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Fabi Bang, Ícaro Silva e André Torquato protagonizam versão imersiva do musical “Cabaret”

Sinopse

Com direção de Kleber Montanheiro, espetáculo espalha mesinhas no espaço do 033 Rooftop para tratar de temas que continuam atuais como pessoas pessoas sensíveis e incompreendidas, e a ameaça à liberdade individual

Por Ubiratan Brasil

O público descobre a atmosfera logo ao sair do elevador. “Quando as pessoas chegarem, serão recebidas por artistas que vão ambientá-las em um cabaré em Berlim, com cenas que vão se misturando até o começo do show”, revela Kleber Montanheiro, diretor de Cabaret, musical que estreia no dia 8 de março, no 033 Rooftop, no complexo JK Iguatemi.

Trata-se da terceira montagem profissional no Brasil do espetáculo que estreou na Broadway em 1966 e, desde então, vem ganhando sucessivas remontagens e releituras. Cabaret é mais conhecido pela versão cinematográfica de 1972, que garantiu o Oscar de atriz para Liza Minnelli e de direção, para Bob Fosse.
A trama acompanha a vida noturna no KitKat Club, um cabaré falido de Berlim que assiste ao terrível surgimento do nazismo na Alemanha, então República de Weimar, no começo da década de 1930. É lá que a cantora e dançarina inglesa Sally Bowles se apaixona por um jovem escritor estadunidense chamado Cliff Bradshaw.

Enquanto Sally busca uma estabilidade econômica – que pode vir por meio de um bom casamento -, Cliff sonha escrever um romance de sucesso. A história é acompanhada por um observador, Emcee, que atua como mestre de cerimônia do Kitkat ao mesmo tempo em que comenta as ações para a plateia. “É um momento em que as liberdades estão para ser tolhidas na Alemanha com a ascensão do nazismo. Assim, as ilusões não vão se realizar, principalmente dessas pessoas”, comenta Montanheiro. “E o musical continua atual, como mostram os conflitos que ainda acontecem em quase todos continentes.”

Fabi Bang como Sally Bowles no musical Cabaret. Foto Caio Gallucci

O encenador é um profundo conhecedor da obra original, que traz músicas de John Kander, letras de Fred Ebb e libreto de Joe Masteroff. O musical foi baseado na peça I Am a Camera, escrita em 1951 por John Van Druten, que por sua vez era uma adaptação do romance Goodbye to Berlin, escrito em 1939 por Christopher Isherwood. A atual versão tem a assinatura de Fernanda Maia na direção musical.

Entre as várias versões do espetáculo já existentes, Montanheiro e a produtora Marilia Toledo escolheram a de 1994, que traz algumas modificações em relação à lista das canções. Não tem, por exemplo, Maybe This Time, incluída na versão cinematográfica, o que incomodou certos fãs. “Há uma outra canção também belíssima, Don’t Go, interpretada pelo personagem Cliff e que traz a mesma mensagem”, explica Montanheiro.

Sua encenação aproveita muito bem o espaço nada tradicional do 033 Rooftop. “A ideia é transportar as pessoas para dentro do KitKat Club, onde se passa a história. Então, vamos transformar o 033 Rooftop espalhando mesinhas por todo o espaço e criaremos cenas no meio da plateia, de modo que o público faça parte da encenação e seja transportado para a virada de 1929 para 1930. Também queremos explorar essa ideia sensorial com a ajuda de efeitos de som e de luz”, comenta ele, que escalou um elenco com grandes profissionais, muitos vivendo um desafio na carreira.

André Torquato como Emcee no musical Cabaret. Foto Caio Gallucci

É o caso de Fabi Bang, que interpreta Sally Bowles. Um dos principais nomes do musical brasileiro, ela se consolidou com um tipo de papel em que se tornou imbatível. “Criei um lugar com personagens açucarados, nunca fui amarga em cena”, comenta ela, que se desconstruiu para chegar a Cabaret, papel, aliás, que ambicionava desde que era mais um nome no elenco da montagem de 2011, protagonizada por Claudia Raia – houve ainda uma versão com Beth Goulart, em 1989.

Em cena, Fabi revela aos poucos o processo de degradação de Sally, detalhe marcante em sua voz. “Ela vai do agudo inicial, quando ainda havia alguma esperança na vida daquela mulher, até o grave, já na fase derradeira, da completa desilusão”, observa Montanheiro. “É quando acontece a catarse de Sally, já no subsolo da sua decadência íntima”, completa a atriz. “É a minha contribuição para um papel que muitas já viveram. Minha esperança é que o público se sinta desconfortável diante daquele momento da Sally.”

O misterioso Emcee também é um desafio para André Torquato. Aos 30 anos, ele vive um momento especial em sua carreira, depois de ter participado do musical Tatuagem, da Cia da Revista, e principalmente da peça A Herança, na qual interpretou um personagem marcado por uma oscilação de sentimentos. Ganhou, com isso, maturidade artística.

Ícaro Martins vive Cliff Bradshaw no musical Cabaret. Foto Caio Gallucci

“Sempre me senti atraído mas também intimidado pelo papel do Emcee, nunca acreditei que poderia interpretá-lo”, conta Torquato, sondado para o papel quando ainda estava em Tatuagem, também dirigido por Montanheiro.

Um de seus receios era a pressão representada pela atuação de Joel Grey no filme de 1972, que lhe rendeu um Oscar de coadjuvante. “Percebi que precisava me livrar de seguir os mesmos passos, pois seria apenas uma imitação. Mantive apenas o papel de comentarista da história.”

Por conta disso, Torquato só se sentirá mais seguro quando estiver diante do público. “A reação das pessoas vai ditar meu comportamento, vai ter muito improviso por causa disso”, acredita ele, que já trabalha com uma rispidez na voz. “Emcee é sarcástico, agressivo, até violento em determinados momentos. No início do espetáculo, ele convida as pessoas a entrarem no cabaré e a deixarem seus problemas do lado de fora. No segundo ato, porém, a crise política e financeira já invadiu o Kitkat.

As transformações vividas pelos alemães à beira do nazismo também afetam a trajetória do escritor americano Cliff Bradshaw, que chega em Berlim em busca de inspiração para um grande romance. “Ele vem de um país que, na época, era muito racista”, observa Ícaro Silva, o primeiro ator negro a viver o papel na história do musical. “Eu o vejo como um observador da vida, mas também um homem humilde, vulnerável.”

Diante de tanta pressão externa, Cliff encontra um porto seguro em Sally, que vive na mesma pensão para onde ele vai morar. Ambos buscam uma vida mais libertária e pacífica. “Ele encontra nela a permissão para ser quem é”, diz o ator que, assim como Cliff na Alemanha nazista, hoje enfrenta o status quo ao trazer camadas de negritude ao papel.

Atitudes racistas marcam ainda a personagem Fräulein Schneider, vivida por Anna Toledo. Dona da pensão alemã onde todos se hospedam, ela vive um romance condenado com Herr Schultz (Eduardo Leão), um vendedor de frutas judeu. “Com a ascensão nazista, ela é obrigada a se decidir e prefere a sobrevivência, condenando-se à solidão”, comenta a atriz que, como os demais intérpretes de personagens alemães, falam com um certo sotaque, para diferenciá-los.

Tema de abertura do musical Cabaret

Esse foi um dos desafios na criação da versão brasileira de Cabaret. “Como a obra é muito conhecida do público, é sempre mais difícil quando a plateia escuta a versão em português cantando o original em inglês dentro da cabeça”, afirma Mariana Elisabetsky, responsável pela adaptação. “Outra particularidade é o fato de existirem na história personagens provenientes de vários países e as brincadeiras com as línguas ao longo dos diálogos, especialmente o inglês e o alemão.”

“O texto fala de pessoas de diferentes nacionalidades, etnias, cores de pele e corpos. E a escolha do elenco, através das audições e de alguns convites, passou por isso”, conta Montanheiro. “Fui brincando um pouco com um cabaré nessa época na Alemanha como uma ideia de liberdade, de construção de um movimento que se pauta pelas diferenças entre todas as pessoas. E esse pensamento permeou todo o conceito de escolha do elenco.”

“Kleber teve uma sacada muito inteligente das malas, onde cada personagem carrega o seu próprio mundo, este signo já distingue essa direção de movimento”, comenta a coreógrafa Barbara Guerra. “Coreograficamente o Kit Kat Club é mais eletrizante, respira a liberdade. Aos poucos o publico percebe que o Kit Kat Club, na verdade, é um reflexo da sociedade. Nós buscamos como linguagem evidenciar esse espelhamento, trazendo para os corpos e para as interpretações esses diferentes estados emocionais.”

E, para ampliar ainda mais essa encenação imersiva, o público poderá desfrutar de uma experiência gastronômica completa, assinada pelo Chef Mário Azevedo, do 033 Rooftop. Inspirado pelo clima de Berlim no início da década de 1930, o Chef preparou três pratos tipicamente alemães, que contam ainda com drink e sobremesa. O público precisa adquiri-los antecipadamente pela Sympla, pois eles não estarão disponíveis para a venda no local no momento da apresentação, serão servidos apenas aos clientes que reservarem com antecedência. Os preços variam de R$ 155 a R$ 175.

Serviço

Cabaret

033 Rooftop. Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041

Sextas, 20h30. Sábados, 15h e 20h30. Domingos, 15h e 19h30. R$ 39,60 (preço popular) / R$ 300

Estreia 8 de março. Até 12 de maio

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Ficha Técnica

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Serviço

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