O espetáculo “João, Joãozinho, Joãozito”, gratuito no Sesi, diverte o público retratando a infância que moldou o grande escritor mineiro, o que ele seria pela vida, seu amor pelos bichos, pelas ciências, geografia e letras
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 28 de agosto de 2026)
O título não poderia ser mais delicioso. Sonoro, brincalhão, convidativo. Estreia neste fim de semana no Teatro do Sesi, com ingressos gratuitos, o espetáculo João, Joãozinho, Joãozito. Não dá vontade de ir correndo ver com as crianças? Esse João deve aprontar todas, com certeza. O atrativo aumenta quando se descobre que é uma peça sobre a infância de ninguém menos do que Guimarães Rosa (1908-1967), o genial escritor mineiro, autor de Grande Sertão: Veredas, entre tantas outras maravilhas.
Mas o que há na infância de um homem letrado como ele, que possa atrair as crianças de hoje? Márcio Araújo, autor e diretor da peça, responde prontamente: “Ainda hoje muitas crianças se sentem deslocadas, excluídas, não conformes… O menino Joãozito foi uma dessas, que ao mesmo tempo se encantava pelo sertão e não cabia naquele lugar. Era criticado e excluído por gostar de ler, amar os bichos, se interessar por ciências, geografia, línguas, num lugar onde homem tinha que ser grosseiro, duro, “da roça”, e ele sofria por ser uma criança sensível.”
Márcio prossegue, agora falando de si: “Assim como ele, eu também fui assim e sofri; e tantos de nós, esmagados, incompreendidos, anulados. Espero que este espetáculo seja um momento de reflexão para pais e filhos, de encontros, de curas, aceitações e de amor.” Foram sete anos de pesquisa para resultar na peça, período em que Márcio Araújo fez muitas descobertas e teve a certeza de que era uma história que merecia um espetáculo.

“Foram tantas surpresas”, conta ele. “A primeira pesquisa de apoio veio do livro João, Joãozinho, Joãozito, o Menino Encantado, do Claudio Fragata, que inspirou a peça. Depois o meu mergulho, in loco em Cordisburgo, cidade natal do escritor. Foram dias e dias pela casa do Guimarães, pela cidadezinha e também revisitando a obra desse gênio, que tem muitas pinceladas autobiográficas.”
O diretor prossegue, entusiasmado: “Guimarães foi um menino que aprendeu a ler sozinho com 4 anos de idade, num interior quase analfabeto! Descobrir que foi médico aos 22 anos e trabalhou pelo interior do Brasil na companhia de outro célebre jovem médico, Juscelino Kubitschek (seu amigo pela vida toda). Descobrir uma infância que moldou tudo o que Guimarães seria pela vida, seu amor pelos bichos, pelas ciências, geografia, línguas… que mais tarde o tornariam médico, diplomata e conhecedor de tantos idiomas. E por fim, se tornar o grande escritor que foi. Tudo veio da infância! E olha que ele viveu só até os 9 anos em Cordisburgo, mas a maior parte da sua obra conta desse sertão, dessas marcas deixadas nele nessa fase”.
A montagem também não poderia deixar de estabelecer um diálogo entre essa apaixonante biografia do escritor e sua produção literária tão única e antológica. “Escolhi várias maneiras de fazer esse cruzamento”, diz Márcio, “ora com citações de obras, ora com personagens fictícios que atravessam a trama, ora com situações tiradas de contos, buscando um panorama das suas várias obras pela cronologia.”
Ele cita um exemplo, que não chega a ser spoiler: “O pai de Joãozito, Seo Fulô, tinha uma venda de secos e molhados em frente à estação de trem de Cordisburgo. Como ali era a passagem de muitas pessoas, escolhi esse local para a cena dos jagunços do Grande Sertão, trazer Hermógenes, também citar o conto O Famigerado do livro Primeiras Estórias e até o personagem Diadorim em pessoa aparece para enfrentar um jagunço.” Ou seja, pelo jeito adultos também vão se encantar com tudo o que acontece no palco.

“Nosso Joãozito tem um amigo imaginário, Miguilim, que o segue por toda a peça, trazendo detalhes do famoso conto de Guimarães, que autobiografou a sua infância e criou este alter ego, e os cruzamentos com sua vida pessoal, como sua alta miopia”, acrescenta o autor, que fez todo o elenco se revezar no papel do menino protagonista.
“Hoje se faz necessário que todas as crianças se vejam representadas”, justifica Márcio Araújo. “Como nossa história retrata um homem branco, da classe alta, senti a necessidade de mostrar as várias facetas do Guimarães em corpos divergentes. Assim, esse elenco completamente diverso brinca de ser Joãozito. O menino que finge ser médico é feito por uma mulher trans. Joãozito criando suas primeiras aventuras pelo mundo é vivido por uma mulher preta, e mesmo os pais, mães e irmãs de João também seguem essa lógica e passam por vários tipos de famílias, incentivando que todas as crianças sonhem e sejam o que elas quiserem ser.” Magnífica decisão.
Márcio Araújo considera “uma coroação” poder estrear um espetáculo no tão disputado e amado Teatro do Sesi SP, em plena Avenida Paulista. “Chegar ao Teatro do Sesi é realizar um sonho”, atesta. “Um prazer, uma emoção e uma grande responsabilidade. Ainda mais chegar de mãos dadas com o menino Joãozito, que se tornou um dos maiores escritores do Brasil e do mundo. É uma honra que agradeço imensamente ao produtor Daniel Palmeira, idealizador deste projeto.”
Ele conta mais sobre essa sua aventura, que vem de muito tempo atrás. “É a coroação de uma trajetória que começou aos 5 anos, no pré-primário de uma escola pública em Carapicuíba, onde fiz minha primeira peça”, relembra, emocionado. “De lá para cá, minha estreia profissional aos 12 anos, no Centro Cultural São Paulo, ao lado de Isabel Teixeira, na peça Uma Aventura a Caminho do Guarujá. Na adolescência, seis anos de teatro amador em Carapicuíba, já dirigindo e atuando, ao lado do amigo Marcello Airoldi.
Dos 25 até hoje, 55, uma carreira dedicada a criar e escrever para crianças na TV, no teatro e na literatura. A responsabilidade e a vontade de formar seres humanos mais empáticos, mais amorosos com o próximo e o planeta. Uma estrada longa e sólida! Criar as músicas com o mestre e amigo Tato Fischer (este é o nosso 16º trabalho juntos) é uma alegria.” E arremata: “Aguardo todas as crianças e pais aqui, para se divertirem e se emocionarem!”
Serviço
João, Joãozinho, Joãozito
Centro Cultural Fiesp – Teatro Sesi-SP. Av. Paulista, 1.313
Quintas e sextas, 11h. Sábados, 15h. Domingos, 14h
Ingressos gratuitos. Reservas pelo www.sesisp.org.br/eventos
Até 13 de dezembro (estreia 29 de agosto)
