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Marco França vive um coveiro para revelar a injustiça do mundo

Sinopse

Com elaborado texto de Newton Moreno, o monólogo “A Última Cova”, em cartaz no Sesc Pompeia, traz um delicado trabalho de atuação, fruto de um antigo desejo do ator e diretor

Por Ubiratan Brasil (publicada em 2 de julho de 2026)

Presente em diversas manifestações culturais (cinema, televisão, streaming, mas notadamente no teatro), o ator e diretor Marco França buscava, porém, realizar um projeto pessoal, em que participasse de todas as etapas. Foi quando, em 2024, durante um festival de teatro no Chile, uma peça da programação off despertou sua atenção. Apesar de falado em catalão, o que dificultou o entendimento do texto, o trabalho trazia um personagem que fascinou França.

“Foi de maneira distraída, mas com o radar sempre atento às poesias do mundo que, ao assistir um espetáculo que contava a vida de Leoncio Badía Navarro, um coveiro que viveu a ditadura franquista em Paterna (Espanha), me transportei aos canteiros de minha terra, pensando quantas histórias incríveis um cemitério coleciona: lugar de memórias. Ali eu soube por onde começar”, disse ele que, imediatamente, pensou em convidar o dramaturgo Newton Moreno, cujo pleno domínio da prosódia nordestina, é autor de peças inesquecíveis como As Centenárias, Agreste e Maria do Caritó, entre outras.

Marco França em cena de A Última Cova. Foto Caio Oviedo

Foram dois anos de trabalho que resultaram no monólogo A Última Cova, em cartaz no Espaço Cênico do Sesc Pompeia. Com direção de Ana Rosa Genari Tezza e produção da Morente e Forte, o espetáculo é uma pequena joia cujo valor está principalmente nos detalhes da elaborada atuação de França, que se aproveita da riqueza do texto para apresentar uma encenação marcante.

Ao lado dos músicos Bruno Menegatti e Juliano Veríssimo, responsáveis pela trilha sonora ao vivo, França vive Djalma, um coveiro nordestino que veio à capital paulistana à procura da mãe – na bagagem, apenas sua pá. Com alma no nome, ele se revela um profissional acima da média, sensível ao sentimento das pessoas que perdem um ente querido – e também preocupado com os que vão morar abaixo da terra. Por isso, trabalha atento às ‘injustezas’ que sofrem muitos de seus clientes e parentes deles, como se sua pá pudesse consertar um pouquinho das mazelas do mundo.

O espetáculo se constrói com a reunião de histórias acumuladas por Djalma que, tão atento como os coveiros de Hamlet, de Shakespeare, molda a própria alma a partir da fragilidade alheia. E a narração dessas histórias possibilita a França apresentar uma interpretação marcada por um vasto repertório de nuances, sempre conduzido pelo hipnótico texto de Moreno.

“Esse cabra tinhoso retrata a resiliência e inconformidade do homem nordestino. Talvez não exista prova maior de resistência que não morrer; nisso o povo nordestino é mestre. Djalma está aí para provar. Mas nosso Djalma quer justiça e os que lutam por ela sempre são os primeiros alvos da ganância do mundo. Ele é um dos tantos que se faz a pergunta: ‘Justiça é mesmo coisa desse mundo?’”, observa Moreno.

A parceria entre ator e dramaturgo, cuja costura certeira veio com a direção de Ana Rosa (“Eu pedia a Marco para se soltar, trazer à cena o que seu sentimento mandava para então descobrirmos o melhor caminho”), resultou no interesse pelo invisível e os invisibilizados nessa história. “É na figura do coveiro Djalma que dou voz aos que lutam diariamente contra o dragão da mentira, contra as ‘injustezas’ do mundo. ‘Porque a coisa mais perigosa pra esse mundo enganoso e feio é um cabra que restou no silêncio!’”, conta França.

Marco França em outra cena do monólogo A Última Cova. Foto Caio Oviedo

Ana Rosa conta ainda ter escolhido uma linguagem necessariamente popular para compor rico gestual do ator. “Uma linguagem que bebe da palhaçaria, da clássica oralidade dos repentes e da infinita capacidade comunicativa da canção brasileira. Neste trabalho, a busca constante foi explicitar o jogo teatral para a audiência, ao mesmo tempo em que lhes oferecemos uma viagem para dentro deste país que tinge, borda e tece, em sua fábula, as raízes de um Brasil ao mesmo tempo vivido e sonhado”, explica.

Já o cenógrafo e figurinista Kleber Montanheiro diz que fugiu do realismo para criar esses elementos já que a peça trata da lembrança. “A partir das ideias trazidas por Marco França, fui somando camadas, imagens e materialidades até chegarmos a uma forma que não ilustra as histórias, mas as faz emergir como memória viva. Não lidamos apenas com personagens – lidamos com vestígios, com ecos de vidas que já passaram, mas que insistem em permanecer”, afirma.

E o desenho de luz de Gabriele Souza “embaralha os limites entre palco e plateia, aproximando corpos, covas, sombras, presenças e ausências”, antecipa. “Confundir os tempos, os humores e as nuances desse território tão concreto, frio – mas que também guarda suas cores, temperaturas e encantamentos, de histórias que foram e seguem sendo. Sempre serão”, acrescenta.

Serviço

A Última Cova

Sesc Pompeia – Espaço Cênico. Rua Clélia, 93

Quarta, quinta e sexta-feira, 19h30. A sessão do dia 9/7 (feriado estadual) acontece às 18h30. Sessão extra dia 30/7, 15h30, R$ 50

Até 31 de julho (estreou em 1º de julho)

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Ficha Técnica

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Serviço

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