Em monólogo que estreou em 2009, atriz vive a autora (e quatro de seus personagens) que ensinou o leitor a olhar para dentro e a sentir a intensidade da existência
Por Ubiratan Brasil (publicada em 9 de junho de 2026)
A atriz Beth Goulart foi uma adolescente que ficava presa no quarto escrevendo e lendo. As descobertas literárias aconteciam, mas uma das mais marcantes aconteceu quando leu Perto do Coração Selvagem, o primeiro livro de Clarice Lispector a lhe cair nas mãos. Foi uma identificação imediata com a personagem Joana adolescente, cuja ebulição de quem olha o mundo tenta descobrir sua identidade.
E Joana tem especial destaque em Simplesmente eu, Clarice Lispector, espetáculo que estreou em 2009 e que ganha nova temporada no Teatro Moise Safra, em São Paulo. O texto traz à cena a escritora, falando sobre si própria e sua obra, e mais quatro personagens, todas saídas das páginas escritas por Clarice. Foram dois anos de pesquisa e seis meses de preparação, quando Beth Goulart mergulhou profundamente na obra da escritora para criar o espetáculo que explora temas como amor, vida, morte, criação, Deus, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, entrega, inspiração, aceitação e entendimento.
Desde sua estreia, há 17 anos, a peça foi assistida por mais de 1,3 milhão de pessoas em 298 cidades do país. Em 2025, em diversas temporadas no Rio de Janeiro e apresentações pelo Brasil, foram mais de 100 apresentações, com mais de 55.490 espectadores, dos quais 22.196 jovens.

“Retornar com Simplesmente eu, Clarice Lispector é chegar com a obra da autora para novas pessoas e alimentar sua literatura com os jovens, que já estão encantados com sua escrita”, afirma a atriz, que elaborou a dramaturgia a partir de depoimentos, entrevistas e correspondências de Clarice, assim como fragmentos de suas obras mais emblemáticas, como Perto do Coração Selvagem, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, e os contos Amor e Perdoando Deus.
Como Clarice, ela mantém o tom realista, mas a linguagem muda quando assume a ficção. O expressionismo é utilizado ao viver a mulher (do conto Perdoando Deus) que caminha pelas ruas de Copacabana e interpreta Lóri (de Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres) com um tango. Já a personagem Ana, do conto Amor, representa a fase da autora dedicada ao marido e aos filhos enquanto uma personagem sem nome do conto Perdoando Deus é apresentada com ironia, inteligência e humor.

Em cena, Beth lembra muito Clarice Lispector ao valorizar as maçãs do rosto saltadas, olhos puxados. Só não buscou a semelhança absoluta, porque dificultaria a passagem para as personagens. Nascida em Tchechelnik, Ucrânia, em 1920, Clarice chegou ao Brasil com apenas dois anos, acompanhada dos pais e duas irmãs, fugindo da guerra civil que assolava seu país.
Sua trajetória artística notabilizou-se pelo modo anticonvencional de organizar uma narrativa, valendo-se de uma escrita intimista, em que “as personagens não são seres excepcionais, antes são pessoas comuns, vivendo em um mundo, por assim dizer, mágico; mas de uma magia diferente, clariciana, feita de enigmas e perplexidades – uma magia nascida da exacerbação da palavra”, no entender do poeta Ferreira Gullar. Morreu no Rio, em 1977.
Serviço
Simplesmente eu, Clarice Lispector
Teatro Moise Safra. Rua Prof. Walter Lerner, 315 (antiga Rua Inhaúma)
Sexta, 20h. Sábado e domingo, 19h. R$ 120
Até 28 de junho (reestreou em 8 de maio)
