Montagem acompanha a história de um casal que tenta sobreviver à dor provocada pela morte violenta do filho de treze anos; dramaturgia se exime de tratar explicitamente temas como o racismo, mas aponta indiretamente sua presença diante da situação vivida pelas personagens
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 15 de julho de 2026)
Como seguir vivendo quando a ausência ocupa todos os espaços da casa? Esta é a pergunta que atravessa Nó, novo espetáculo escrito por Gildon Oliveira e dirigido por Beatriz Barros, em temporada no Espaço ºAndar, no bairro da Santa Cecília.
Interpretados por Heloisa Jorge e Fábio Osório Monteiro, Célia e Sebastião vivem confinados em uma cozinha simples e organizada, ambiente que concentra as memórias da família e onde a ausência do filho Emanuel se torna uma presença constante. Entre lembranças afetuosas da infância do menino e os silêncios que atravessam o cotidiano, o espetáculo investiga as diferentes maneiras de lidar com o luto e os impactos da violência sobre os vínculos familiares.
Enquanto Célia transforma sua dor em ação pública, retornando diariamente ao local onde o filho foi assassinado para manter viva sua memória e reivindicar justiça, Sebastião se recolhe ao silêncio, à insônia e ao desejo de vingança. A tensão entre essas duas formas de enfrentamento revela as fissuras provocadas pela perda, mas também aponta para a possibilidade de reconstrução de laços afetivos e políticos.
“O espetáculo é um encontro entre diferentes formas de elaboração do luto. As perspectivas de Célia e Sebastião dialogam, debatem, convergem, divergem, se abraçam e se chocam ao longo do tempo. Também nos interessava investigar essa tensão constante entre o que é privado e o que é público. Estamos dentro de uma casa marcada pela ausência de um filho, mas também diante de uma questão que atravessa toda a sociedade brasileira”, afirma a diretora Beatriz Barros.
O texto nasceu do desejo de abordar temas como racismo e violência sem recorrer a explicações diretas. “Queria tocar no assunto do racismo, mas não diretamente sobre ele. A gente sabe que uma criança morreu, mas não se sabe como ela morreu. O que eu queria muito abordar é o processo de luto, mas sob uma perspectiva que a gente não está acostumado: não discutindo o que aconteceu, mas como essas pessoas vão conseguir sobreviver a isso”, afirma o dramaturgo Gildon Oliveira.
A encenação investiga o tempo suspenso da perda, observando como os gestos cotidianos se transformam diante da ausência. Entre cafés compartilhados, cadeiras vazias e memórias insistentes, a casa deixa de ser apenas um espaço marcado pela falta para tornar-se território de resistência e reinvenção.
Serviço
Nó
Espaço ºAndar. Rua Dr. Gabriel dos Santos, 88, Santa Cecília
Terças e quartas, 20h. R$ 70
Até 29 de julho (estreou 7 de julho)
