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Feitiço do tempo

Sinopse

Na montagem de “As Bruxas de Salém”, Grupo Satyros revela a potência e a atualidade do clássico escrito há 70 anos por Arthur Miller

Por Sérgio Roveri

A peça As Bruxas de Salém, do dramaturgo norte-americano Arthur Miller, estreou na Broadway, em Nova York, em janeiro de 1953, 61 anos antes do início, no Brasil, da operação Lava Jato, 65 anos antes da eleição de Jair Bolsonaro e exatos 70 antes da invasão do Congresso Nacional por uma turba enraivecida de vândalos e terroristas.

O enfileiramento de tais fatos, tão apartados pela história e pela geografia, poderia a princípio soar incoerente, mas, na montagem da peça de Miller a cargo do Grupo Satyros, estes episódios recentes da história política brasileira conseguem se acomodar na trama, não de forma literal, obviamente, mas em sinalizações e referências poderosas que conferem a este clássico da dramaturgia americana uma atualidade impressionante e não menos assustadora.

Com a afiada leitura dos Satyros, Arthur Miller deixa de ser apenas um dos grandes nomes da dramaturgia do século 20: As Bruxas de Salém confere a ele um novo título: o de visionário.

Se o público que tem lotado as sessões do espetáculo no pequeno teatro mantido pelo grupo Satyros na Praça Roosevelt detectar as semelhanças entre a sociedade brasileira deste início de século com a pequena comunidade puritana de Salém retratada na peça, implodida por falsas acusações de bruxaria em 1692, não terá sido mera coincidência.

“Muitas pessoas elogiam a adaptação que nós fizemos do texto de Arthur Miller”, diz Ivam Cabral, um dos idealizados do projeto ao lado de Rodolfo García Vázquez, que assina a direção do espetáculo. “Mas nosso trabalho de adaptação foi ínfima, criamos apenas um pequeno texto que é apresentado no início e depois ao final do espetáculo. Todo o resto é a peça original, todo o resto é a impressionante capacidade do autor de retratar uma sociedade adoecida pela mentira, pelo ódio e pela manipulação.”

Satyros – As Bruxas de Salém – Foto por @FotosdeTeatro @AndreStefano

Pacto com o diabo: como?

Quando Arthur Miller escreveu As Bruxas de Salém, baseado em fatos reais ocorridos entre 1692 e 1693 naquela pequena cidade costeira do Massachusetts, em que uma profusão de falsas acusações de bruxaria e histeria coletiva levou à prisão mais de 150 pessoas e outras 20 à forca, a maioria mulheres acusadas de pacto com o diabo, seu alvo na verdade era outro: ele pretendia estabelecer um paralelo com à caça às bruxas do macartismo, um período de sete anos, com início em 1950, em que o governo dos Estados Unidos recorreu à censura e  à difamação para perseguir e punir cidadãos americanos suspeitos de comunismo.

Arthur Miller foi, ao lado de outras personalidades do cinema, da ciência, da política  e da literatura, um dos perseguidos de maior quilate. Seu depoimento no Comitê de Investigação de Atividades Anti-Americanas, instalado na Câmara, foi um acontecimento duplamente explorado pela imprensa. Primeiro, porque ele era quem era e, depois porque quem o esperava em casa era Marilyn Monroe, com quem estava casado na época.

A escolha do clássico de Arthur Miller, que celebra os 34 anos de existência dos Satyros, foi feita em tempo recorde. Em janeiro último, de férias na casa que possuem no distrito de Parelheiros, zona Sul de São Paulo, Ivam Cabral e Rodolfo Vázquez tinham acabado de colocar ponto final em uma peça a ser encenada na Suécia quando, impactados pelos acontecimentos do dia 8 de janeiro em Brasília, decidiram que o próximo trabalho da companhia deveria, obrigatoriamente, retratar os fatos que estavam, havia alguns meses, ocupando a agenda política do País, entre eles as fake news das urnas eletrônicas, a radicalização de grande parte da sociedade, a negativa de Jair Bolsonaro em admitir a derrota para Lula nas eleições e, por fim, as invasões da sede dos Três Poderes.

Convite à inquietação

“Anotamos estes elementos num papel, como se fosse uma lista de compras, para dar início a um texto em que cada um deles fosse contemplado. Queríamos escrever uma peça que retratasse o que está acontecendo no mundo, um texto que mexesse com as nossas inquietações”, explica Cabral. “Quinze minutos depois, Rodolfo anunciou que não precisaríamos escrever uma linha, porque o texto pretendido já existia, tinha 70 anos mas era como se tivesse sido escrito no mês passado. Era as Bruxas de Salém”.

Segundo Cabral, As Bruxas de Salém é um convite à inviabilidade. No original, são cinco atos que, respeitados na íntegra, resultariam num espetáculo de cinco horas de duração, e que ainda exigiria um palco gigantesco e um elenco de 30 a 40 atores. De todas estas particularidades da obra, os Satyros concordaram em assumir apenas a última.

Satyros – As Bruxas de Salém – Foto AndreStefano

Em cena, há 34 atores, grande parte deles pinçada das oficinas de interpretação ministrada pelo grupo, e que dividem a cena com alguns veteranos da companhia, a exemplo da atriz Julia Bobrow, que faz a dissimulada Abigail Williams, adolescente arrivista disposta a incendiar a cidade com suas mentiras, e dos atores Gustavo Ferreira, que interpreta o reverendo Parris, homem mais interessado em contabilizar o valor de suas jóias do que em oferecer conforto aos fiéis da aldeia, e Henrique Mello que, na pele do respeitado fazendeiro John Proctor, constrói um personagem atormentado e decidido a pagar um preço incalculável pela defesa de suas convicções.

“Acredito que o reverendo Parris seja um dos personagens mais difíceis que interpretei”, releva o ator Gustavo Ferreira. “Ele não é o tipo de vilão que estamos acostumados a ver. É ardiloso, mas muda de opinião a todo instante, sempre pensando em benefício próprio. Fazer um dos representantes dessa manipulação, das fake news e do autoritarismo, é bem complexo, mas entendo a importância da sua existência para essa discussão.”

SERVIÇO

As Bruxas de Salém

Temporada prevista até o fim de novembro

Quintas, sextas e sábados às 20h30; Domingos às 18h

Espaço dos Satyros (Praça Roosevelt, 214, Consolação)

Tel. 11 3255 0994 / 11 3258 6345 | Whatsapp: 11 97883-9696

Duração: 140 min. e intervalo de 15 min.

Classificação etária: 16 anos

Ingressos: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia-entrada) e R$ 5 (para moradores da Praça Roosevelt, somente na bilheteria física)


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Ficha Técnica

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Serviço

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