Com Juliana Linhares e Laila Garin, espetáculo retrata com graça a força das tradições, da oralidade e da ancestralidade nordestina, temperadas pela música de Chico César
Por Ubiratan Brasil (publicada em 19 de maio de 2026)
A matéria de uma revista sobre mulheres que viviam mais de 100 anos chamou atenção do dramaturgo Newton Moreno que tirou dali a ideia da peça pedida pelas atrizes Andréa Beltrão e Marieta Severo. Era 2009 e logo elas estrearam As Centenárias, comédia dirigida por Aderbal Freire-Filho e inspirada na tradição e na oralidade nordestinas e que alcançou grande sucesso.
Ambientado no sertão, o texto ágil e divertido acompanha as carpideiras (mulheres contratadas para chorar em velórios) Zaninha e Socorro que passam a vida chorando pelos mortos, ouvindo e contando histórias. E também fugindo da morte, que quer levar a filha de Zaninha.
Passados alguns anos, a atriz e cantora Juliana Linhares, ao pensar em uma nova montagem do texto, se perguntou: “E se choro virasse canto?” A questão animou a produtora Andréa Alves, da Sarau – Cultura Brasileira, que não só conseguiu a aprovação de Moreno como o incentivou a criar as letras, que foram musicadas por Chico César.

O resultado estreou no Rio de Janeiro e agora chegou a São Paulo, no palco do Sesc Bom Retiro. A história continua a mesma, mas ganhou 17 canções. Em cena, Juliana assumiu o papel de Zaninha enquanto Socorro é vivida por Laila Garin – Leandro Castilho interpreta mais de seis personagens na montagem, incluindo a Morte.
“A peça alimenta-se dessa geografia emocional-imagética nordestina”, comenta Newton Moreno. “O carpir se impõe como território do feminino, maternal, um acarinhar e cuidar da morte de cada defunto como um filho, encomendar à beira do berço como alguém que vela o sono, ajudar a fazer a passagem, limpar a estrada que organiza o movimento da volta.”
“Enquanto as mulheres cantarem a morte, morte mesmo não há”, complementa Chico César, que respeitou os momentos da peça determinados por Moreno onde entrariam as canções. “O texto é muito bonito, muito forte. Acho que trazer essa voz da mulher brasileira com essência nordestina é uma alegria para mim.”
Para retratar a força das tradições, da oralidade e da ancestralidade nordestina, o diretor Luiz Carlos Vasconcelos se inspirou no quadrado de Sator no romance Avalovara, de Osman Lins, para a criação do cenário. “Mais uma vez utilizo o quadrado mágico 5×5, com seus trajetos cheios de simetria e mistérios para construir toda a movimentação dos atores sobre o palco”, explica.

Juliana Linhares conta que a nova leitura do texto nasce do encontro entre teatro, música e identidade regional. “Eu já tinha vontade de fazer algum projeto com a Laila há muito tempo, e um dia surgiu a ideia: e se a gente fizesse As Centenárias? Com duas atrizes nordestinas e cantando. Como o carpir está ligado ao canto, pensei que as canções poderiam surgir desse choro. A música para mim é um motor dessa montagem”, comenta, que é norte-riograndense.
Com as canções, ela pretende ampliar o Nordeste na voz dessas mulheres encantadas, que resistem e se cuidam enquanto atravessam o tempo. “Zaninha e Socorro são uma espécie de João Grilo e Chicó”, comenta a baiana Laila Garin. “Os arquétipos estão ali, todas as camadas de uma ação, todos os estados d’alma, todas as fases da vida, a saga do herói, a velha sábia, a família castradora, o enfrentamento do gigante, a esperança, a desistência, a fome, a rebeldia, o batismo do cavaleiro, a iniciação, o teatro popular do Nordeste e a tragédia grega.”
Para Elísio Freitas, responsável pela direção musical, criar a trilha sonora foi um processo especial. “Diferentes manifestações da música nordestina foram utilizadas como base criativa, conectando a narrativa à uma tradição popular carregada de simbolismo”, afirma.
Leandro Castilho interpreta vários personagens, o que traz dificuldades distintas. “É sempre um desafio porque cada peça tem uma linguagem diferente. A transição entre eles é uma coisa que não dá nem para pensar muito. Nesse espetáculo, estou no processo de desenhar cada personagem, porque trabalho muito a partir do corpo, que sugere uma voz, um trejeito, e assim vou criando esse desenho desse personagem, esse contorno. Mas agora, estou no momento de dar uma suavizada nesses contornos todos, trazer um pouco mais para mim”, afirma.
Transformar um texto em prosa em um musical, especialmente no caso de As Centenárias, foi algo natural, segundo Moreno. “As carpideiras realizam uma base relevante de seu trabalho por meio de cantos, rezas, ladainhas. Há uma demanda musical muito forte na orquestração do luto.” A encenação conta ainda com quatro instrumentistas que se apresentam ao vivo.
Serviço
As Centenárias
Sesc Bom Retiro. Alameda Nothmann, 185
Quinta a sábado, 20h. Domingos, 18h. Não haverá espetáculo nesse horário nos dias dias 23 e 24/5 e 13/6. Sessões extras dias 5, 12 e 13 de junho, 15h. R$ 60
Até dia 14 de junho (estreou 14 de maio)
