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“Corpo Intruso” traz o absurdo como representação da realidade

Sinopse

Peça de Samir Yazbek tem direção precisa e minimalista de Pedro Granato para contar a história de um casal cujo final surpreende ao revelar o que mantém as pessoas vivas

Por Ubiratan Brasil

Uma professora de literatura do ensino médio (Luciana Schwinden) encontra-se no leito de um quarto de hospital, acometida por uma doença desconhecida. Enquanto aguarda para saber a gravidade do mal, ela precisa lidar com o marido (Silvio Restiffe) cujo casamento de 30 anos o tornou um homem com afetos desgastados pelo tempo, com arquétipos e símbolos do casamento convencional, força motriz de uma vida comprometida com as aparências e os ganhos materiais. Em meio a essa crise, a professora recebe a insistente visita de uma aluna (Julia Terron) que, embora sua admiradora confessa, revela um intrigante sentimento de possessividade.

É ao redor desse tom de suspense contemporâneo que se firmam os alicerces da peça Corpo Intruso, em cartaz no Teatro Alfredo Mesquita somente até o final da próxima semana – a produção procura novo espaço para seguir a temporada, que terá apresentações em junho na Biblioteca Mário de Andrade. “O espetáculo extravasa as pulsões mais secretas das personagens, buscando um caminho de cura que transcenda as mazelas meramente físicas e atinjam o social”, observa o autor Samir Yazbek.

Luciana Schwinden e Silvio Restiffe em Corpo Intruso. Foto Nadja Kouchi

De fato, à medida que vai descobrindo a extensão da gravidade de sua doença misteriosa, a professora, ciente da finitude, confessa suas frustrações de não ter se arriscado como escritora. Isso porque ajudou a sustentar um casamento totalmente moldado pelo marido. Este, ao perceber que a mulher se distancia à medida em que descobre sua frustração, sente sua segurança ficar abalada. Por fim, a aluna tem uma insistência em falar com a professora que se revela aos poucos, até o final surpreendente.

“Há um elemento de classes nessa análise, representado pelas elites brasileiras, que cristalizaram uma postura avessa ao contato com o outro ou com o diferente. Mas esses abismos, na peça, também são explorados por meio das relações interpessoais e intrapessoais: ver o macro da sociedade por meio do micro das relações humanas”, explica Yazbek, cuja dramaturgia sempre busca refletir sobre a condição humana.

Luciana Schwinden e Julia Terron em Corpo Intruso. Foto Nadja Kouchi

Desde sua estreia como autor com Uma Família à Procura de um Autor (1988), passando pelas bem sucedidas O Fingidor (1999), A Terra Prometida (2002) e A Entrevista (2004), até chegar à recente O Outro Borges (um dos melhores espetáculos do ano passado), Yazbek escreve sempre privilegiando a palavra, principal recurso de seus personagens, em geral tocados pelo isolamento – mais íntimo que social. À medida que a trama avança, independente de qual seja, esses personagens se desnudam psicologicamente, o que permite ao espectador estabelecer a natureza desses seres, suas possibilidades e seus limites.

A relação com a plateia, aliás, torna-se essencial em Corpo Intruso, a ponto de o diretor Pedro Granato tomar a certeira decisão de colocar o público no palco, acomodado em 40 cadeiras e muito próximo dos atores – Carolina Romano faz participação especial como a enfermeira. A encenação minimalista, com poucos recursos em cena e com cortes cinematográficos (a cama do hospital muda de posição a cada cena, alterando o ponto de vista do espectador), facilita a intenção do dramaturgo em incentivar a curiosidade do público por meio de uma série de perguntas: como saber se e quando devo deixar que o outro se aproxime de mim? Devo me aproximar dele? Ele me oferece riscos? Que riscos ele me oferece? Vale a pena correr esses riscos? Vale a pena me expor para o outro? Afinal, quem é o outro?

Cena da peça Corpo Intruso, de Samir Yazbek. Foto Nadja Kouchi

A dramaturgia se pautou na investigação da linguagem, na troca com artistas de gerações distintas e na escrita debatida em mesa com direção e elenco em todo o processo. Mas a peça também se inspira na dimensão psíquica das personagens de Ingmar Bergman, para falar sobre o sofrimento da protagonista, e em autoras como Virginia Woolf e Rosa Montero, sobretudo na perspectiva crítica que apresenta sobre a dinâmica das relações humanas e o papel da mulher na sociedade. 

Serviço

Corpo Intruso

Teatro Alfredo Mesquita. Av. Santos Dumont, 1770

Sexta e Sábado, 21h. Domingo, 19h. R$ 20

Até 31 de março (a peça deverá continuar em outro espaço, a ser divulgado)

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Ficha Técnica

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Serviço

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