Comédia dramática com Bianca Bin e Sérgio Guizé desemboca em discussões existenciais ao revelar a crise de Deus com a humanidade
Por Ubiratan Brasil (publicada em 29 de julho de 2026)
Quando recebe um paciente que marcou apressadamente a consulta, a psicóloga Ana descobre estar diante de um ser especial: simplesmente, Deus. Assolado por uma depressão que O persegue nos últimos dois mil anos provocada pelos rumos da humanidade, o Todo Poderoso apresenta ideias suicidas e cabe à psicóloga apenas uma sessão para demovê-lo da ideia. Eis o ponto de partida de Meu Deus!, comédia dramática em cartaz no Teatro das Artes, em São Paulo.
“A peça fala sobre nossa fragilidade e sobre a necessidade de continuar acreditando. Ela não traz respostas prontas, mas uma necessidade de continuar tentando, de seguir com esperança. São tempos muito difíceis, onde a violência impera, a ironia, a velocidade”, comenta a atriz Bianca Bin, intérprete de Ana. “O texto até faz mais sentido hoje por estarmos vivendo várias guerras ao mesmo tempo, tudo televisionado. É uma experiência poder trazer isso para o palco e de uma maneira bem humorada”, completa Sérgio Guizé, que vive o Criador.
Com direção de Elias Andreato e dramaturgia da israelense Anat Gov, a peça, embora pareça fantasiosa, aproxima o espectador através do diálogo com temas universais: culpa, fé, responsabilidade, abandono, esperança.

Para o encenador, o humor ácido de Meu Deus! exige dos atores um caminho verdadeiro, sem buscar a graça no jogo cênico. “A situação inusitada já é suficiente. Assim, poderemos equilibrar a comédia e a visão crítica que a autora desenhou em sua dramaturgia, tão bem escrita e inteligente, ao trazer Deus para a terapia em um quadro de depressão”, afirma.
Sobre sua direção, reflete como ele próprio aprendeu com esse olhar mais jovem sobre a dramaturgia de uma autora que fala sobre o momento político mundial, de uma transformação gritante. “Somos representantes de um gueto. A gente pode tocar alguém, divertir, levar à reflexão, fazer a comédia com alguma utilidade.”
Para Bianca Bin, a terapia é a estrutura dramatúrgica da peça, mas o amor, a culpa, o abandono e também a necessidade desesperada do afeto são o tema central. “Assim como a saúde mental, um assunto que eu tenho abordado com recorrência no teatro porque me interessa muito. Com esse texto, questionamos o fanatismo religioso, mas não de forma panfletária. A peça convida a rir e ao mesmo tempo a fazer perguntas profundas, existenciais.”
Diante de um personagem pouco comum, Sérgio Guizé busca humanizar um Deus frágil e deprimido sem cair na caricatura. “O desafio é encontrar o humor na dor e na verdade, sem ceder à tentação da piada fácil. O trunfo está em construir um personagem vulnerável com o qual o público consiga se identificar, e não apenas rir dele.”

A peça conta também com a participação decisiva de Enzo Morente no papel de Paulo, o filho autista de Ana. “Logo no início do espetáculo, ela fala: ‘Como você quer que eu acredite que Deus existe? Olha a minha vida, o que eu enfrento, as crises do meu filho. Como você quer que eu acredite na sua existência?’ E Ele responde: vocês me culpam de tudo, me responsabilizam de tudo, mas a responsabilidade é de vocês também”, diz a atriz.
Esse é um ponto decisivo da peça, no entender de Andreato.” Ao colocar o próprio Deus em uma sessão de terapia, a peça humaniza o divino e nos lembra da fragilidade que compartilhamos. Questiona o poder absoluto, relativiza certezas e convida o público a rir e refletir sobre nossas arrogâncias cotidianas.”
O espetáculo acumula sucesso mundial desde sua estreia, em 2008, justamente por sua simplicidade – no Brasil, já ganhou uma versão com Irene Ravache e Dan Stulbach em 2014.
Serviço
Meu Deus!
Teatro das Artes – Shopping Eldorado. Avenida Rebouças, 3970
Sexta e sábado, 20h. Domingo, 17h. R$ 25 / R$ 160
Até 1º de novembro (estreou em 24 de julho)
