Em “Eu Sou Minha Própria Mulher”, ator vive 21 personagens que resgatam a memória da travesti alemã Charlotte von Mahlsdorf, que enfrentou o nazismo
Por Ubiratan Brasil (publicada em 15 de setembro de 2026)
Para comemorar no palco seus 80 anos de vida, o ator Edwin Luisi traz a São Paulo o monólogo Eu Sou Minha Própria Mulher, em que resgata a memória da travesti alemã Charlotte von Mahlsdorf (1928–2002), sobrevivente da opressão do nazismo e do regime comunista. A peça, em cartaz no Teatro Faap, é um desafio para o ator que interpreta 21 personagens.
Travesti de voz suave que só desejava viver como dona de casa, Charlotte von Mahlsdorf (nascida sob a identidade masculina de Lothar Berfeld) viu-se envolvida nos dramas mais angustiantes da Europa do século XX, sobrevivendo tanto aos nazistas quanto aos comunistas. Com direção de Herson Capri, a peça estreou no Rio em 2009 e, desde então, Luisi ensaiava trazê-la para São Paulo.
O passar do tempo permitiu que a montagem se aprimorasse. “Antes de mais nada, é necessário dizer que essa é uma releitura, uma outra produção. Alguns profissionais mudaram, o texto foi atualizado. Inclusive a forma como eu encaro o texto é diferente daquela época, passaram-se muitos anos”, comenta o ator.
“Nesse meio tempo, tivemos muitas mudanças no mundo, sobretudo uma pandemia, que marcou a todos nós. E vejo o texto hoje muito mais atual do que na época, porque fala de identidade, resistência, da liberdade de ser o que se é. Hoje tem muito mais campo para esse tipo de narrativa, é uma pauta importantíssima em qualquer lugar do mundo. Na época em que montei, essas coisas ainda estavam muito diluídas”, continua ele.

A história de Charlotte estava esquecida até 1989, quando a queda do muro de Berlim permitiu a recuperação de trajetórias. A vida de Charlotte chamou atenção de um jornalista norte-americano que, por sua vez, envolveu o escritor Doug Wright na história. Ele entrevistou a alemã e escreveu uma dramaturgia que logo venceu o prêmio Pulitzer, na categoria drama, além do Tony, prêmio máximo do teatro nos Estados Unidos.
O espetáculo busca não apenas retratar uma trajetória individual, mas iluminar os mecanismos de opressão e, sobretudo, a força da resistência. Charlotte não é apresentada como heroína clássica, mas como alguém que escolheu existir plenamente, mesmo quando o mundo insistia em negá-la.
Sozinho em cena e sem recorrer a artifícios, valendo-se basicamente da sua interpretação, Edwin Luisi dá vida a 21 personagens que cruzam a trajetória de Charlotte – seu pai, seu amante, oficiais nazistas, o próprio autor da peça e outros. “Tive de buscar vozes, tipos, tiques, características próprias de cada um”, conta o ator.
À época da estreia no Rio, a crítica Barbara Heliodora escreveu: “Edwin Luisi tem um trabalho de alta categoria, cujo maior mérito é a justa medida de tom e gesto nas incontáveis composições que chegam ao requinte de variar sotaques, falar bom e mau alemão”. No Jornal do Brasil, Macksen Luiz observou que “o ator escapa das armadilhas caricaturais de criar uma travesti, destacando o detalhamento corporal e vocal da interpretação”.
Serviço
Eu Sou Minha Própria Mulher
Teatro Faap. Rua Alagoas, 903
Sextas e Sábados, 20h. Domingos, 17h. R$ 160
Até 29 de novembro (estreou em 11 de setembro)
