Com direção de Denise Stoklos e Alessandra Maestrini, “Nietzsche – Do Cavalo Nada Sabemos” será apresentado no espaço off do festival francês e parte de um fato real envolvendo o filósofo alemão para refletir a destruição, a culpa e o desejo de reparação
Por Ubiratan Brasil (publicada em 30 de junho de 2026)
A palavra escrita sempre motivou a criatividade do ator João Paulo Lorenzon. A literatura serviu, em diversas ocasiões, como apoio para chegar em outras áreas. Foi assim, por exemplo, com Jorge Luis Borges (Memória do Mundo, de 2008), Jean Genet (O Funâmbulo, de 2009) e com os versos de Sándor Márai (De Verdade, de 2010). Por Eu vi o Sol Brilhar em Toda a Sua Glória (2012), no qual revisitou Borges, foi indicado como melhor ator no Prêmio Shell.
No sábado, dia 27 de junho, ele embarcou para a França para um dos grandes desafios de sua carreira: na programação off do Festival de Avignon, tradicionalmente realizado no sul do país, Lorenzon vai se tornar o primeiro brasileiro a assinar dois espetáculos apresentados na mostra, que são o solo Nietzsche – Do Cavalo Nada Sabemos, escrito em parceria com a psicanalista Renata Zambonelli, e Nunca se tem tanta força como quando não se tem força nenhuma, texto de sua autoria inspirado em Sarah Kane e interpretado por Julia Setubal.
Avignon recebe o brasileiro pela segunda vez pois, há dez anos, Lorenzon recebeu críticas positivas pelo solo Nijinsky- Minha Loucura é o amor da humanidade. Agora, retorna com espetáculos de grande apelo artístico.
Nietzsche – Do Cavalo Nada Sabemos parte de um fato verídico ocorrido com o filósofo e filólogo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), que evidenciou seu colapso mental.

Em 1889, em Turim, na Itália, ao ver um cocheiro espancando brutalmente um cavalo exausto, o filósofo correu para proteger o animal, abraçou seu pescoço, chorou copiosamente e desmaiou. Esse episódio marcou o fim definitivo de sua sanidade.
É o ponto de partida para Lorenzon refletir, no texto, sobre as estruturas da violência, da destruição, da culpa e do desejo de reparação. E a participação de Renata Zambonelli foi fundamental para que a cena ganhasse uma dimensão universal e contemporânea ao expandir a narrativa para além da biografia filosófica, transformando o colapso de Nietzsche em uma discussão sobre o Antropoceno – a era em que o impacto humano ameaça a habitabilidade do planeta.
“Nós transpomos essa cena para o presente para falar da travessia do niilismo. Hoje, muitos jovens sofrem de uma ‘ansiedade climática’, uma completa impotência diante da extinção que se anuncia”, explica Renata.
Para a dramaturga, a cena do cavalo é o estopim para debater a “melancolia pelo nosso equívoco fundamental”: a separação entre natureza e cultura. “A ideia é que a peça ofereça uma saída, permitindo que o homem saia da culpa neurótica e da posição de dominador para, finalmente, enxergar o ‘outro’ e se ver misturado a tudo o que existe”, completa.
O texto ganhou ainda a colaboração da atriz e encenadora Denise Stoklos, que mapeou as diversas faces da opressão ao fazer com que grupos historicamente oprimidos – mulheres, indígenas e negros – pudessem estar representados pelo cavalo. Lorenzon levou a metáfora a operar de forma ainda mais aberta, permitindo ao espectador deslocamentos infinitos.

“Eu retirei essas palavras que fechavam o sentido porque quero que a pessoa imagine o cavalo que ela quiser”, revela. “O texto da Denise é uma base poderosa que aponta para todas as feridas da dominação. Ao torná-lo mais abstrato em cena, permito que o espectador projete ali o seu próprio dilema – seja ele o racismo, uma relação abusiva ou a destruição ambiental. Queremos que cada um encontre sua própria emoção.”
A direção da peça é dividida entre Stoklos e Alessandra Maestrini, resultando em um trabalho que ele define como um tributo à mestra. “É uma homenagem ao trabalho corpóreo da Denise. O tempo inteiro meu corpo estava dialogando com tudo o que eu vi e lembrava do corpo dela. A direção dela foi a presença energética e enérgica, a minha possibilidade de honrar esse corpo vivo em cena”, conta João Paulo.
Sobre a parceria com Maestrini, o ator destaca a sensibilidade emocional: “Ela trouxe as cores das emoções, os tons dos sons da palavra e as cores das emoções possíveis dentro das minhas limitações. Foi um encontro muito forte.”
O espetáculo fará 11 apresentações no Théâtre LaScierie, em Avignon, entre os dias 4 a 25 de julho. A estreia em São Paulo deverá acontecer em setembro.
