A atriz Patrícia Vilela escreveu e contracena com os atores Alex Slama e Arthur Guterres na peça dirigida por Elias Andreato
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 7 de julho de 2026)
Por mais de três décadas de carreira, a atriz, diretora e professora Patrícia Vilela, de 54 anos, jamais pensou em escrever para o teatro. Até que, durante o isolamento da pandemia, trancada em seu apartamento, em São Paulo, começou a prestar mais atenção no absurdo da situação relacionado aos desmandos da política brasileira e internacional. Eram Donald Trump, Jair Bolsonaro, postagens incessantes nas redes sociais e uma série de fatos que fazia tudo isto parecer tão longe e perto da realidade.
Ainda em 2020, ela concluiu a dramaturgia de Cães de Rua, que colocou em cena 17 personagens envolvidos com golpes, mudanças de posições ideológicas e fake news reunidos em uma terapia coletiva. Quando a peça estreou, no fim de 2021, Patrícia trabalhava no texto de Perda Maior e, em 2022, foi a vez de colocar na tela do computador Demônios de Poeira, sobre um menino abandonado que se torna matador de aluguel em um cartel mexicano. As três peças foram reunidas no livro Trilogia de uma Sociedade Distópica, lançado pela Editora Patuá em maio.
Enquanto Demônio de Poeira permanece inédita, Perda Maior ganha os palcos paulistanos a partir desta quarta, dia 8, na CaSa SLamB, em Pinheiros, sob a direção de Elias Andreato. No elenco, além de Patrícia, os atores Alex Slama e Arthur Guterres interpretam três personagens seduzidos por um anúncio que promete o sucesso imediato.

A peça foi lançada em abril no Festival de Curitiba em um teatro convencional para 300 espectadores. Aqui, radicaliza na intimidade ao ser montada em um ambiente para 30 pessoas. “Eu gosto de espaços não convencionais porque o público e os atores são desafiados pela proximidade”, justifica Patrícia. “É como se a plateia acompanhasse tudo em close, não há chance de dispersão.”
Pedro (personagem de Slama) é um homem que sofre ao enfrentar uma tragédia pessoal. Ele perdeu o filho e sua família se desestruturou. Sem coragem de acabar com a própria vida, decide convocar voluntários para um suposto treinamento que promete ensinar atalhos para atingir os objetivos e, quem sabe, manipulando os outros, consiga exorcizar seus demônios. Adele (vivida por Patrícia) e Lúcio (papel de Guterres) são os escolhidos que, confrontados com embates psicológicos, torturas e ameaças de morte, se envolvem em um drama que testa a estabilidade emocional de cada um.
“É uma reflexão sobre a vulnerabilidade de alguns e a crueldade de outros que vemos o tempo todo em programas como Big Brother Brasil, A Fazenda e até nos realities shows de gastronomia”, explica Elias Andreato. “A peça faz uma crítica a pessoas dispostas a qualquer coisa em nome do que desejam.”
Para Patrícia, o protagonista Pedro é uma metáfora ao discurso de poder pregado pelos Estados Unidos que contamina mesmo pessoas com um senso crítico mais evoluído. O cenário de Perda Maior traz um espelho no fundo da cena em que o público pode ver sua imagem refletida – como se estivesse vigiando e sendo vigiado o tempo todo. A relação não é estabelecida apenas com o reality show Big Brother Brasil ou derivados. As postagens no Instagram, com a propaganda de uma suposta vida que, na maior parte das vezes, é bem distante da realidade, é o principal combustível desta ação de voyeur prejudicial em esferas psicológicas e políticas.

“Eu sempre fiquei atenta ao arrivismo em torno da fama, algo que acabamos nos acostumando no meio artístico”, afirma a atriz e dramaturga. “O problema é que isto se alastrou para todas as profissões e disputas são alimentadas em qualquer ambiente ou setor da sociedade.”
Radicada em São Paulo há 26 anos, a gaúcha Patrícia trouxe para a dramaturgia questões que lhe provocam como cidadã e artista, mas nunca teve oportunidade de aprofundar em seus trabalhos. “Eu tenho um interesse maior por textos contemporâneos, montei poucos clássicos, mas comecei a ter vontade de falar sobre minhas inquietações”, comenta. Ela sempre foi atenta à política e, com a ascensão da extrema direita, percebeu o quanto as pessoas começaram a ser manipuladas em suas opiniões, principalmente através do Twitter, rede social que acompanha desde a década de 2010, e viu a consolidação de uma mentalidade que lhe amedrontou.
Desde 2007, Patrícia é professora da Escola de Atores Wolf Maya, em São Paulo, e o perfil dos alunos e alunas passou por uma transformação evidente nos últimos 15 anos. Não eram mais apenas a ansiedade por um resultado bem-sucedido ou a obviedade da fama sobreposta ao conteúdo que a impressionaram, mas um comportamento conservador que interfere no aprendizado e modifica o potencial de cada um. “Muitos não conseguem fazer uma análise aprofundada de textos que retratam tramas cotidianas e se recusam a criar um ou outro personagem que entra em conflito com visões pessoais”, justifica.
Andreato elogia o jogo teatral construído pela autora e considera Perda Maior um exercício que merece ser visto por colocar em cena fatos que passam despercebidos muitas vezes. Ao invés de criar um drama intimista ou uma história inspirada em temas confessionais, Patrícia foi ambiciosa ao abordar assuntos complexos e amplos para, depois das narrativas distribuídas, buscar a identificação com as particularidades do espectador.
“Patrícia é uma artista que atua, dirige, dá aula e batalha de diferentes formas, então acho que seus textos espelham estas experiências acumuladas ao longo da carreira”, define o diretor. “Como autora, ela cria personagens que tentam resistir à violência e se enredam cada vez mais.”
Serviço
Perda Maior
CaSa SLamB. Rua Mateus Grou, 106, Pinheiros
Quartas, 20h. R$ 80
Até 30 de setembro (estreia 8 de julho)
