Musical em cartaz no 033 Rooftop traz elenco afiado que ironiza o jogo de poder nas dinâmicas do relacionamento familiar
Por Ubiratan Brasil (publicada em 5 de agosto de 2026)
Uma família se reúne em uma mansão isolada na França para passar o Natal. A festa, porém, se transforma em uma grande investigação quando o patriarca amanhece morto, aparentemente assassinado. Eis o ponto de partida de 7 Mulheres e um Mistério, musical que estreou no espaço híbrido do 033 Rooftop, localizado no alto do Teatro Santander, em São Paulo.
A peça foi escrita por Anna Toledo a partir do original do francês Robert Thomas que, em 1958, publicou o texto Huit Femmes (8 Mulheres). Três anos depois, o texto foi adaptado para o teatro, alcançando grande sucesso, tornando-se um clássico do suspense e do teatro policial graças à habilidade de Thomas em criar histórias envolventes que resistem ao teste do tempo.
“A estrutura dramatúrgica é sólida, oferecendo surpresas a cada instante”, comenta Ricardo Grasson, que divide a direção artística do espetáculo com Heitor Garcia. Temas que hoje ganham mais relevância (como etarismo, papéis de gênero, bissexualidade e preconceito na relação entre patrão e funcionários) são valorizados na montagem brasileira que, apesar da versão cinematográfica de François Ozon (Oito Mulheres, de 2002), se apoia mais na adaptação de 2021 realizada pelo cineasta italiano Alessandro Genovesi, que abriu mão do estilo musical e investiu em uma linguagem cinematográfica voltada para uma ambientação de mistério e suspense, e mudou o título da peça para 7 Mulheres e Um Mistério.

“Revisitamos a época em que a história foi escrita, ampliamos e observamos o quão as questões daquela época ressoam até hoje. A obra distancia essas histórias do realismo fechado da literatura policial, e essa distância é aquela fornecida por um confortável ‘não leve totalmente a sério’, o que nos proporciona como diretores ampliar deliberadamente esse distanciamento autoirônico e aproximar/transformar a história em farsa”, conta Garcia.
Ao adaptar o original, Anna Toledo fundiu dois personagens e aproximou todos de reações brasileiras. Também autora das letras e das melodias, ela variou os estilos musicais, transformando o espetáculo em uma divertida colcha de retalhos sonoros. “Ao adaptar essa trama para uma comédia musical, eu imaginei que tudo teria que ser exacerbado – os segredos têm que ser bombásticos e as emoções, vulcânicas. Então a música entra para trazer à tona estes sentimentos, virar tudo de ponta cabeça e revelar o que está oculto”, conta ela, que buscou uma mistura heterodoxa de Agatha Christie, Pedro Almodóvar e os bonecos Muppets.
Como no filme de Ozon, as mulheres são as únicas personagens, fazendo com que se explicite o poder feminino e como elas conseguem dominar em um mundo machista. “O desafio que eu mesma me propus foi multiplicar estes conflitos para criar personagens femininos com motivações mais complexas. Neste sentido, o protagonismo feminino não se dá apenas pela presença de atrizes mulheres, mas também pelas ações das personagens, que passam a ser movidas por desejos além da necessidade de validação pela figura masculina”, ressalta.

A dramaturga lançou-se também ao desafio de criar as canções que se adaptassem bem ao estilo e à voz das intérpretes. “Isso facilita muito nosso trabalho, ao mesmo tempo que aumenta nossa responsabilidade”, comenta Letícia Soares, que divide a cena com grandes nomes do teatro musical brasileiro: Bruna Guerin, Laura Castro, Malu Rodrigues, Paula Capovilla, Stella Miranda e Verónica Valenttino – Carla Masumoto e Larissa Noel são as swings.
“É uma dramaturgia cheia de detalhes, aguçada, precisa, preciosa. É um texto que lendo hoje, vemos que é mais atual do que nunca. Ele fala sobre as relações humanas, sobre o jogo de poder nas dinâmicas do relacionamento familiar. Eu acho que a vibração, a importância desse texto é essa. Por isso transcende ao tempo, como as grandes obras”, aponta o diretor Ricardo Grasson.
O projeto, que precisou de três anos para se tornar realidade, tem a assinatura de Bruna Dornellas, Heitor Garcia, Ricardo Grasson e Wesley Telles.
Serviço
7 Mulheres e um Mistério – o Musical
033 Rooftop do Teatro Santander – Complexo JK. Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041
Sextas, 20h. Sábados, 16h e 20h. Domingos, 15h e 19h. R$ 50 / R$ 300
Até 4 de outubro (estreou 31 de julho)
