Texto escrito por Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche traça com habilidade a trajetória da artista e a influência amazônica
Por Ubiratan Brasil (publicada em 18 de junho de 2026)
Ao completar 50 anos de carreira em 2025, a cantora Fafá de Belém sentia falta de um evento comemorativo. Uma biografia há muito escrita continua na gaveta e um documentário sobre sua trajetória ainda depende de financiamento para finalização. Quando a data parecia que ia passar em branco, o produtor Jô Santana cumpriu a promessa feita há dois anos e estreou Fafá de Belém, o Musical, agora em cartaz no Teatro Claro-SP, depois de uma temporada no Rio de Janeiro.
“Eu já nem estava mais esperançosa”, disse a artista, encantada com a versão criada por Eduardo Rieche e Gustavo Gasparani, que também dirige o espetáculo. “Como dirigi um show em que Fafá canta sucessos de novela, passei dois anos em contato com ela, o que me trouxe farto material para escrever o musical”, conta Gasparani, que faz do espetáculo também uma homenagem à cultura nortista, em especial do Pará. Com isso, evita, com habilidade, o tradicional esquema de musicais biográficos, que seguem a linha cronológica.

A trama começa com a rodagem de um documentário sobre a cantora no momento atual, papel de Lucinha Lins, que defende com delicadeza. Enquanto seu passado é recuperado, o público acompanha a origem da menina nascida em Belém (vivida por Laura Saab, neta da homenageada, e raro talento a ser observado) e também o estrondoso sucesso quando, aos 18 anos, chegou ao Rio de Janeiro (momento interpretado por Helga Nemetik, um vulcão em cena, com voz poderosa e atuação hipnotizante).
Nesses três planos temporais, o público conhece uma Belém lírica da metade do século passado, marcada por mitos e lendas amazônicas. Também testemunha o processo de construção da carreira de Fafá até se tornar a artista reconhecida também fora do Brasil – um segmento mostra a paixão dos portugueses depois que a cantora gravou um disco de fados.

O musical mostra as várias facetas de Fafá que, apesar de intérprete de compositores renomados como Chico Buarque e Caetano Veloso, não deixou para trás a música considerada brega nem sua profunda admiração pelas artistas LGBTQIAPN+, que a apoiaram em um momento delicado – depois de se engajar politicamente no movimento das Diretas Já, nos anos 1980, Fafá sofreu pesadas críticas e perdeu contratos de shows, quase caindo no ostracismo.
O espetáculo mostra ainda como Maria de Fátima Palha de Figueiredo, apelidada de Fafá, acostumou-se a quebrar parâmetros desde cedo. Quando chegou ao Rio, inicialmente não foi bem aceita por motivos inofensivos: o peso um pouco acima do normal, seios fartos que não escondia e uma sonora gargalhada que se tornou uma marca pessoal. A voz sensual, no entanto, gravou músicas que se tornaram hits como Filho da Bahia, que fez parte da trilha sonora da primeira versão da novela Gabriela, da Globo.
Também canções com viés feminista, como Bilhete, Sob medida e Que me venha esse homem, e, em um repertório mais popular, Abandonada e Nuvem de lágrimas. Na fase mais política, gravou a canção Menestrel das Alagoas em homenagem ao senador Teotônio Vilela e que virou o hino do movimento das diretas.
A cultura paraense é lembrada também pelos os mambos, cúmbias, calipsos e carimbós que moldaram a identidade musical da região, além do Círio de Nazaré, o maior evento religioso do mundo, que une fé católica e fé cabocla, religiosidade e raízes indígenas.
Serviço
Fafá de Belém, o Musical
Teatro Claro-SP. Shopping Vila Olímpia. Rua das Olimpíadas, 360, 5º piso
Quinta e sexta, 20h. Sábado e domingo, 16h e 20h. R$ 25 / R$ 175
Até 12 de julho (estreou em 12 de junho)
