Monólogo baseado nos textos do escritor chileno questiona lugar do artista diante da violência contemporânea
Por Ubiratan Brasil (publicada em 19 de agosto de 2026)
Ao longo dos anos 1990, a literatura latino-americana foi marcada pela escrita do chileno Roberto Bolaño (1953-2003), que se tornou notável por abordar temas explosivos sob um refinamento intelectual único, que utiliza tanto o terror político como a íntima relação entre o mal e a literatura como ingredientes principais.
Considerado um dos três principais autores contemporâneos da América, Bolaño tem o legado apresentado na peça Deserto, que chega ao Itaú Cultural, em São Paulo.
Dirigido por Luiz Felipe Reis, o espetáculo é a primeira encenação brasileira baseada na obra do autor chileno, cuja memória é lembrada pela combinação de teatro, literatura, poesia, música e vídeo. Em cena, o ator Renato Livera dá voz ao escritor e recria rastros de uma aventura baseada em algumas de suas obras emblemáticas, como A Universidade Desconhecida, 2666, Entre Parêntesis e Bolaño por Si Mesmo.

Segundo Reis, o espetáculo trata, pela voz do escritor, da ideia de desertificação e desvitalização das subjetividades da atualidade. Nesse contexto, para ele Deserto acompanha o compromisso de Bolaño com o fazer literário, ao questionar o lugar da poesia e dos artistas frente à violência do mundo contemporâneo.
“Bolaño compreende a poesia, a aventura poética, como uma forma de vida, como uma forma de escapar ou de se contrapor ao conjunto de normas e hábitos impostos pelo regime político-econômico capitalista em sua forma neoliberal, contemporânea, marcada pela intensificação do desamparo, dos conflitos, do sofrimento psíquico, da exaustão ambiental. Em suma, pela desertificação de tudo que é vital e fundamental à vida”, diz o diretor.
Bolaño alcançou repercussão internacional graças aos elogios que recebeu em 2008 da crítica norte-americana, especialmente depois do lançamento de 2666 em inglês. Em pouco tempo, o autor tornou-se “um talismã da cultura literária dos Estados Unidos”, segundo assegurou o jornal The New York Times.
Sua morte prematura, aos 50 anos, em 2003, foi graças a uma enfermidade hepática, quando ele aguardava um transplante de fígado.
Serviço
Deserto
Itaú Cultural – Auditório. Avenida Paulista, 149
Quinta a sábado, 20h. Domingo e feriados, 18h.
Entrada gratuita. Reservas de ingressos a partir da terça-feira da semana da apresentação, às 12h, na plataforma INTI – acesso pelo site do Itaú Cultural
Até 30 de agosto (estreia 20 de agosto)
