Escrito e interpretado por Luciana Carnieli, solo celebra uma mulher que desafiou as normas de sua época, enfrentando a discriminação por sua postura irreverente e inovadora
Por Ubiratan Brasil (publicada em 9 de setembro de 2026)
Sarah Bernhardt (1844-1923) nasceu para o sucesso. Considerada por muitos “a atriz mais famosa da história”, a francesa aprendeu a arte de interpretar sem obedecer a regras – ao contrário da contenção recomendada no palco, ela transbordava emoção, erotismo e feminilidade. O maior defeito de Sarah – o caráter indócil e firme – revelou-se a maior qualidade.
Inspirado na trajetória de vida da atriz francesa, o espetáculo Uma Rapsódia para Sarah Bernhardt traz Luciana Carnieli, atriz de técnica refinada para composição de papéis inspirados em personagens reais, como a mulher que praticamente inventou o fenômeno da celebridade: os escândalos da vida privada repercutiam mais que as realizações artísticas.
As poses para os fotógrafos demonstram o domínio da própria imagem. E com extravagâncias: o chapéu de morcego empalhado, o caixão mantido no quarto e a criação em casa de um pequeno zoológico com camaleão, crocodilo, filhotes de leão.

Com direção de Elias Andreato, o solo, escrito por Carnieli, revela uma mulher cuja interpretação trágica sem maneirismos se estabeleceu como o padrão para o teatro da época. Por outro lado, enfrentou dissabores da vida mundana – na velhice, arcou com as dívidas do filho playboy, viciado em jogatina. A necessidade de dinheiro, apesar da fortuna gerada pela fama, explica a atuação no palco até o fim.
Em 1905, ao atuar em La Tosca, de Victorien Sardou, no Teatro Municipal do Rio, Sarah machucou o joelho direito em uma cena e nunca mais se recuperou do ferimento. Em 1915, ela decidiu amputar a perna direita, atingida por dores insuportáveis. A coragem de fazer a amputação revela o frio realismo com que Sarah se percebia. Foi assim até a morte, em 1923. O funeral de três dias, em Paris, causou agitação comparável ao enterro de Victor Hugo, 40 anos antes.
A trilha sonora do espetáculo, elaborada pelo maestro João Maurício Galindo, destaca-se por resgatar a obra de grandes compositoras contemporâneas de Sarah Bernhardt, como Lili Boulanger e Cécile Chaminade. Essa escolha cria um diálogo profundo entre a trilha sonora e o texto e valoriza a presença feminina nas artes.
O espetáculo se apresenta nos dias 18, 19 e 20 de setembro no Teatro Cacilda Becker, como parte do Festival Pulsa SP.
Serviço
Uma Rapsódia para Sarah Bernhardt
Teatro Cacilda Becker. Rua Tito, 295
Dias 18, 19 e 20 de setembro. Sexta e Sábado, 20h. Domingo, 19h. Grátis
