Atriz é destaque de “Piaf – Eu Não me Arrependo”, musical em cartaz no Teatro Brasdesco, onde oferece uma inspirada interpretação da grande diva que viveu entre miséria, boêmia e aplausos
Por Ubiratan Brasil (publicada em 17 de agosto de 2026)
Para o poeta Jean Cocteau, a francesa Édith Piaf (1915-1963) foi “um símbolo dos românticos” que ainda sabiam “amar, sofrer e morrer”. Para contar a história dolorosa dessa cantora, vinda do submundo parisiense e apelidada de Pequeno Pardal, os dramaturgos Newton Moreno e Alessandro Toller apostaram nas contradições da artista para escrever Piaf – Eu Não me Arrependo, musical em cartaz no Teatro Bradesco, em São Paulo.
Ao longo da carreira, a própria Piaf moldou uma vida cheia de lendas que foram unidas à sua biografia para engrandecer o mito da menina com voz poderosa e corpo pequeno (1,47 m) que colocava em cada nota a tragédia de sua existência.
Com inspirada direção de Sergio Módena, o musical acompanha a jornada de Piaf desde a infância marcada pela pobreza até a consagração mundial, em um percurso marcado por muitos amores, por seu envolvimento com a resistência francesa e por seus diversos problemas de saúde. Mas a grandeza dessa fragilidade só é conseguida com a precisa e cuidadosa interpretação de Laila Garin no papel principal.

Desde que se tornou nacionalmente conhecida em 2013, como Elis Regina no espetáculo Elis – A Musical, Laila (filha de mãe baiana e pai francês) se notabiliza por papéis que exigem um potencial que navega bem entre o drama e a comédia. E, como Piaf, ela entrega uma perfomance marcada por sutilezas que afastam qualquer tentativa de transformar a fragilidade em caricatura.
Também o cuidado vocal foi essencial para alcançar o timbre característico da cantora francesa, a ponto de utilizar com correção o posicionamento dos próprios dentes para se aproximar fisicamente de Piaf. “É por meio da voz que ela diz o quanto não quer morrer e o quanto ama desesperadamente a vida”, afirma a atriz.
“Contar a história de Piaf em um musical é falar sobre vencer o destino que nos é imposto, mas celebrar a força feminina, a solidariedade e a vida inspiradora de uma mulher que superou todos os desafios e que jamais se arrependeu de suas escolhas”, analisa Aniela Jordan, diretora artística da Aventura, produtora responsável pelo espetáculo, também conduzida por Luiz Calainho e Giulia Jordan.
Criada entre um bordel, uma caravana circense e um bairro de classe trabalhadora, Piaf foi descoberta cantando na rua e iniciou sua carreira em um cabaré na Champs-Elysées.
Em 1935, cantando nas ruas de Pigalle, foi descoberta por Louis Leplée (Bernardo Berro), que a levou para cantar no cabaré de sua propriedade, o Le Gerny’s. Com ele, aprendeu as técnicas de apresentação no palco e foi apelidada de “La Môme Piaf” (pequeno pardal).

Mesmo durante a ocupação da França pelos alemães, na Segunda Guerra Mundial, Piaf continuou cantando. Em 1945, escreveu La Vie en Rose, um dos seus maiores clássicos. Em 1947, fez seu primeiro show nos Estados Unidos. Em 1948, de volta ao país, conheceu o pugilista Marcel Cerdan (Patrick Amstalden), com quem teve um grande romance, mas que terminou com a morte de Marcel em um acidente de avião em 1949. Em sua memória, Piaf gravou a célebre Hymne à l’amour e Mon Dieu.
Abalada emocionalmente pela morte do companheiro e com fortes dores provocadas pelo reumatismo, Piaf passou a fazer uso da morfina e se entregou ao álcool. Em 1951, sofreu um sério acidente de carro, sendo submetida a várias cirurgias e novas injeções de morfina. Mesmo fragilizada, realizou apresentações memoráveis no Olympia de Paris e no Carnegie Hall de Nova Iorque.
Após um rápido romance com Charles Aznavour e um casamento de quatro anos com Jacques Pills, ela se envolveu com o cantor Georges Moustaki. Em 1958, ao lado dele, Piaf sofreu um grave acidente de carro, que lhe causou um traumatismo craniano e fragilizou de vez sua saúde.
Mas Piaf, que afirmava preferir morrer a deixar de cantar, retornou em 1961 para se apresentar no lendário teatro Olympia, de Paris, com um concerto no qual estreou Je ne Regrette Rien (Não me arrependo de nada), com pele pálida e um decotado vestido preto, remetendo a seu passado de álcool, romances e morfina.
Sem condições de retomar a carreira, Piaf se retirou para o sul da França, onde viveu seus últimos dias ao lado de seu marido Theo Sarapo (Gabriel Vicente) e de sua enfermeira.
No dia 10 de outubro de 1963, morreu em uma casa de campo na cidade de Grasse, aos 47 anos. O corpo da cantora foi levado clandestinamente a Paris, onde no dia seguinte houve o anúncio que tinha morrido na capital francesa, atendendo os desejos de Piaf.
Os altos e baixos dessa trajetória não são suavizados na montagem, que conta com uma potente orquestra com apenas musicistas mulheres, conduzidas por Cláudia Elizeu.
Serviço
Piaf – Eu Não me Arrependo
Teatro Bradesco – Shopping Bourbon. R. Palestra Itália, 500
Quintas e sextas, 20h. Sábados, 16h e 20h. Domingos, 15h. R$ 50 \ R$ 300
Até 30 de agosto (estreou 8 de agosto)
