Graças ao jogo, à relação, à relação entre passado e presente, temos espaço, se não para compreender, pelo menos para tentar pensar, para refletir. Também passei a trabalhar com o futuro (a ideia de futuro), a projeção, a fantasia permitindo, também, abrir espaços, criar bolsões para brincar e, ao fazê-lo, pensar.

Por que seus textos sempre foram povoados mais por anti-heróis do que por heróis?

Talvez porque me emocionem mais? Porque eles falam comigo sobre nós? Porque eles me fazem rir? Talvez porque me pareçam menos fixos, menos monolíticos? Talvez seja porque gosto de trabalhar com as falhas, as fissuras, as coisas que oscilam. Talvez porque os heróis tenham sido muitas vezes prerrogativa dos homens. Talvez porque achei as figuras dos heróis muito esmagadoras. Talvez porque (ainda) não seja uma heroína. Para não nos desanimar muito de sermos quem somos. Sem nos deixar levar.

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